segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O teatro como expressão humana: reflexões sobre sua importância e transformação

COMPARTILHE
Artista, professora e pesquisadora no curso de Teatro e na Pós-graduação em Artes e Letras da Universidade do Estado do Amazonas. Doutora e Mestre em Artes pela Universidade de São Paulo. Bacharel em interpretação teatral do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Maria.

A origem do teatro – difundida por nossa cultura ocidental – remonta à Grécia antiga, por volta do século V a.C., provindo dos rituais em homenagem ao Deus Dionísio, que na mitologia grega representa a fertilidade com festividades regadas a vinho e diversão. No entanto, sabemos, a partir de estudos mais contemporâneos e com uma visão menos colonizada, que a atividade ritual faz parte de diferentes povos em diferentes regiões do mundo. Então, podemos dizer que o teatro surge como uma necessidade humana de expressão. Os rituais sagrados serviam/e servem (em algumas culturas continuam existindo) como ponte para estabelecer relações harmônicas com o cosmos, os seres superiores e invisíveis que são os provedores da vida na terra, garantindo nossa subsistência e existência.

Nos rituais os mitos são constantemente reafirmados, rememorados e reatualizados através da repetição dos gestos arquétipos dos Deuses e dos Heróis Míticos. O ritual, por um instante, acaba com o tempo profano, recuperando o tempo sagrado do mito e libertando o homem do passado, permitindo que construa sua vida presente e futura. Durante o rito as pessoas superam seus limites ao realizarem ações míticas, o que faz com que atinjam um status elevado, provocando uma sensação de liberdade e transcendência, é o momento de sair da rotina cotidiana, para depois voltar com mais ânimo realizando as ações necessárias ao bom andamento da vida em sociedade.

A artista Regina Müller nos fala que o mito pode ser considerado uma linguagem estética e poética, performatizado em forma de ritual. O ritual, através de meios estéticos de representação, tem a função de atualizar os conteúdos cosmológicos que organizam a sociedade a partir de uma linguagem processual que possui uma natureza visual, tátil, sensorial e sonora, constituído em códigos simbólicos que conferem a essa experiência um caráter lúdico e reflexivo, assim como são as performances cênicas.

Destarte, o teatro é uma atividade de expressão humana, uma forma de materializar o invisível, tornar concreto o que se passa no imaginário individual, e no inconsciente coletivo (Carl Jung), vivenciando situações que fazem parte da aventura humana. Muitas obras clássicas literárias ainda são relevantes na atualidade ao trazerem à tona conflitos e paixões humanas que ultrapassam o tempo e as culturas, pois fazem parte de indagações inerentes ao ser humano. Temas como o amor, o sentido da vida, a existência humana, a morte, a beleza, a justiça e a bondade, são personificados em personagens que com suas sagas nos revelam como se colocam no mundo diante de determinadas situações. O teatro retira essas personagens do papel e as coloca em cena diante do público.

Ainda sobre a Grécia, Aristóteles dizia que o processo de vivenciar a tragédia para os espectadores provocava a katharsis (catarse) com um efeito comparável ao de uma terapia, sendo uma doutrina com a natureza e efeitos psicológicos de uma experiência emocional. Dessa forma, ao vivenciar em cena determinadas situações fazia com que o indivíduo conseguisse lidar melhor com situações semelhantes da vida. Já, o alemão Bertolt Brecht e posteriormente o brasileiro Augusto Boal vislumbraram no teatro uma possibilidade de os espectadores e os artistas teatrais refletirem politicamente, propondo que o teatro não fosse feito apenas por atores – acabando com a distinção entre atores e espectadores – criando um espaço de debate sobre a sociedade e suas questões através da interpretação coletiva.

Hoje, sabemos que o teatro é um espaço que vai além da ideia de catarse e além de um espaço político, abrangendo tudo isso, pois se revela como primordial da natureza humana. O teatro ensina sobre coletividade na prática e deveria ser matéria fundamental nas escolas. Circulam alguns memes na internet como: “eu aprendi a fórmula de bhaskara e nunca usei na vida”, isso mostra o quanto alguns conteúdos aprendidos na escola não fazem sentido para a vida prática das pessoas. Claro, que existem disciplinas que estudamos na escola que são essenciais para que tenhamos um conhecimento sobre questões que vamos nos deparar durante a vida, e o teatro é uma delas, no entanto, não é uma disciplina básica e nem se quer está presente em muitos currículos, pois, como sabemos, não é do interesse governamental e dos detentores do poder nada que liberte o pensamento humano, sendo assim, a arte é sempre relegada a algo menor e de pouca importância.

