segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Chamada convoca grupos de Manaus para livro sobre teatro nas capitais brasileiras

COMPARTILHE
Doutoranda em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e Bacharel da primeira turma de Teatro do Amazonas. É artista da cena e criadora do canal Teatro na Rede, no Youtube.

O teatro, uma prática artesanal milenar, é vivenciado por indivíduos profundamente envolvidos nesse fazer artístico. Ao longo dos séculos, ele atravessa as dificuldades impostas pelos avanços tecnológicos, capitalistas e modernos. Embora constantemente ameaçado pelo surgimento de novas formas de entretenimento, como o cinema no início do século XIX, o teatro continua a se reinventar por meio das mãos incansáveis de artistas que, muitas vezes, não recebem o reconhecimento financeiro que merecem. Essa é a realidade da profissão artística no teatro, sugere um glamour que esconde a instabilidade da carreira, na qual os artistas se entregam à sua arte em uma luta contínua para manter viva a crença em seu poder transformador.

Dito isso, como nos lembra o professor e pesquisador paulista Alexandre Mate, a prática do teatro de grupo, formada por “companhias, trupes e coletivos”, é composta por artistas que se dedicam à linguagem teatral. Esses coletivos vão além das afinidades estético-ideológicas, muitas vezes não vividas em harmonia, mas unidas por contextos comuns. Com isso em mente, convido o leitor a refletir: quantos grupos de teatro existem atualmente em Manaus? Quais estão em atividade? Quantos conseguiram resistir às décadas e superar crises avassaladoras como a da Covid-19? E o nosso Estado, como tem reagido a isso? Quantos desses grupos enfrentam as dificuldades impostas pela distância e pela logística da região Norte, o que dificulta sua circulação e limita o acesso a espaços para suas apresentações? Além disso, quantos desses grupos estão presentes nos livros sobre o teatro brasileiro?

Dentre tantas questões, essas nos conduzem a uma reflexão sobre a importância de ocuparmos espaços de privilégio e de escrevermos nossa própria história. Nesse sentido, o registro daqueles que continuam a trabalhar e a manter o teatro manauara vivo é fundamental. No último ano, dois grupos de Manaus foram indicados ao Prêmio Shell de Teatro – prestigiosa premiação, comparável ao Oscar do teatro brasileiro. Os grupos Ateliê 23 e a Cia e Produtora Panorando se destacaram, sendo este último premiado e, ainda, convidado a se apresentar na cerimônia de premiação deste ano, no Teatro Riachuelo, localizado no Rio de Janeiro, no último dia 18 de março. Isso demonstra que o teatro de Manaus, depois da década de 1960 — quando o teatro estudantil rompeu fronteiras do Amazonas pela primeira vez — continua a fazer história.

Manaus é, sem dúvida, um celeiro de artistas. O cinema tem cada vez mais explorado esse potencial, com destaque para nomes que ganharam projeção nacional e internacional, como Adanilo, ator, dramaturgo e cineasta; Begê Muniz, ator e cineasta; Isabela Catão, Jôce Mendes e Rosa Malagueta, atrizes de renome; e, claro, nossa saudosa Ednelza Sahdo, a eterna dama amazonense dos palcos e das telas.

Por isso, nos unimos à iniciativa da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, com o Selo Lucias, no projeto organizado e coordenado pelo professor doutor Alexandre Mate (UNESP), em colaboração com Márcio Aquiles, no livro Teatro de Grupo nas Capitais Brasileiras, a ser publicado pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), organização que rege o projeto da SP Escola de Teatro. A pesquisa, inédita, foi iniciada em 2024 e mobiliza dezenas de artistas e acadêmicos, que estão coletando, em suas respectivas capitais, informações sobre as referências estéticas, os processos criativos e o histórico dos coletivos de cada cidade. O projeto visa a criação de “uma extensa catalogação documental, afetiva, descritiva e analítica”, conforme informado em nota.

Na etapa de Manaus, eu, Gorete Firmino, Denni Sales, Thaís Vasconcelos, Annie Martins, Diogo Navia, entre outros, sob a coordenação da professora doutora Vanja Poty, do curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas, e com o apoio do projeto de extensão e pesquisa NUPRAMTA (composto por artistas e pesquisadores), assumimos a tarefa de difundir este chamado aos grupos e organizar esse material. Sabemos que já existem iniciativas que demonstram preocupação com a memória do teatro amazonense, como o trabalho do professor Jorge Bandeira – já homenageado neste jornal – que catalogou, por meio do anuário de teatro, importantes nomes da cena local. Contudo, como o próprio Bandeira deve reconhecer, esse é um trabalho exaustivo, que exige múltiplas frentes para se manter atualizado. Por isso, é fundamental reconhecer a grande estrutura humana que sustenta essa pesquisa. Mais uma vez, esta é uma ação pioneira, ao envolver todas as capitais brasileiras na formulação de um livro de teatro, oferecendo a oportunidade de registrar nossa história, nossos nomes e nossa poética por nós mesmos.

Finalmente, convocamos a todos os grupos, artistas, coletivos da cidade de Manaus, para preencher um formulário (no final desta página) que solicitará dados do artista, do coletivo, redes sociais, ano de fundação, breve histórico do grupo, etc.

O projeto será o quarto volume de uma série, iniciada com “Teatro de Grupo na cidade de São Paulo e na grande São Paulo: criações coletivas, sentidos e manifestações em processo de lutas e de travessias”, (2020), com a compilação de 194 coletivos, vencendo o Prêmio Especial APCA. O segundo volume, “Teatro de grupo em tempos de ressignificação: Criações coletivas, sentidos e manifestações cênicas no Estado de São Paulo”, (2023), compilou 335 grupos do Estado de SP. E, finalmente o terceiro volume “Breves apontamentos do teatro nas periferias brasileiras”, (2024), uma compilação de dezenas de artigos, a partir da colaboração de quase 300 pessoas de 15 estados e 26 cidades distintas, representantes de diferentes instituições e coletivos teatrais.

É a chance de Manaus se inserir na rota nacional do teatro de grupo, com a contribuição de seus próprios fazedores por meio da Pesquisa e documentação do teatro de grupo nas capitais brasileiras. Prazo até 31 de março!

Envie o formulário com os dados do seu grupo de teatro sediado em Manaus para pesquisa por meio do formulário em anexo. Para ter o seu grupo/ coletivo contemplado na investigação, basta responder ao formulário que está na disponível neste QR code ou na página do NUPRAMTA, que a nossa equipe entrará em contato para maiores informações.

Formulário para os grupos:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScEQsylgkTtHRl8IP4HvzGeSJEVWIQXoLjQEDeQSJ2rvqciFg/viewform

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

COMPARTILHE