A Páscoa é um dos períodos mais simbólicos e antigos do calendário religioso mundial. No Brasil, ela atravessa fronteiras de fé e tradição, reunindo significados muito diferentes para cada religião, mas sempre marcados por ideias comuns de passagem, renovação, esperança ou libertação.
Em um país onde a diversidade religiosa é uma das marcas mais evidentes da sociedade, a Páscoa é vivida de formas muito distintas por católicos, evangélicos, judeus, espíritas, umbandistas, candomblecistas e até mesmo por pessoas sem religião, que adotaram costumes mais culturais do que religiosos, como o tradicional ovo de chocolate.
Dados mais recentes reforçam a pluralidade da fé no Brasil. Segundo estimativas do Datafolha de 2022, 51% dos brasileiros se declaram católicos, enquanto 26% são evangélicos.
A tendência aponta para uma queda progressiva do número de católicos e crescimento dos evangélicos, que devem ultrapassar os católicos até 2032, segundo projeções do IBGE.
As demais religiões, embora reúnam percentuais menores, seguem presentes e com forte influência cultural.
O espiritismo reúne cerca de 2% da população brasileira, o que corresponde a aproximadamente 4 milhões de pessoas.
As religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, representam cerca de 0,3% dos brasileiros, mas enfrentam crescente intolerância religiosa, especialmente em regiões metropolitanas
A comunidade judaica no Brasil soma cerca de 86 mil praticantes. O país abriga ainda seguidores de outras tradições religiosas, como o islamismo e o budismo, além de um número crescente de pessoas sem religião, grupo que já ultrapassa 12% da população, especialmente entre os mais jovens e em grandes cidades.
Abaixo, confira como algumas dessas religiões vivem, celebram ou ressignificam a Páscoa no Brasil.
No Judaísmo, a libertação do Egito
Entre os judeus, a Páscoa é chamada de Pessach e tem um significado muito diferente daquele associado à ressurreição de Jesus.
Para o Judaísmo, a data relembra a saída do povo hebreu do Egito, onde viveu por séculos sob a escravidão do faraó.
O episódio, narrado no livro do Êxodo, é considerado um marco da libertação e da resistência de um povo. O Pessach é celebrado ao longo de oito dias e inclui um jantar ritual, o Seder, no qual alimentos simbólicos são consumidos para lembrar a trajetória dos hebreus.
Entre eles estão o pão sem fermento, chamado de matzá, que representa a pressa da fuga, e as ervas amargas, que simbolizam o sofrimento vivido durante a escravidão.
No cristianismo, a ressurreição de Cristo
Para os cristãos, que formam a maioria da população brasileira, a Páscoa tem um significado completamente diferente, ainda que a origem do termo venha da mesma palavra hebraica que significa “passagem”.
No Cristianismo, a Páscoa marca a ressurreição de Jesus Cristo, ocorrida três dias após sua crucificação, sendo considerada o momento mais importante da fé cristã. A data é o ápice da Semana Santa, período de orações, jejum e reflexão.
Entre os católicos, os ritos incluem a Missa de Ramos, a Via-Sacra, a Vigília Pascal e, no domingo, a celebração da ressurreição de Cristo, como sinal de esperança e vida nova.
Já entre os evangélicos, os cultos de Páscoa têm como tema central a vitória de Jesus sobre a morte e o pecado, destacando a possibilidade de renascimento espiritual a partir da fé.
As Igrejas Ortodoxas, presentes em menor número no Brasil, também celebram a ressurreição de Cristo, mas seguem o calendário juliano, o que faz com que, muitas vezes, a Páscoa ortodoxa ocorra em data diferente daquela celebrada por católicos e evangélicos.
Nessa tradição, o período é marcado por jejuns rigorosos, vigílias noturnas e a troca de ovos coloridos, símbolo da vida nova.
No Espiritismo, a data simboliza o renascimento interior
No Espiritismo, doutrina que reúne quase 4 milhões de praticantes no Brasil, a Páscoa não é uma celebração litúrgica, mas o período é compreendido como um momento propício para o renascimento interior.
A Doutrina Espírita entende a ressurreição de Jesus em um sentido mais simbólico, como expressão da imortalidade da alma e da continuidade da vida após a morte.
Por isso, o período de Páscoa é visto como um convite à prática do bem, ao perdão e à reforma íntima.
Umbanda e Candomblé aproveitam o período para rituais de limpeza e equilíbrio
Na Umbanda e no Candomblé, a Páscoa também não faz parte do calendário tradicional das religiões de matriz africana.
Apesar disso, muitas casas e terreiros aproveitam o período, que coincide com as energias de renovação do outono, para realizar rituais de limpeza espiritual, banhos de ervas, oferendas e agradecimentos.
São práticas que buscam fortalecer o equilíbrio pessoal, preparar o corpo e o espírito para novos ciclos e afastar energias negativas.
Já para pessoas sem religião ou que adotam práticas mais culturais, a Páscoa no Brasil ganhou outros contornos. A troca de ovos de chocolate, os encontros familiares e o almoço especial se tornaram marcas da data, independentemente de fé ou prática religiosa.
É um reflexo da convivência entre tradições diferentes e da força do comércio e da cultura popular em incorporar antigos símbolos a novos costumes.
Mais do que uma data fixa no calendário, a Páscoa segue sendo, em todas as crenças, um momento de pausa, reflexão, recomeço e, principalmente, de renovação — seja da fé, das relações ou dos próprios caminhos.
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