A retórica, compreendida como o manuseio dos argumentos, concentra um imenso alcance. Quando aplicada de maneira eficaz, serve tanto ao equilíbrio como ao caos. Cria teses, estabelece verdades, desmente, convence.
Kelsen, um dos maiores pensadores do Direito, a definia como a lógica jurídica, ou melhor, a embasada disputa de ideias, onde do contraditório se alcança a melhor solução.
Mas, em tempos de informação e pensamento velozes, o debate pode perder espaço para argumentos imediatistas, capazes de definir fatos e a própria história.
Não é à toa que o avanço tecnológico soube integrar a retórica às suas dinâmicas. As redes sociais, enquanto maiores expressões do mundo moderno, perderam a essência do simples convívio virtual para avançar como palco de discussões e da polarização, onde cabe todo tipo de argumento.
As “Big Techs” passaram a disputar pelo melhor algoritmo, isto é, aquele que soluciona o conflito de cada um, atendendo a anseios, alimentando egos, fomentando crenças. E desenvolveram essa disputa com a eficiência que serve tanto aos mercados dos variados segmentos, como a questões que influenciam em nossas rotinas, a exemplo de regras de saúde, bem-estar e a própria política.
Foi aí que a retórica se tornou um grande cesto, onde tudo é jogado para que cada um de nós encontre suas respostas, sem a necessidade de grandes questionamentos. Simplesmente aplicamos o que nela encontramos e nos conforta. Tudo isso com um grande trunfo: poucos enxergam o quanto são influenciados.
Quanto poder, não?
No campo político, o argumento tecnológico passou a definir eleições, levando a melhor quem sabe dominar as redes sociais. E isso não significa ganhar o sufrágio. A vitória pode vir pelo avanço de pequenos grupos e dos seus princípios ou pela manutenção da grande influência de quem, temporariamente, perdeu um cargo definido pelo voto.
Em resumo, quem detém uma rede social é dono de um alcance inimaginável, seja sob o aspecto financeiro, seja pelo modo como influencia o inconsciente de todos nós. Tem o poder de tanto construir o imaginário como desmistificar a concepção da ordem social.
Por isso, surgiu como prioridade às instituições o controle desse poder quase infinito. Afinal, ele serve a todo tipo de discurso e pode flutuar conforme a conveniência de quem o detém. Entenda-se por conveniência quem o patrocina ou lhe garante cada vez mais espaços.
Nesse aspecto, já acompanhamos inúmeros conflitos entre o Ministro Alexandre de Moraes, do STF, e Elon Musk, dono da Rede “X”, bem como, mais recentemente, com Mark Zuckerberg, da Meta, Facebook, Instagram e Threads.
No centro da questão, tem-se a alegada “liberdade de expressão”.
De um lado, Musk e Zuckerberg querem servir ao anseio de todos, às respostas que alguns procuram e precisam, sejam elas certas ou não. Quando perdem essa ferramenta, seus impérios são colocados em xeque.
Aqui, cabe uma reflexão: Será que Musk e Zuckerberg querem, realmente, defender a “liberdade de expressão” ou estão em busca apenas de manter a viabilidade dos seus negócios, ainda que divulgando inverdades?
É tolice pensar que isso diz respeito apenas ao Brasil. Eles irão qualificar como censura, em qualquer país, tudo o que for impeditivo da essência das redes que detém. E ambos são ousados no sentindo de desafiarem, claramente, instituições convencionais.
A questão é que essas instituições também souberam manter a iminente força dos seus poderes, aprendendo com os percalços que enfrentaram. São compostas, igualmente, por “donos da bola”, que sabem utilizar suas prerrogativas para manter a ordem social. Eles possuem uma característica que Musk e Zuckerberg não tem: o Poder legítimo do Estado.
Enquanto esse poder for mantido, são eles que detém a maior força, inclusive a de impor limites ao que as redes sociais podem divulgar.
É uma guerra de braços, vencida não pela melhor retórica, mas pela composição dos interesses de quem comanda as instituições. As redes sociais, ainda que queiram, não se tornaram um poder constituído.
Moraes, talvez, seja aquele que, na arte da guerra, vai a frente de seu pelotão, abrindo espaço para os demais.
Com esse papel, ele adota posições antipatizadas por quem consome a retórica contrária, num contexto de polarização massiva que o rejeita. Porém, no exercício do seu cargo público, defende o controle do que é nocivo à democracia, o que inclui as denominadas “fake news”. Ao menos, é o que a sua retórica defende.
E, com isso, retomamos o núcleo deste artigo: o poder do argumento.
Quem tem a razão? Quem conhece mais da constituição e das leis brasileiras? Quem está nesse conflito pelo poder em si e/ou pela ganância? São tantos os questionamentos que a lição de Kelsen, apesar de secular, ganha força: não há solução adequada sem um debate profundo e sério, que objetive compor, verdadeiramente, os conflitos da nossa sociedade.
Isso importa em consumir menos verdades imediatistas, isto é, aquelas sem embasamento. Precisamos elevar o nível da discussão, fomentar o intelecto do povo, em busca dos seus reais interesses. Até quando vamos delegar a verdade (a nossa verdade) a quem detém o poder e a melhor retórica, de forma legítima ou não?
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