domingo, 27 de setembro de 2026

Submissão implícita: David Hume em "Amanhecer na Colheita" de Suzanne Collins

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Historiadora formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), tradutora, criadora da página @behindherglasses_ no Instagram e escritora sobre arte, cultura e história

Como poucos governantes conseguem controlar milhões de cidadãos? Esta questão fundamental da filosofia de David Hume serve como base para “Amanhecer na Colheita”, o novo prelúdio de Suzanne Collins para a série Jogos Vorazes. A trilogia original segue um universo distópico onde a fome e a pobreza são armas nas mãos do governo ditatorial do Presidente Coriolanus Snow, e 24 adolescentes são enviados, todos os anos, para lutarem até a morte para o entretenimento da Capital, que domina todos os Distritos. O Vitorioso, único sobrevivente da arena, se torna uma celebridade – mas, como descobrimos, nem tudo é o que parece, e mesmo esses vitoriosos são explorados.

O quinto livro do universo Jogos Vorazes e segundo prelúdio após “A Balada dos Pássaros e das Serpentes” mergulha na história de Haymitch Abernathy, um dos personagens coadjuvantes da série original, começando em seu 16º aniversário durante o dia da colheita, 50 anos após uma rebelião fracassada contra a Capital. Em particular, a narrativa explora o conceito de “submissão implícita” de Hume, examinando como a propaganda e o controle da narrativa mantêm o poder sobre a população. No centro desta história está o Segundo Massacre Quaternário, uma edição especial dos Jogos Vorazes que acontece a cada 25 anos, com alguma reviravolta. Nessa edição, são escolhidos o dobro de tributos para competir até a morte na arena – normalmente 24, dessa vez 48.

A filosofia de David Hume e sua influência em ‘Amanhecer na Colheita’

Suzanne Collins abre seu livro com quatro citações. A primeira é de George Orwell (“Toda propaganda é uma mentira, mesmo quando fala a verdade. Acho que isso não importa, desde que se saiba o que se está fazendo e por quê”), a segunda de William Blake (“Uma verdade contada com má intenção vence todas as mentiras da sua invenção”), e as últimas duas de David Hume. Hume, por sinal, é a grande inspiração filosófica para esse acréscimo ao universo de Jogos Vorazes, que no passado explorou as teorias de Rosseau, Voltaire, Hobbes e Maquiavel, dentre outros, em sua narrativa.

As frases de Hume escolhidas por Collins são as seguintes:

  1. “Nada parece mais surpreendente para quem observa as relações humanas com um olhar filosófico do que a tranquilidade com que muitos são governados por poucos; e a submissão implícita com a qual os homens resignam os próprios sentimentos e paixões aos dos governantes. Quando perguntamos de que forma essa coisa espantosa é alcançada, descobrimos que, como a Força está sempre do lado dos governados, os governantes não têm nada para apoiá-los além de opinião. Portanto, é com base em opinião que o governo é fundado; e essa máxima se estende tanto aos governos mais despóticos e mais militares quanto aos mais livres e mais populares”
  2. “Que o sol não vai nascer amanhã não é uma proposição menos inteligível nem implica mais contradição do que a afirmação de que vai”

Está disposta toda a tese de Collins para seu livro, cujo título, “Amanhecer na Colheita”, é uma referência a essa segunda colocação.

A fascinação filosófica de David Hume pelo poder e submissão fundamenta o núcleo conceitual de “Amanhecer na Colheita”. Ao estruturar sua narrativa distópica em torno – mais ainda do que o normal, muito explicitamente – da questão da submissão implícita, algo citado diversas vezes ao longo das 440 páginas do romance, Suzanne Collins explora profundamente as ideias deste filósofo escocês do século XVIII, criando uma obra que transcende o entretenimento para oferecer uma reflexão sobre autoridade e liberdade.

O conceito de ‘Submissão Implícita’ de Hume

No ensaio “Of the First Principles of Government” (Dos Primeiros Princípios do Governo), Hume expressa seu espanto diante de um paradoxo político: “Nada parece mais surpreendente para aqueles que consideram os assuntos humanos com um olhar filosófico do que a facilidade com que muitos são governados por poucos; e a submissão implícita, com a qual os homens renunciam a seus próprios sentimentos e paixões aos de seus governantes”. Esta observação torna-se ainda mais intrigante quando Hume constata que “a força está sempre do lado dos governados”.

