Histórias de diferentes povos se entrelaçam na gênese da historiografia humana dentre a diversidade de culturas com suas características particulares, o que demonstra, que mesmo em suas singularidades, encontramos semelhanças que nos identificam enquanto humanidade, formando parte de um todo que constitui o cosmos. Essa percepção de que todos fazemos parte de uma única humanidade e, juntos, formamos o todo, é um pensamento intrínseco às filosofias de povos ancestrais, que ainda guardam as preciosidades do conhecimento de seus antepassados, entre eles os povos indígenas.
A sabedoria indígena nos traz em sua filosofia a ideia de que somos parte de um todo e que tudo é de todos, uma consciência de pertencimento a algo maior e coletivo. Quando o xamã e líder político do povo indígena Yanomami, Davi Kopenawa, fala em seus discursos que ao cair uma árvore na Amazônia “todo mundo sofre”, ele está revelando essa sabedoria, pois sabe que somos parte de um sistema orgânico e único, e que cada ser é importante para o seu funcionamento.
Da mesma forma, Ailton Krenak (2019), líder indígena da etnia Krenak, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, diz que somos uma humanidade e fazemos parte de um organismo vivo que é a Terra, porque não estamos separados da natureza. Para ele, o ser humano não deve se ver como um ser superior, visto que esse tipo de pensamento tem gerado ao longo da história a destruição do ecossistema. Krenak reitera que o fato de sermos uma única humanidade não quer dizer que somos todos iguais, mas que precisamos da diversidade, e é graças a ela que tudo flui harmoniosamente no cosmos. Há centenas de narrativas de povos que estão vivos, que contam histórias, que cantam, que dançam e que podem nos ensinar mais do que aprendemos com essa humanidade. Essa humanidade, à qual ele se refere, diz respeito ao pensamento hegemônico, ao qual somos submetidos através de valores implantados por uma história contada pelos olhos daqueles que pertencem às classes que detêm o poder e os meios para a sua expansão.
Diferentes povos carregam em sua memória histórias através do tempo. Conhecer as histórias de outros povos – bem como as nossas – nos ajuda a perceber que existem inúmeras maneiras de ver, interpretar e se organizar no mundo, que se constroem a partir das vivências de cada um. Esse entendimento requer uma percepção aguçada sobre o outro, atenção, escuta e olhar sensível. Assim, podemos contar, cantar, dançar, criar, enfim, performar histórias, pois o processo de pesquisa se entrelaça com a memória e a criação.
A linguista Maria Augusta Ribeiro (2007) fala que a arte de contar histórias faz parte da convivência dos seres humanos em sociedade, a partir da observação de acontecimentos que auxiliam no entendimento do mundo ao seu redor e na formulação de questões elementares que pertencem ao comportamento humano. Como uma maneira de explicar fenômenos que estão fora do domínio do homem, ela é religião, ciência e arte. Portanto, qualquer forma de cooperação humana em grande escala está baseada em mitos compartilhados que existem no imaginário de determinados grupos.
Para o historiador Yuval Noah Harari (2017), a base da revolução cognitiva do homem é permeada pelo que ele chama de ficções ou realidades imaginadas presentes nos mitos compartilhados, que não são mentiras, mas crenças partilhadas que fazem parte da experiência humana, tendo poder maior do que as coisas que existem no plano material, inclusive agindo sobre elas. Harari nos diz que fora da imaginação coletiva dos seres humanos não existem deuses no universo, nem direitos humanos, nem nações, nem dinheiro. Tudo isso são construções arquetípicas tornadas reais através da crença coletiva.
Encontramos histórias em diferentes formas de narrativas: mitos, lendas, contos, fábulas, causos, epopeias, romances, dramaturgias, crônicas, poemas, entre outras. Elas promovem nosso desenvolvimento cognitivo, influenciando a forma como acontece nossa socialização, a partir de trocas que oferecem ensinamentos e diversão.
A antropóloga Michèle Petit (2019) nos fala que, independentemente da cultura, a humanidade tem sede de pertencimento, de sentido, de beleza, por isso existe uma necessidade de criar figurações simbólicas que nos tirem do caos e nos ajudem a ordenar o mundo em que vivemos para torná-lo habitável. Assim, são diversas as formas de arte que materializam o arquétipo da beleza, pensando-a a partir da perspectiva apontada por Humberto Eco (2012), que a relaciona com a ideia de bem, independente da época ou da cultura.
Nesse sentido as narrativas se tornam componente de um contexto comunicacional que constitui a cultura a que pertencem. Além disso, são formas artísticas em um âmbito maior, a partir de um arquétipo coletivo, já que as narrativas representam, estetizam e simbolizam a realidade, permitindo a organização e a propagação dos saberes que constituem e são constituidores da cultura de que fazem parte, em uma situação comunicacional maior dentro do processo cognitivo.