Nos é tirado algo que é fundamental e necessário para a vida humana, a expressão da imaginação, que vai além do que vivemos na realidade, o ser humano expressa através da arte: dança, música, desenho, pintura, escultura, poesia, teatro etc., aquilo que sente e que percebe do mundo, mas não consegue explicar com palavras. A arte é a conexão com o divino que há em nós. Por isso, muitos artistas ao longo da história também viram o teatro como um espaço sagrado e os atores como santos, um exemplo foi o diretor polonês Jerzy Grotowski. Não sei se santos, pois somos humanos, mas ser humano já é algo que faz parte de uma busca profunda dos seres imperfeitos que somos nós, com nosso lado bestial e nosso lado divino, acredito que a arte pode despertar em nós o que temos de divino.

Sendo assim, vejo o teatro como o espaço que nos ensina a viver em coletivo e entender muitas leis da vida. O ser humano é um ser que vive coletivamente, construindo sociedades e culturas, foi essa capacidade de viver cooperar coletivamente que fez o homo sapiens sobreviver à outras espécies. O teatro é um espaço de comunhão, no teatro aprendemos premissas básicas da vida em coletivo e que precisamos do outro, não podemos viver individualmente, mesmo que você produza um monólogo, precisará de alguém para assistir, senão, não é teatro. O teatro é a arte efêmera, onde vivemos o momento presente, pois só existe o aqui e agora, por isso precisamos estar atentos a tudo que acontece ao nosso redor, escutar e perceber o outro e o mundo para agirmos e reagirmos conscientemente.

Fazer teatro não é só decorar um texto, antes disso existe o processo criativo onde o ator e a atriz irão dar vida aos personagens vitalizando a obra do autor, materializando aquilo que está escrito, trazendo novas possibilidades de reflexão sem perder o tema proposto, mas revelando outras leituras e significados possíveis.

Muitas vezes, ao longo da história, a existência do teatro foi colocada em xeque como com o surgimento do cinema no início do século XX, depois com as telenovelas e atualmente com a internet e seus conteúdos, a pandemia também foi um momento em que se discutiu isso, mas o teatro nunca deixou de existir e sempre se reinventou, inclusive incorporando essas tecnologias. Acredito que enquanto existir vida humana na terra o teatro continuará existindo, as telenovelas já estão enfraquecidas, e não sabemos por quanto tempo os conteúdos virtuais vão sobreviver, mas o teatro sim, ele é a arte da humanidade, do olho no olho.

O teatro nos revela a efemeridade da vida e que nunca algo se repete da mesma forma, mesmo ensaiando e repetindo a cena todos os dias sabemos que cada dia é diferente do outro, que podem acontecer coisas inusitadas e que os atores não estão com o mesmo estado de espírito todos os dias. Por mais que a internet aproxime as pessoas que estão distantes, existe a necessidade do encontro presencial, os aplicativos de namoro facilitam conhecer e conversar com pessoas, mas o objetivo final é o encontro, por que nós – seres humanos – necessitamos disso, não podemos viver sozinhos, existem momentos de solidão, mas não uma vida de solidão, até os monges celibatários convivem entre si. Por isso, penso que a arte deve fazer parte do cotidiano das pessoas não só como espectadores, mas como fazedores.

Nós somos por natureza caóticos em nossas intensidades buscando nos manifestar de alguma maneira, e as experiências artísticas são uma possibilidade, porque são geradas a partir do corpo. O corpo percebe o que sentimos, e muitas vezes não conseguimos elaborar essas sensações de forma racional, mas o corpo aberto e livre para criar pode traduzir isso em signo. É um processo que faz parte da nossa natureza, no entanto é moldado pelos valores impostos pela nossa cultura, uma cultura que dissocia a arte da vida e não nos ajuda a refletir, no sentido processual/reflexivo presente no ritual, que faz com que eu reviva o mito para me compreender enquanto agente (de agir, nem sujeito, nem objeto, nem indivíduo) da sociedade.

Assim, cada vez mais temos dificuldade em estar presentes, no aqui e agora que o teatro propõe, porque estamos sempre vivendo virtualmente (no sentido do que virá a ser). As experiências poéticas através de práticas artísticas podem nos ajudar a olhar para nós mesmos e encontrar um pouco de nossa humanidade. Saindo por um momento das lógicas e regras determinadas para vivermos instantes de caos. Sabendo que a ordem é extremamente necessária para a vida em sociedade. A arte nos permite acessar esses momentos de caos para depois voltarmos e estabelecermos a ordem, mas a partir de transformações, porque a vida pode ser cíclica, mas não é sempre igual.

Referências

ARISTÓTELES. Poética. Lisboa: Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 1968

BOAL, Augusto. O teatro do oprimido e outras poéticas políticas. São Paulo: Editora 34 LTDA, 2019.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1998.

GROTOWSKI, Jerzy. O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969. São Paulo: Perspectiva: SESC, 2007.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.

MÜLLER, Regina Polo. Ritual, Schechner e Performance. Horizontes Antropológicos. v.1, Porto Alegre, 2005.

COMPARTILHE