O paradoxo se resolve, segundo o filósofo, porque “o governo está baseado no controle de opinião, um princípio que se estende aos governos mais déspotas e à maioria dos governos militares, bem como aos mais livres e mais populares”. Em outras palavras, não é a força física que mantém o poder, mas o controle das ideias e da narrativa. Hume identifica que “em todos os governos, há uma perpétua luta interna, aberta ou secreta, entre Autoridade e Liberdade”. Esta tensão constante entre o poder estabelecido e o impulso pela autonomia forma o eixo central do conflito em Panem, o cenário distópico criado por Collins.

A própria Suzanne Collins revelou sua inspiração: “Com Amanhecer na Colheita, fui inspirada pela ideia de David Hume de submissão implícita e, em suas palavras, ‘A facilidade com que os muitos são governados pelos poucos'”. A autora repetiu aquilo que já tinha feito com Hobbes e, sobretudo, Rosseau em seu livro anterior, “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, e transformou conceitos filosóficos complexos em uma narrativa acessível, principalmente através da personalização do conflito entre liberdade e autoridade.

No cerne de sua história, Collins adapta o conceito de “consentimento sem consentimento” de Hume através dos mecanismos da Capital para controlar os distritos. Os Jogos Vorazes funcionam como a manifestação física do controle de opinião discutido por Hume, onde o espetáculo sangrento não só mantém o medo, mas também molda a narrativa coletiva. Simultaneamente, a Capital também utiliza propaganda, tortura, policiamento, prisões, escravidão, punições físicas e psicológicas e, sobretudo, a fome para garantir seu controle sobre a população. A personagem de Haymitch Abernathy encarna a jornada filosófica do despertar da consciência nesse contexto. Inicialmente um jovem relutantemente submisso ao sistema, sua trajetória representa a transição do indivíduo que reconhece a manipulação e decide resistir. Este arco narrativo traduz para o público jovem a noção humiana de que a percepção da realidade pode ser alterada pelo costume e pelo hábito.

Nesse sentido, há três personagens particularmente fundamentais na construção dessa mudança. A filosofia de Hume, de sua maneira mais literal e pura, é encarnada em Lenore Dove, namorada de nosso protagonista, que expõe verbalmente, da maneira mais explícita possível, as ideias do filósofo já no início da história, embora então Haymitch não as entenda. Plutarch Heavensbee, um dos personagens mais intrigantes da narrativa original, que retorna para essa prequela, traz um pouco mais de profundidade para o argumento – é ele que introduz Haymitch ao conceito de submissão implícita e que fala da necessidade de lutar contra ela. Há ainda Maisylee Donner, uma das competidoras e aliadas de Haymitch. Apesar de bem menos filosófica, ela representa, na prática, a noção da mudança de paradigma através do hábito, forçando pessoas acostumadas a tratar os jovens vindos dos Distritos como animais a enxergarem-na como pessoa ao se posicionar como tal através de seus modos e seu comportamento como forma de resistência.

Collins habilmente transpõe o ceticismo epistemológico de Hume para sua distopia desde o princípio. Hume questionava nossa capacidade de conhecer relações causais objetivas e afirmava que nosso entendimento é limitado por nossas percepções, e Collins materializa este ceticismo na pergunta que se tornou uma das mais célebres falas de sua saga – “Real ou não real?”, um jogo inventado pelo Vitorioso Finnick Odair para ajudar sua esposa vítima de TEPT-C a diferenciar a realidade das criações de sua mente adoecida, e que se torna o eixo ao redor do qual o relacionamento entre a protagonista da trilogia original, Katniss, e seu parceiro de distrito e par romântico, Peeta, se reconstrói quando ele é torturado pela Capital e tem memórias falsas implantadas em sua psique. “Real ou não real?”, na trilogia original, se referia a memórias; em “Amanhecer na Colheita”, é o tema que permeia o livro inteiro – apesar de não ser citada nem uma vez -, pois Haymitch não apenas não tem certeza da realidade de nada daquilo que está ao seu redor, como também consegue ver com os próprios olhos o quão artificiais são todas as coisas criadas pelo governo e pela Capital, que ele antes via como representações da realidade.

