quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Os programas de arborização e as demandas da cidade de Manaus

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Av. Constantino Nery em Manaus. (Foto: Nathan Marinho / RT1 Play)

Recentemente, o vice-prefeito, Renato Jr., anunciou o plantio de 15 mil mudas em 50 espaços públicos de Manaus até o final deste ano.

O plantio faz parte do Programa de Arborização e Conservação Florestal (Manaus Verde), lançado em maio de 2023, durante a primeira gestão do prefeito David Almeida.

Na época, foi anunciada a meta de plantar 20 mil mudas na capital amazonense e investir cerca de meio bilhão de reais na limpeza dos igarapés poluídos da cidade.

David Almeida também oficializou a criação da Comissão Municipal de Mudanças Climáticas, que conduzirá a elaboração do Plano de Ações Climáticas de Manaus. Ele presidiria a comissão, composta por 15 unidades da administração municipal.

No ano de 2023, a Prefeitura de Manaus continuou implementando ações de preservação do meio ambiente, incluindo o lançamento de um aplicativo com o objetivo de georreferenciar as árvores que compõem a arborização urbana da cidade.

No entanto, apesar dessas iniciativas, os indicadores de arborização permanecem aquém do necessário para atender às demandas da população e enfrentar os desafios climáticos.

OMS recomenda 12 m² de área verde por habitante

Se forem plantadas 15 mil mudas em uma área de 500 km², a densidade seria de aproximadamente 0,03 mudas por hectare (1 hectare = 10.000 m²). Isso equivale a uma árvore a cada 3.333 metros quadrados.

Essa densidade de plantio é considerada muito baixa para gerar um impacto ambiental significativo, especialmente se o objetivo for restaurar ou proteger a biodiversidade e os ecossistemas.

Segundo especialistas, a revisão e a implementação do Plano Diretor de Arborização Urbana, sancionado há 11 anos pela Lei Complementar nº 2, de 16 de janeiro de 2014, pelo então prefeito Arthur Neto, são urgentes e indispensáveis.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda ao menos 12 metros quadrados de área verde por habitante.

Iniciativas de preservação de áreas verdes são isoladas

As áreas verdes que ainda resistem em Manaus são fruto de iniciativas institucionais isoladas.

O campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), os quartéis do Exército, o Distrito Industrial 2, mantido pela Suframa, e a Reserva Adolpho Ducke são exemplos de espaços que sobrevivem graças à proteção de instituições específicas.

Essas áreas são exceções em uma cidade onde a arborização e os espaços verdes públicos não foram priorizados no planejamento urbano nas últimas décadas.

A ausência de uma política pública consistente torna Manaus um ambiente hostil ao bem-estar dos seus habitantes, agravando problemas como calor extremo, poluição e degradação ambiental.

Responsabilidade pela arborização deve ser de todos

Especialistas destacam que a responsabilidade por reverter esse cenário não deve recair exclusivamente sobre o poder público.

É necessário abandonar a visão limitada de que as áreas verdes são responsabilidade apenas de instituições ou governos.

A preservação e ampliação das áreas verdes urbanas dependem de um esforço coletivo, envolvendo iniciativas privadas, o engajamento da população e estratégias conjuntas para resgatar a biodiversidade urbana.

“Não basta plantar 1 milhão de árvores, a população precisa participar”

Marcelo Dutra, secretário municipal de meio ambiente na gestão do prefeito Amazonino Mendes (2009–2012) e responsável pela aprovação do Plano Diretor de Arborização Urbana de Manaus em 2012, considera os números atuais de plantio tímidos e decepcionantes.

Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Dutra destaca a necessidade de “trazer a arborização urbana para o topo dos assuntos importantes, pois ela impacta a saúde, a qualidade de vida e a própria concepção de cidade.”

“Sem calçadas para andar, quem dirá para árvores”

Segundo Dutra, Manaus enfrenta obstáculos claros para a arborização urbana:

  1. Falta de calçadas adequadas: “Não temos sequer calçadas para andar, quem dirá para abrigar uma árvore que cresce, forma copa e precisa de espaço.”
  2. Infraestrutura comprometida: “A cidade tem um emaranhado de fiações, com cabos espalhados a poucos metros do solo, o que frequentemente leva a cortes de galhos e copas.”
  3. Falta de cuidado da população: “Apesar de clamarem por mais árvores, muitos cidadãos não participam sequer dos cuidados com as mudas.”

Outros especialistas também reforçam que as iniciativas precisam ser acompanhadas de estratégias de financiamento, como parcerias público-privadas, incentivos fiscais e captação de recursos internacionais para projetos de recuperação ambiental.

Combinando educação ambiental, ações comunitárias e o uso estratégico de espaços subutilizados, Manaus tem o potencial de resgatar sua identidade como uma cidade mais verde.

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