segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Conecte-se, Desconecte-se: reflexão de uma artista sobre o etarismo na arte

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Atriz, arte-educadora e pesquisadora em teatro de animação. Bacharel e Licenciada em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também especialista em Dança Educação pela mesma universidade. Mestre e Doutora em Ciências da Educação (UNIDA)

O etarismo na arte traz desafios reais, como a dificuldade de reconhecimento para artistas com mais experiência. O mercado cultural costuma valorizar a juventude, desconsiderando a experiência em favor de tendências passageiras.

Muitas vezes, a criatividade é associada à juventude, ignorando a percepção do artista e alimentando o preconceito etário, o que limita as oportunidades e a diversidade de perspectivas no cenário artístico. No universo da arte, é comum que papéis sejam atribuídos a atores mais jovens, e caracterizado com maquiagens para envelhecer personagens, deixando de ser interpretados por profissionais mais experientes.

As oportunidades, especialmente no teatro, costumam ser limitadas e a aparência acaba pesando mais do que a experiência. Como observa Ferrigno (2003), a competição e o individualismo criam uma divisão entre as gerações e distanciamento social.

Esse preconceito não é natural, mas social, originado de normas, valores e discursos divulgados pela cultura, mídia e educação. Ele se manifesta de várias formas, como por classe social, etnia, gênero ou idade, e varia com o tempo e as culturas. Além disso, é reforçado por desigualdades estruturais e relações de poder que favorecem certos grupos, ou que limitam a interpretação de novas experiências.

Nesse cenário, a busca por reconhecimento e a valorização do trabalho se tornam desafios constantes. No entanto, o teatro, oferece um espaço único onde a complexidade humana é revelada e reinterpretada. Para o ator, isso não é apenas uma questão de performance, mas um processo profundo de autoconhecimento. Cada personagem interpretado é uma oportunidade de explorar emoções, dilemas e aspectos da psique humana, o que transforma o ato de atuar em uma experiência de constante transformação

A arte de atuar, portanto, vai além de simplesmente interpretar um papel, sendo também uma jornada pessoal em que o ator se vê, se questiona. Ela tem o poder de quebrar estereótipos, oferecendo visões mais verdadeiras e complexas das histórias e personagens. Como afirma Prosser (2012), a arte é um processo de percepção e expressão, promovendo tanto o crescimento pessoal quanto coletivo. Através dessa troca, o ator, dar vida a novos papéis, não apenas se transforma, mas também contribui para a construção de uma visão mais profunda e multifacetada da realidade, impactando diretamente a percepção do público sobre o mundo e sobre si. Nesse contexto, Frugugliette (2009) nos lembra que o teatro vai além da criação de cenários, luzes e figurinos. Ele envolve também palavras, ideias e emoções, oferecendo uma forma única de ver e refletir sobre o mundo.

Dessa forma, ao valorizar a experiência e combater o etarismo, o teatro reafirma seu papel como um espaço de verdadeira representação e transformação social, permitindo que novas perspectivas e narrativas sejam compartilhadas. A presença de atores mais velhos em cena não apenas enriquece o panorama artístico, mas também desafia estereótipos e preconceitos sobre o envelhecimento, dando visibilidade a histórias que frequentemente são marginalizadas ou ignoradas pela sociedade. Foi o que Jade Miguez reforçou em sua importante reflexão sobre a pressão social em relação ao sucesso e ao reconhecimento precoce de Mikey Madison na premiação do Oscar de Melhor Atriz de 2025, é uma observação que não desmerece o trabalho da jovem atriz, mas nos faz pensar o quanto essa premiação impacta no reconhecimento do trabalho de atrizes com uma carreira consolidada. O conceito aqui é um chamado para valorizar a experiência e a carreira ao longo prazo, não apenas a conquista momentânea ou a ascensão rápida que o mercado impõe para a sociedade.

A Arte, como forma de expressão universal, tem o poder de conectar diferentes gerações, criar empatia e promover o entendimento entre pessoas de diversas idades, mostrando que a arte não tem limites de tempo e que cada fase da vida possui uma riqueza única de experiências e saberes a serem explorados e celebrados. Dessa maneira, o palco se torna um campo de resistência e reafirmação da dignidade humana, onde o etarismo é confrontado e a voz de todos é ouvida e valorizada.

Conclui-se que, as barreiras que limitam o reconhecimento e a valorização dos indivíduos, especialmente aqueles que, devido à sua experiência ou características pessoais, poderiam contribuir de maneira mais profunda para o desenvolvimento artístico e cultural, precisam ser superadas. Isso é fundamental para que o teatro cumpra sua função de ser um reflexo verdadeiro da sociedade, onde cada indivíduo, independentemente de sua idade, experiência ou origem, tenha voz e espaço para se expressar.

Ao abraçar a diversidade, o teatro pode se transformar em uma plataforma de inclusão e representatividade, onde as múltiplas vivências humanas se encontram e se entrelaçam, enriquecendo o entendimento coletivo sobre os desafios e as complexidades do mundo. Nesse contexto, a promoção da igualdade de oportunidades no campo artístico não se limita a uma questão de justiça, mas também representa uma renovação e uma fonte de vitalidade para o próprio campo teatral. Quando todos têm acesso à expressão artística, a cena cultural se torna mais rica e plural, refletindo as verdadeiras transformações sociais que buscam romper preconceitos, estigmas e estereótipos. Uma nova construção social deverá valorizar a diversidade e o potencial do talento humano. Para que a arte se expanda de forma inclusiva e genuína, é necessário que essas barreiras sejam desafiadas e desconstruídas. Só assim, poderemos promover um ambiente mais aberto e acessível.

Essa transformação não acontece de forma instantânea, mas é um processo contínuo que exige a colaboração de todos os envolvidos, desde os artistas até o público. O teatro, como expressão artística, possui uma capacidade única de envolver e provocar reflexão, criando espaços para que as diversas vozes sejam ouvidas e descobertas.

Além disso, é fundamental que as instituições culturais e educacionais incentivem a diversidade e a inclusão desde a base, estimulando o acesso à arte de maneira equitativa. Ao fazer isso, contribuímos para uma cultura que não apenas aceita, mas valoriza as múltiplas perspectivas que compõem a sociedade. A arte, quando genuinamente inclusiva, tem o poder de transformar realidades e criar um futuro mais plural e empático, onde a diversidade não é vista como uma limitação.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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