O controle da narrativa como ferramenta de poder em Panem

Em Panem, a narrativa é um instrumento de dominação. A Capital não governa somente através da força militar, mas principalmente pelo controle meticuloso das informações e percepções dos cidadãos. Esta estratégia de poder, profundamente alinhada com a noção de “submissão implícita” de Hume, materializa-se nos Jogos Vorazes, um espetáculo que transcende o simples entretenimento para tornar-se um sofisticado mecanismo de controle social. Na distopia criada por Collins, com sua tecnologia própria, a televisão emerge como o meio ideal para a disseminação da ideologia dominante. Diferentemente de livros ou rádios, que poderiam conter anotações subversivas ou carecem do impacto visual necessário, a televisão proporciona o controle total da mensagem transmitida. Este meio visual possibilita algo fundamental para a manutenção do poder: a espetacularização do sofrimento, essencial para incutir medo nos distritos enquanto seus habitantes assistem, obrigatoriamente, à morte de seus conterrâneos. A falta de tecnologia pessoal também é gritante – celulares, laptops e outras coisas do gênero não existem nesse mundo, diminuindo em muito a capacidade da população de consumir qualquer tipo de mídia que não seja regulamentada pelo Estado.

Na narrativa de Collins, esta manipulação midiática adquire contornos sofisticados: os tributos são transformados em “estrelas”, num processo que banaliza a violência e humaniza superficialmente as vítimas apenas para amplificar o impacto de sua eventual morte. Esta estratégia, inicialmente proposta pelo jovem Coriolanus Snow em “A Balada dos Pássaros e das Serpentes”, evolui para um sistema complexo onde os participantes adotam personas cuidadosamente construídas para agradar à audiência. O vitorioso eventualmente se torna uma celebridade, famoso e rico pelo resto da vida – mas, simultaneamente, controlado e explorado pelo resto da vida, podendo ser forçado a servir a Capital das mais diversas formas, desde Beetee obrigado a criar o sistema de segurança tecnológica usado pelo Presidente, até Finnick forçado à prostituição.

O controle narrativo serve a múltiplos propósitos em Panem: Os Jogos funcionam como um memorial perpétuo do custo da rebelião, reforçando as consequências da insurgência através da espetacularização da punição. Ao forçar os distritos a assistirem seus jovens sendo mortos em transmissão nacional, a Capital manifesta seu domínio absoluto sobre a vida e morte dos cidadãos. O entretenimento sangrento desvia a atenção dos cidadãos dos problemas políticos estruturais, especialmente entre os habitantes privilegiados da Capital. A utilização da mídia em “Amanhecer na Colheira” reflete diretamente o que Guy Debord chamou de “Sociedade do Espetáculo”, onde “o espetáculo é o autorretrato do poder no momento da sua gestão totalitária das condições de existência”. Consequentemente, cada transmissão dos Jogos funciona não apenas como entretenimento, mas como uma reafirmação performativa do domínio da Capital.

A evolução dos Jogos como instrumento de controle

Os Jogos Vorazes, inicialmente concebidos como simples punição, passaram por transformações significativas para tornar-se mais eficazes como ferramenta de controle. Em “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, Collins mostra o exato ponto de virada em que a punição se torna espetáculo. Entretanto, em “Amanhecer na Colheita”, podemos testemunhar como o Segundo Massacre Quaternário também representa um momento crucial nessa evolução estratégica. A digitalização do controle manifesta-se na arena, onde tudo – animais, clima e terreno – é manipulado eletronicamente pelos Idealizadores de Jogos.

Esta manipulação espetacular ecoa o panoptismo descrito por Foucault: os tributos estão continuamente expostos ao olhar vigilante da Capital, que não apenas observa, mas intervém ativamente para direcionar narrativas específicas. Isso também tem suas consequências na vida da população fora dos Jogos: dentro e fora da arena, o comportamento de todos se baseia na ideia de que a Capital pode estar observando – de forma que o controle é efetivo, quer ela esteja de fato olhando, quer não.

