segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A história segue o vento: a direita ganha espaço no cenário atual

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Professora de Filosofia da UFAM, tem formação em ciência política e filosofia. É coordenadora do Grupo de Estudos em Representação e Participação Política (GERPP).

Com essa expressão, o jornalista Fernando de Barros e Silva, da Revista Piauí, sintetizou os rumos políticos de boa parte do mundo nos últimos anos, e o Brasil, evidentemente, também foi atingido por essa ventania, como sabemos todos.

No meu último artigo, questionei se Trump poderia ser considerado um governante não democrático; afinal, ele foi eleito. Mas sabemos que a eleição não impede um governante de se apossar das instituições de um país e fazer delas o que bem quiser, alterando leis que aumentem seu poder e desequilibrem o já frágil acordo entre os três poderes existentes na maior parte das repúblicas.

O maior temor é, na verdade, uma ruptura na fronteira que separa a direita e a extrema-direita. Na Alemanha, ao que parece, o partido conservador, a Democracia Cristã, que saiu vitorioso (mas por pouco) na última eleição, não fará coalisão com o partido de extrema-direita, a Alternativa para a Alemanha, isolando-a politicamente, muito embora, na Alemanha, o maior partido de oposição tenha direito a representação em comissões parlamentares e outros benefícios que permitem que ele tenha uma participação relevante na vida política do país, mesmo não formando o governo.

 Mas no Brasil e nos Estados Unidos, a direita se deixou fagocitar pela extrema-direita. Ao invés de uma marca clara entre a direita democrática – que quer menos atuação do Estado na vida pública da nação, mas que respeita a Constituição e a institucionalidade existente – e a extrema-direita, que quer pôr fim às bases republicanas da maior parte das nações, segundo as quais a igualdade perante as leis é o princípio basilar de todo governo – o que temos no Brasil e nos Estados Unidos é um borrão que torna invisível a barreira e a diferença existente entre esses dois espectros da direita.

Por extrema-direita, entendemos aqui uma ideologia que não aceita as chamadas regras do jogo democrático-liberal, e com isso, seus líderes procuram ampliar seus poderes para além da esfera de atuação determinada constitucionalmente. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, vemos uma extrema direita que não aceitou perder as eleições, e que partiu para tentativas de golpe tanto no 6 de janeiro de 2021, nos EUA, como no 8 de janeiro de 2023, no Brasil. Além disso, ataques a um judiciário supostamente autônomo – ao menos autônomo em relação aos líderes da extrema-direita – têm sido outra prática comum. Mas não é só de um judiciário independente que a extrema-direita não gosta. Sobram ataques também à autonomia da ciência, das universidades, escolas e da imprensa. Por fim, mas não menos importante, a extrema-direita no mundo quer reduzir o poder de participação da população nos assuntos de Estado e aumentar a participação daqueles que são próximos e leais ao governante. Veja o caso dos superpoderes políticos conferidos por Trump a Musk, e mesmo a aproximação entre Trump e os demais bilionários das big techs, que fizeram uma espécie de manifestação de lealdade ao atual presidente estadunidense, e com isso eliminado os mecanismos de verificação de notícias falsas e discurso de ódio de suas redes sociais.  

Já no Brasil a direita e a extrema-direita buscam se organizar para, talvez juntas, promover a possível não-reeleição de Lula em 2026. Se, por um lado, é verdade que o governo Lula 3 não tem sido capaz de operar transformações substantivas na vida da maior parte da população, até porque, segundo o filósofo Vladimir Safatle, o PT deixou de ter nas suas práticas e no seu discurso um horizonte de transformação, é verdade também que a percepção da população sobre as atuais condições materiais de vida e sobre seu bem-estar pode estar sendo diferente dos dados econômicos e da realidade do país. A renda média da população tem crescido, o salário mínimo tem tido aumentos reais (acima da inflação) desde que Lula reassumiu a presidência, o Brasil está perto do pleno emprego. Mas os bons números da economia não resultam em aumento da popularidade do governo. Por quê?  

Ricardo Nunes, diretor da Quest Pesquisa e Consultoria, afirma que, em um país religioso como o nosso, as pessoas não sentem que o que elas obtiveram na vida delas se deve a decisões políticas e a políticas públicas do governo, mas sim, a Deus ou ao seu esforço pessoal.

Além disso, o governo, como se sabe, é frágil na sua aproximação com o eleitor: não sabe se comunicar em massa e, com isso, não consegue fazer com que sua mensagem chegue a milhões de cidadãos. Já a extrema direita no Brasil, com a sua virulência costumeira, é muito mais capaz de alcançar um público gigantesco por conta da sua perícia no uso das redes sociais.

Mas os péssimos números de aprovação de Lula 3 não se devem apenas à sua baixa capacidade de se expressar e alcançar um público disperso, que hoje se informa pelas redes sociais. Entendo, como muitos outros analistas, que há também uma ausência de marca nesse governo. Ou seria sua marca a reconstrução do que foi desfeito, como diz o lema do seu 3º mandato, “Reconstrução e União”? Desse modo, talvez o governo não queira propor nada de novo propriamente, mas apenas reconstruir as bases solidárias da nação que foram desfeitas por Temer e Bolsonaro, como a redução de investimentos públicos e o corte em programas sociais.

Bem, essa reconstrução tem sido apenas parcial. As reformas trabalhista e da previdência não foram questionadas no Parlamento, e nem serão, só para dar um exemplo de reconstrução que foi deixada para trás. Outra marca (negativa) do governo é que não há uma coalisão propriamente dita. Os partidos que inicialmente deram sustentação ao governo não votam com ele em todas as propostas legislativas, e no Ministério, o que temos mais parecem redutos de interesses pessoais do que uma harmoniosa união entre forças distintas, aproximadas por um mesmo propósito.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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