Estamos no Amazonas, estado brasileiro com a maior concentração de povos indígenas e que recebeu grande número de povos traficados da África, isto é, as presenças negras e indígenas são o fundamentodesta terra, e os modos de vida destes povos são inteiramente cruzados pelo que o ocidente compreende como Arte e como Teatro. Assim, podemos compreender que as “práticas teatrais” acontecem em nosso território desde a sua habitação pelos seus povos originários. A questão é que, ao serem invadidos e dominados, os territórios afro-pindorâmicos tiveram suas práticas esvaziadas e apagadas pelo colonizador. Os modos de vida tornaram-se “mitos” e “folclore”, e nessa invasão-invenção de Brasil, o europeu torna-se salvador e detentor da arte, do teatro e da racionalidade.
O processo de dominação cultural em nossa cidade segue durante a Belle Époque (1890 – 1920), onde o interesse estava nas réplicas e importações de estilos de vida e práticas culturais europeias. É quando temos como exemplo a ópera Gioconda, de Amilcar Ponchielli, no dia 7 de janeiro de 1897, estreando o palco do neoclássico Teatro Amazonas.
Esse breve contexto histórico da relação de Manaus com o teatro e a arte nos mostra que há muito a cidade, ou pelo menos, a sua (pseudo) eliteestava interessada em negociar e proporcionar aos espectadores locais as éticas, as estéticas e as narrativas eurocêntricas.
No entanto, analisando o cenário teatral manauara contemporâneo, é perceptível uma crescente movimentação de artistas independentes e coletivos negros, originários e LGBTQIAPN+, propondo modos de subversão aos interesses coloniais e práticas teatrais fundamentadas em modelos europeus. Esses corpos dissidentes saem do lugar de objeto e tornam-se sujeitos de suas próprias narrativas, ou seja, não mais como figurantes ou intérpretes de obras europeias, somos agora atuantes de nossas próprias histórias, abordando nossas narrativas em primeira pessoa.
Os grupos de teatro como Café Preto, Cia. Transversal, Centro Cultural Barravento, Panorando, e artistas independentes como: Isis de Manaus, Vivian Oliveira, Randy Souza, Keila Sankofa, Andira Angeli, Daniely Lima, Kelly Vanessa, para citar apenas alguns nomes, estão proporcionando aos teatros amazonenses uma expansão das fronteiras e limites do que é Teatro e como ele pode ser feito. Esses grupos e artistas nutrem o cenário localcom essas éticas, estéticas, pedagogias, travecometodologias, narrativas e sensibilidades dissidentes e um fazer teatral que está confluenciado nas sabedorias de nosso território e comprometidas com a excelência na produção teatral,interessados em gerar movimentações de mudanças em uma cidade que ainda se alimenta fortemente de um pensamento colonial.
Cada um desses coletivos e artistas está trazendo para a cena discussões fundamentais para a contemporaneidade, refazendo as imagens deturpadas que a colonização criou sobre nossas existências subalternizadas. Como exemplo, as recentes obras da produtora Café Preto – onde sou co-fundadora ao lado de Paulo Martins, e que desde 2020 vem realizando a criação de espetáculos/aparições baseados nas vivências negras em diversos contextos.
Em 2023, “Às margens de seus afluentes de águas negras” (atuação de Correnteza Braba e percussão de Déborah Cristina) mergulhou nas sabedorias das encantarias amazônicas e nas escrevivências da atriz para discutir sobre as ancestralidades diaspóricas na Amazônia e a manutenção dos cultos afro-indígenas intergeracionais. A obra circulou por escolas formais, escolas de samba e um terreiro, localizados em bairros de periferias da cidade, retomando e espalhando reflexões fundamentais de manutenção das sabedorias ancestrais em nosso cotidiano.
No ano de 2024, “Lágrimas Negras” (dirigido por Paulo Martins com atuação de Correnteza Braba, Marcelo Rosa e Enos Lopes), baseado em documentos da Revolta da Chibata (1910), a obra narra as movimentações de homens negros contra as violências físicas escravagistas na Marinha Brasileira e exige por melhores condições de trabalho. A obra foi indicada a melhor espetáculo e melhor dramaturgia no Festival de Teatro da Amazônia do mesmo ano e recebeu o prêmio de Melhor Atriz.
Ainda em 2024, foram realizadas as apresentações de “Menino” (solo de Paulo Martins) que traz para a cena os momentos de tensões emocionais, violências policiais, afetos e conflitos financeiros vivenciados pelo ator durante a sua infância no Bairro Zumbi dos Palmares – Zona Leste de Manaus. A obra propõe discutir o direito ao bem-viver das crianças negras em situação de vulnerabilidade em nossa cidade e responsabilizar o poder público pelas péssimas condições de vida dessas crianças. No entanto, a obra não se estanca na dor, com a circulação por três escolas públicas do Zumbi dos Palmares, também é uma preocupação da obra em propor às crianças e adolescentes, enquanto espectadores, a elevação de sua autoestima.
Em processo de criação desde 2024, a obra “Mojubá” (atuação de Correnteza Braba, percussão por Marcelo Rosa e Ana P. Mady) aborda as poéticas e estéticas das encruzilhadas na concepção dos povos de terreiros, como espaço de atuação do Orixá Exú, reconhecido por sua insubmissão às regras, movimento disruptivo e poder de comunicação. Dessa forma, a obra é uma gira aberta à experimentação onde iluminação, cenografia e figurino, música orgânica e virtual, corpo e texto estão em uma ginga espiralada em reverência a Exú. A criação contou com a colaboração de artistas negros de outros territórios como KanzeluMuka (SP), Kelson Succi (RJ) e Coletivo das Liliths (BA), muitas bocas e vivências para trazer as narrativas exulísticas ao palco. Serão realizados 3 ensaios abertos em 24, 25 e 26 de abril de 2025.
E a estreia mais recente, em 2025, “Deusa Profana”, com atuação e direção de pessoas trans e travestis, Randy Souza, Andira Angeli e Correnteza Braba, aborda as vivências coletivas de travestis na cidade de Manaus, em uma mescla de narrativas da atriz e de suas companheiras de caminhada que também formaram a sua travestilidade. A criação profana os mitos criados ao redor dessas vidas e as violências sofridas, no palco o corpo em pleno estado de vida, saúde e felicidade reposiciona as suas narrativas em um lugar sagrado como detentora de sabedorias e merecedoras de cuidados e afetos.
Essas presenças de pessoas trans e travestis, bem como as negras e originárias, em espaços de poder como instituições acadêmicas e o próprio palco do teatro, são de suma importância para subverter as dinâmicas e relações de poder estabelecidas entre a heteronorma e a branquitude. Esses corpos transbordam as regras da monocultura e avançam o pensamento e prática do que o ocidente define como regra. Assim, tensionam as práticas e teorias desses espaços de extrema violência e passam a propor remodelações efetivas para repensarmos um país de equidade.
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