A estrutura dos Jogos evoluiu também em seus aspectos econômicos e sociais. O sistema de patrocínio criado em “Cantiga…” permite que os espectadores “invistam” em tributos favoritos, ampliando o engajamento e a cumplicidade da população com o espetáculo de morte. Adicionalmente, a progressão da idade na “Colheita” – onde cada ano adicional significa mais chances de seleção – e o perverso sistema de troca de rações por mais entradas no sorteio aprofundam as divisões sociais e a desesperança entre os distritos. A evolução mais insidiosa, posteriormente explorada na história de Haymitch Abernathy, porém, foi a transformação dos Jogos em um verdadeiro “reality show”. Os participantes passam por estilistas, entrevistas e sessões de maquiagem, criando uma ilusão de glamour que mascara a brutalidade subjacente. As próprias regras especiais dos Massacres Quaternários foram estrategicamente concebidas para relembrar aspectos específicos da rebelião, reforçando a narrativa oficial sobre o passado.

Ironicamente, essa sofisticação do controle narrativo acabou por semear as sementes de sua própria destruição. Ao transformar tributos em celebridades e histórias em espetáculo, a Capital inadvertidamente criou plataformas para figuras como Haymitch Abernathy, Finnick Odair, Peeta Mellark e, principalmente, Katniss Everdeen, que utilizaram os próprios mecanismos midiáticos do regime para subvertê-lo. Esta contradição fundamental – transformar vítimas em símbolos que podem inspirar resistência – está no cerne da questão filosófica abordada em “Amanhecer…” enquanto prequela da saga original, que mostra a revolução que acaba com a ditadura do Presidente Snow: como a narrativa, embora instrumento de poder, pode simultaneamente tornar-se veículo de libertação.

A dualidade entre autoridade e liberdade no Segundo Massacre Quaternário

No cenário dos Jogos Vorazes, o Segundo Massacre Quaternário representa um palco crucial onde o conflito filosófico entre autoridade e liberdade, identificado por Hume, se manifesta em sua forma mais explícita. A modificação das regras para incluir o dobro de tributos – 48 no total – não foi apenas um ato de crueldade, mas uma demonstração calculada de poder que reforçava a submissão dos distritos. Durante o treinamento para o Massacre, Plutarch Heavensbee, um dos principais propagandistas da Capital – mas, secretamente, um rebelde – já demonstrava sinais de sua inclinação revolucionária quando abordou Haymitch, questionando-o sobre “por que ele permitiu ser atacado” e sugerindo que “ele e os outros poderiam pensar sobre por que as pessoas simplesmente concordaram com o arranjo que são os Jogos Vorazes”. Esta intervenção marcou o início da conexão entre os dois futuros líderes da resistência. É ele que fala de “submissão implícita”, e diz a Haymitch que “chega de submissão implícita da sua parte”.

Plutarch revelou sua participação no complô para sabotar a arena, embora Haymitch permanecesse cauteloso apesar da ajuda oferecida. Esta desconfiança inicial reflete o ceticismo filosófico que Haymitch desenvolveria plenamente anos depois. Contudo, foi durante a Turnê da Vitória que o encorajamento de Plutarch estimulou Haymitch a “continuar lutando”, plantando as sementes para uma resistência mais organizada. Como arquiteto secreto da revolução, Plutarch demonstrou um entendimento profundo do conceito de “Panem et Circenses” (Pão e Circo), explicando que “em troca de barrigas cheias e entretenimento, as pessoas haviam renunciado às suas responsabilidades políticas e, consequentemente, ao seu poder”. Esta percepção espelha diretamente o conceito de “submissão implícita” de Hume, onde os muitos são facilmente governados pelos poucos.

A arena como microcosmo do conflito filosófico

A arena do Massacre foi descrita como “o lugar mais deslumbrante imaginável” – um prado verde de perfume adocicado, céu azul-celeste com nuvens brancas fofas. Porém, essa beleza aparente escondia uma realidade mortal: tudo na arena era letalmente venenoso – as plantas, a água, até mesmo o perfume das flores quando inalado diretamente. Esta dualidade entre aparência e realidade funciona como metáfora perfeita para o conflito filosófico central em “Amanhecer… “: a ilusão de beleza e ordem mantida pela Capital esconde uma verdade tóxica de opressão e controle. As únicas fontes seguras de alimento e bebida eram a água da chuva, os presentes dos patrocinadores da Capital e os suprimentos da Cornucópia – elementos controlados pelos Idealizadores de Jogos, simbolizando como a sobrevivência dos cidadãos depende inteiramente da “generosidade” do regime.