Em princípio, as histórias dos povos nasceram da tradição oral, sendo contadas, cantadas, dançadas, transformando-se ao longo dos tempos. Hoje, além de serem transmitidas oralmente, temos acesso a elas através de diferentes meios: livros, teatro, cinema, televisão, internet etc. Seguimos nos organizando coletivamente a partir de narrativas que construímos e fomentamos em nosso imaginário coletivo, partindo de grupos específicos que cada vez mais dialogam de forma global, ampliando as redes de relações entre os seres humanos.
As narrativas tradicionais têm como característica a transmissão oral dos mais velhos para os mais jovens, em um processo no qual o conhecimento acumulado é difundido e se enriquece nessa relação de compartilhamento, fortalecendo a memória cultural. Esta, por consequência, forma uma rede que conecta uma longa corrente de seres humanos, interligados no tempo e no espaço através da contação de histórias. Essa longa corrente de seres humanos faz com que alguns acontecimentos, mesmo que vivenciados por uma única pessoa, se tornem parte do imaginário coletivo ao serem compartilhados, logo, fazem com que outras pessoas os experienciem através de sua apreciação, podendo servir de exemplo para como nos comportarmos em determinadas situações.
Tsuni Kokama, professora indígena da etnia Kokama, me disse que nós, não indígenas, consideramos “lendas” (no sentido de fantasias) suas histórias ancestrais, mas para eles são fatos que realmente aconteceram e servem de ensinamento, já que toda história começa com o relato da experiência de alguém, independentemente do tipo de experiência, que pode ser um sonho, uma intuição, algo vivido individual ou coletivamente. Outro fator que faz com que as histórias sejam vistas como lendas é a falta de entendimento da linguagem simbólica presente nos mitos das culturas dos povos tradicionais relacionados à suas cosmologias.
Falando a respeito dos povos tradicionais, existe uma grande consideração em relação à figura dos mais velhos, pois o aprendizado vem das avós, dos avôs, dos pajés. Quanto mais vivências, mais conhecimento, pois a memória cultura é baseada no ensinamento oral de seu legado, que é a forma da educação tradicional. Aqui a ideia de tradicional não concerne aos seus referentes, mas aos seus múltiplos procedimentos. Assim, a valorização dos saberes dos mais velhos se dá pelo fato de que o conhecimento está alicerçado no peso da experiência direta, devido às muitas coisas que viram, ouviram e perceberam ao longo da vida.
As formas tradicionais de produção de conhecimento dos povos indígenas na atualidade se manifestam nas aldeias e comunidades próximas aos centros urbanos, pois os indígenas que vivem na cidade estão permanentemente reelaborando suas tradições, mantendo as relações com o passado para ressignificar o presente. Eles querem ser reconhecidos enquanto tais, mesmo fora das aldeias, porque frequentemente são taxados de “não índios” ao buscarem um espaço na cidade.
Convivendo com os indígenas da Comunidade Parque das Tribos, situada no perímetro urbano de Manaus, onde moram famílias de cerca de vinte e quatro etnias indígenas, tenho acompanhado a luta desses povos para manter as características fundamentais de seus modos de vida, preservando aspectos vitais de sua cultura, sobretudo relacionados à sua língua.
Mepaeruna, da etnia Tikuna, é uma das mulheres indígenas do Parque das Tribos com quem mais convivo, e percebo seu empenho para que os saberes tradicionais de seu povo sejam mantidos na comunidade, começando por sua casa. Mepaeruna faz questão de só falar na língua Tikuna com os seus filhos, que aprendem o português fora de casa.
O canto, é um exemplo dos conhecimentos adquiridos, já que trazem ensinamentos ancestrais, cantar e contar histórias não se diferenciam, pois os cantos trazem narrativas que ficam preservadas no corpo daquele que sabe, é uma forma de conhecimento-memória que se dá na relação com o outro, uma troca que se estabelece estando junto com os mais velhos. É um saber que se elabora pela experiência, pois o conhecimento se faz pelo corpo, gerando uma acumulação de experiências que ultrapassam a racionalidade, inscritos na ordem dos sentidos.
Portanto, o processo cognitivo de desenvolvimento humano refere-se à evolução da capacidade dos indivíduos de pensar, de aprender, de organizar informações, de tomar decisões e de resolver problemas, que se desenvolvem a partir da linguagem. E o processo de contar histórias, de ouvir narrativas começa desde o nascimento e evolui nos diferentes estágios de desenvolvimento humano, a partir de influências biológicas, culturais e sociais.
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