Quando Haymitch descobriu o campo de força no limite da arena, ele inadvertidamente expôs a fragilidade fundamental do sistema. Sua decisão de “tentar quebrar os limites da arena para alcançar e sabotar o gerador” representa filosoficamente o reconhecimento de que todo sistema de controle possui vulnerabilidades exploráveis por aqueles que rejeitam a submissão implícita. Durante os Jogos, Haymitch demonstrou uma perspicácia que desafiou as expectativas. Sua vitória através do uso inteligente desse campo de força – permitindo que o machado lançado por seu último oponente ricocheteasse e a matasse – foi interpretada como um ato de desafio que “fez com que os organizadores dos jogos, e por extensão, a Capital, parecessem tolos”. Este momento encapsula a resistência à submissão implícita: Haymitch não apenas sobreviveu, mas o fez de maneira que questionava fundamentalmente a autoridade dos controladores.

No universo distópico de Panem, Haymitch Abernathy emerge como uma figura singular na série “Amanhecer na Colheita”, representando a personificação viva do confronto entre as forças de submissão e o impulso pela autonomia individual que Hume identificou como inerente a todos os sistemas de governo. Como punição por sua ousadia, o Presidente Snow ordenou a execução de sua mãe, irmão mais novo e namorada duas semanas após sua vitória. Este ato brutal tinha um propósito claro: servir como “um lembrete para o vencedor – e os outros distritos – que eles ainda estavam no comando”.

Lenore Dove e o amanhecer

A relação entre Haymitch e Lenore Dove representa um elemento crucial na narrativa de “Amanhecer na Colheita”. Lenore é apresentada como uma musicista talentosa cuja presença na vida de Haymitch simboliza tudo o que o sistema da Capital procura destruir: conexão humana genuína, arte e esperança. Mais ainda, Lenore Dove expõe muitas ideias de Hume, como a Dra. Gaul, no livro anterior, expunha as de Hobbs e Rosseau. Quando Haymitch diz que a colheita (isto é, a seleção de jovens para participar nos Jogos Vorazes) vai acontecer “com a mesma certeza de que o sol vai nascer amanhã”, Lenore Dove apenas sentencia que ele “não tem provas de que isso é certo de acontecer. Não pode contar que as coisas vão acontecer amanhã só porque aconteceram desse jeito no passado. Essa lógica é falha.” Ela completa seu raciocínio dizendo que “isso é parte dos nossos problemas. Pensar que as coisas são inevitáveis. Não acreditar que uma mudança seja possível.”

Lenore Dove é o contrário da submissão implícita; ela escreve e apresenta músicas de protesto, faz pichações, briga com soldados, causa incêndios criminosos e não tem medo de ser responsável por tumulto aonde vai. Aos doze anos, foi presa duas vezes e é presa mais uma vez aos dezesseis. É ela a razão pela qual Haymitch acaba nos jogos. E, por conta da participação dele, ela acaba morta – assassinada a mando do presidente. Suas últimas palavras para Haymitch são um pedido: “Não deixe que o sol nasça na colheita”. Um pedido por uma revolução. Um pedido para que, um dia, ele ajude a acabar com os Jogos Vorazes.

Após a morte de sua mãe, de seu irmão e de Lenore Dove, Haymitch eventualmente compreendeu que “nunca seria permitido amar outra pessoa, para que eles também não fossem punidos e mortos por Snow por causa de suas ações”. Consequentemente, afastou todas as pessoas próximas, incluindo familiares e amigos, em um ato que aparenta ser de autoproteção, mas, na verdade, representa uma forma de resistência – recusando-se a dar à Capital mais armas emocionais contra ele.

O desenvolvimento do ceticismo de Haymitch

O ceticismo de Haymitch, fortemente alinhado com a filosofia de Hume, não é uma postura intelectual abstrata, mas uma resposta desenvolvida através de experiências traumáticas. “Ele acreditava que era o exemplo do que aconteceria se alguém tentasse resistir ao punho de ferro da Capital” – uma conclusão baseada na observação direta das consequências de suas ações. Quando Plutarch Heavensbee o abordou durante sua Turnê da Vitória no Distrito 11, Haymitch encarou “as aspirações de Plutarch para uma segunda rebelião e o próprio Plutarch com tanto cinismo cético” precisamente porque havia experimentado em primeira mão as consequências da resistência.

O alcoolismo de Haymitch, frequentemente interpretado como simples fraqueza, adquire um significado mais profundo à luz de sua jornada filosófica. Não é apenas uma fuga, mas também uma resposta racional a um mundo onde a clareza de percepção traz apenas dor. Como um eco do ceticismo de Hume sobre causalidade, Haymitch aprendeu que as aparentes relações entre ações e resultados são frequentemente ilusórias quando manipuladas pelos poderosos. Entretanto, apesar de seu cinismo exterior, Haymitch manteve um núcleo de resistência que o levou a trabalhar secretamente em conjunto com o Distrito 13 e outros vencedores para incitar a Segunda Rebelião e tornar-se um dos grandes impulsionadores por trás do plano rebelde durante os 75º Jogos Vorazes. Esta dualidade – ceticismo externo e convicção interna – manifesta a complexidade filosófica de sua personagem e seu papel como mentor para as futuras gerações de resistência.

Coriolanus Snow vs. Haymitch: O embate entre tirania e autonomia

O confronto entre Coriolanus Snow e Haymitch Abernathy em “Sunrise at the Reaping” transcende a simples rivalidade pessoal, representando o embate entre modelos opostos de existência política: tirania calculada versus autonomia rebelde. Haymitch vem de uma família de rebeldes conhecidos – embora ele mesmo se afaste do título, sobretudo no começo -, enquanto Snow já recebeu um livro inteiro explorando sua filosofia sobre controle, tornando-os pares perfeitos.

Snow demonstrou astúcia ao deixar Haymitch viver após sua vitória no Segundo Massacre, embora estivesse visivelmente enfurecido com suas ações. Esta decisão, além de necessária para manter a aparência de legitimidade dos Jogos, revelou sua compreensão sofisticada das dinâmicas de poder. O presidente percebeu que matar Haymitch poderia transformá-lo em mártir, especialmente considerando sua popularidade durante os Jogos. Assim, a estratégia mais cruel de Snow consistiu em atacar os entes queridos de Haymitch. Duas semanas após sua vitória, o presidente ordenou a execução de sua mãe, irmão mais novo e namorada Lenore Dove, garantindo que tudo parecesse um acidente. Ele já vinha fazendo ameaças desse gênero desde o começo; durante seu primeiro encontro com Haymitch, Snow deliberadamente mencionou Lenore, sinalizando seu conhecimento sobre quem o vencedor amava.

A própria concepção da arena coloca Haymitch em oposição simbólica direta a Snow – pois, desde “A Esperança”, terceiro livro da saga, o leitor sabe que o método preferido de Snow para se livrar de seus adversários é o veneno – “a arma perfeita para uma cobra”, como coloca Finnick Odair ao revelar em rede nacional que o presidente tinha o hábito de envenenar seus inimigos políticos e outras figuras poderosas da Capital em jantares. Ele também bebia e comia os alimentos envenenados, para evitar suspeitas, mas logo depois tomava um antídoto, garantindo que não morreria. Esses venenos, porém, causavam feridas incuráveis em sua boca, que, portanto, estava sempre sangrando por dentro. Snow escondia o cheiro de sangue que sempre emanava dele com uma rosa-branca geneticamente modificada para exalar um perfume exagerado que sempre carregava na lapela. A arena do Massacre revelou a assinatura pessoal de Snow: tudo, das plantas aos adoráveis animais, era venenoso. O veneno, arma preferida de Snow desde jovem, é escondido pela aparência e pelo cheiro das flores belíssimas – que, no entanto, exalam um perfume “que tem algo errado”, na própria percepção de Haymitch. A arena tornou-se metáfora de seu governo – belo na aparência, mortal na essência.

O acendedor de chamas

O pequeno acendedor de chamas de pederneira que Haymitch carregava tornou-se símbolo material de sua resistência. Este objeto, aparentemente inofensivo, permitiu ao jovem do Distrito 12 acender fogos para sobrevivência, criar explosões contra mutações e, finalmente, desafiar abertamente a autoridade da Capital. Ele é um presente de Lenore Dove, e visualmente segue o tema de pássaro contra serpente já estabelecido na série original – com Katniss tornando o símbolo da rebelião um pássaro, o tordo, enquanto Finnick imortaliza a ideia de Snow como uma serpente em rede nacional; com Lucy Gray Baird usando serpentes para vencer os Jogos e Snow usando os pássaros geneticamente modificados da Capital para fazer seu caminho para a grandeza, ao mesmo tempo, em que ela é classificada como um “pássaro canoro” e ele começa a usar o veneno que o torna “uma serpente”; e, nesse livro com Lenore Dove (o nome Lenore é retirado do poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe, e Dove significa “Pombo” em inglês) se colocando como inimiga da Capital comandada por Snow, a serpente. Mais ainda, o acendedor é uma metáfora para o próprio Haymitch e seu futuro papel na rebelião – embora ele mesmo não consiga colocá-la em movimento, ele é, mais tarde, quem “acende as chamas” revolucionárias de Katniss Everdeen, conhecida, literalmente, como “Garota em Chamas”.

No momento crítico de sua vitória, Haymitch utilizou o isqueiro e girassóis explosivos contrabandeados para criar uma bomba que lançou contra o campo de força. Embora não tenha destruído a arena, este ato representou um desafio direto ao controle da Capital, semelhante à recusa em permitir que transformassem seu sofrimento em espetáculo, e causou seus donos. A vitória de Haymitch através da exploração do campo de força – fazendo o machado de sua oponente ricochetear contra ela – simbolizou filosoficamente como os instrumentos de opressão podem ser redirecionados contra seus criadores. Este ato não apenas garantiu sua sobrevivência, mas também expôs a vulnerabilidade fundamental do sistema supostamente infalível da Capital.

A questão ‘Real ou não real?’ como dilema epistemológico

A questão “Real ou não real?”, explícita na trilogia original e implícita, mas sempre presente, em “Amanhecer…” emerge com um novo significado nessa prequela. Ela está presente aqui como um profundo dilema filosófico que transcende a simples dúvida, constituindo uma investigação sobre a própria natureza da realidade e nossa capacidade de conhecê-la. Esta indagação, longe de ser apenas um elemento narrativo, encapsula o núcleo epistemológico da obra de Collins. O questionamento “Real ou não real?” encontra paralelos diretos com o ceticismo de David Hume sobre nossa capacidade de apreender relações causais objetivas. Para Hume, não podemos afirmar com certeza a existência de conexões necessárias entre impressões, pois nosso conhecimento limita-se apenas ao que percebemos através dos sentidos. Consequentemente, inferimos relações de causa e efeito através do costume e do hábito, não por uma compreensão direta da realidade.

Em Panem, esta limitação epistemológica torna-se literal quando a Capital deliberadamente manipula a percepção dos eventos. Como os proponentes do “realismo cético” observariam, existe uma tensão permanente entre a crença na existência de uma realidade objetiva e a impossibilidade de acessá-la diretamente – dilema vivido intensamente por Haymitch enquanto tenta discernir entre a narrativa oficial e sua própria experiência. O que Haymitch vê na Capital comprova que eventos, transmissões e mesmo pessoas podem ser totalmente fabricadas – como exemplificado, por exemplo, pela forma como a Capital substitui uma das concorrentes, Louella, por uma dublê idêntica a ela quando ela morre antes do começo dos Jogos. Assim como Hume questionava a possibilidade de um “nexo causal” entre eventos, os personagens em “Amanhecer na Colheita” enfrentam a impossibilidade de estabelecer relações causais confiáveis em um mundo onde cada ação pode ter sido orquestrada para produzir efeitos específicos.

Em “Amanhecer…”, a propaganda não apenas distorce a verdade – ela cria realidades alternativas. Como observado por Plutarch Heavensbee, “as pessoas têm uma resposta emocional a algo, então elaboram um argumento para que logicamente faça sentido”. Esta manipulação emocional precede e determina o raciocínio lógico, espelhando a observação de Hume sobre como nossos hábitos mentais precedem nossa compreensão racional. A Capital emprega o que Hannah Arendt chamaria de “mentira organizada”, criando uma realidade fictícia protegida da contrapropaganda do mundo real. Neste cenário, questionar “Real ou não real?” torna-se um ato revolucionário – uma recusa à “submissão implícita” através do questionamento epistemológico.

Para Haymitch, distinguir entre o real e o fabricado não é meramente uma questão filosófica, mas uma necessidade de sobrevivência. Entretanto, como Hume reconheceria, esta distinção é fundamentalmente problemática, pois nossas próprias ferramentas de percepção são influenciadas pelo hábito e pelo costume – exatamente o que a propaganda da Capital manipula sistematicamente.

A relevância contemporânea das ideias de Hume

As reflexões de Hume sobre o poder da opinião e a submissão implícita adquirem uma urgência renovada na era da informação. Conforme Collins observou: “A história também se prestou a um aprofundamento do uso da propaganda e do poder daqueles que controlam a narrativa. A questão ‘Real ou não real?’ me parece mais urgente a cada dia”.

O filósofo escocês já advertia sobre como a “formação de máximas gerais a partir da observação particular é uma operação muito agradável; e nada é mais usual, da pressa ou de uma estreiteza de mente que não vê de todos os lados, do que cometer erros nesse particular”. Esta observação ressoa com peculiar relevância na era das bolhas informacionais, inteligência artificial em rápido desenvolvimento, e notícias falsas cada vez mais comuns e normalizadas, inclusive e talvez principalmente no âmbito político. A descrição humiana do funcionamento das crenças e hábitos, baseados mais em repetição e familiaridade do que em raciocínio lógico, encontra paralelos inquietantes nos modernos algoritmos e técnicas de manipulação midiática.

Collins transporta este ceticismo para Panem, onde a Capital controla não apenas os corpos, mas principalmente as mentes dos cidadãos. A tensão entre autoridade e liberdade, identificada por Hume como “perpétua” em qualquer sociedade, manifesta-se hoje nas disputas sobre controle de discurso e narrativas públicas. Quando Collins apresenta o enfrentamento entre o presidente e vilão da série, Coriolanus Snow, e Haymitch Abernathy, ela está recriando este conflito fundamental em termos acessíveis ao público contemporâneo. Ao trazer estas ideias filosóficas para uma distopia juvenil, Collins convida uma nova geração a questionar as dinâmicas de poder, a natureza do consentimento social e a manipulação das percepções coletivas, temas tão relevantes hoje quanto eram no século XVIII de Hume.

Conclusão

“Amanhece na Colheira” é um acréscimo primoroso ao já muito complexo universo de Jogos Vorazes e sua exploração da filosofia política, estabelecendo-se como uma profunda reflexão sobre poder e resistência. Através da história de Haymitch Abernathy, Collins materializa as ideias filosóficas de David Hume sobre submissão implícita e controle narrativo, transformando conceitos complexos em uma narrativa envolvente e acessível. A obra demonstra como o controle da narrativa pela Capital reflete diretamente o paradoxo identificado por Hume: poucos controlando muitos através da manipulação da opinião pública. Haymitch emerge como símbolo desta dinâmica, sua jornada pessoal, ilustrando tanto a força da submissão implícita quanto as possibilidades de resistência.

O Segundo Massacre Quaternário representa o ápice desta tensão filosófica, onde cada elemento da arena – desde sua beleza mortal até o campo de força que a delimita – simboliza as estruturas de poder e controle. Consequentemente, a vitória de Haymitch, alcançada através da subversão dos próprios mecanismos da Capital, demonstra como sistemas opressivos podem conter as sementes de sua própria destruição. A questão “Real ou não real?” permanece central, ecoando o ceticismo epistemológico de Hume e sua relevância contemporânea. Certamente, esta exploração da natureza da verdade e do poder da narrativa ressoa com peculiar urgência em nossa própria era de desinformação e manipulação midiática.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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