Confesso que demorei a escrever sobre Sebastião, o mais recente espetáculo da Cia. Ateliê 23, de Manaus. Mas o tempo não diminuiu a surpresa e a empolgação que tive ao ver a jovem plateia emocionada e empolgada e que lotara o já histórico Teatro Gebes Medeiros, em Manaus, na noite do dia 7 de novembro de 2024.
A peça vem na sequência do grande sucesso da companhia, Cabaré Chinelo, um musical que visibiliza as histórias das prostitutas que habitavam o antigo reduto da elite masculina da borracha amazonense, em meio a uísques e charutos, diversões e conspirações. Antes mesmo de ser um cabaré, o local foi considerado o melhor hotel de Manaus e, também, “o mais caro”, porém, com a mobília “humilde”, guarda-roupa sem “portas de espelho”, “tapetes velhos”, lavatório “de estudante”, com uma cama “boa, larga, macia” (cf. MAIA, Gonçalves. Livro de Viagem: Norte I. Ed. Empreza do Amazonas, 1906, p.121). Em uma destas, famosos como o aventureiro espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Arias, planejou ambiciosamente sua missão em libertar o Acre da Bolívia a mando dos governadores José Cardoso Ramalho Júnior (Amazonas) e José Paes Ramalho (Pará).
Hoje, o premiado espaço projetado por Laurent Troost e equipe, ganhador de inúmeros prêmios de arquitetura, tem como nome “Casarão da Inovação Cassina”, um espaço para “fomentar o coworking e o encontro de fazedores da economia digital”, mas que outrora, no já Cabaré Chinelo, abrigara mulheres vindas de muitas partes do mundo e do interior do Estado, vítimas de tantos abusos que parecem ter saído de um triste noticiário recente. A misoginia e o feminicídio não cansam de se repetir.
Mas Sebastião segue a mesma trilha de Cabaré Chinelo, só que agora com um elenco de maioria LGBTQIAPN+ torcendo pela representatividade mais que a representação. A peça é uma resposta às críticas sofridas pela companhia quando do lançamento de “Glowria”, clipe musical gravado inteiramente no interior da igreja de São Sebastião. Para muitos, Deus é a imagem e semelhança de um tipo específico de “gente do bem”, e esquecem que ele mora no amor e nos detalhes.
Sebastião traduz as vozes de uma população forte e fortalecida, cheia de dores e delícias, histórias em que muitos gays, nós, sem dúvida, nos identificamos, e outros, não sendo, conheceram e indignaram-se. Ambientada no bar Patrícia – antigo reduto LGBTQIAPN+ de Manaus em plena ditadura civil-militar nos anos 1970, localizado na Avenida Constantino Nery, publicizado recentemente pelo estilista Bosco Fonseca em livro (o autor compareceu a sessão de 7 de novembro) – a peça conecta as histórias das personagens frequentadoras deste e daquele bar, cujos movimentos e olhares contracenados do elenco funcionam como afagos e abraços, mas também um “tamo juntes” no enfrentamento à conservadora sociedade amazonense, e de extensão, brasileira.
A identificação dos corpos com a plateia é imediata: os movimentos clubers dançantes, celebrados em torno da arte drag, se entrecruzam com cortes coreográficos extraídos de células já conhecidas da dança moderna. Uma homenagem, talvez, a Bob Fosse e Twyla Tharp, mas poderia pagar tributo também ao musical Taboo de Boy George e Mark Davies Markham, encenado na West End, Londres, em 2002. A segunda cena de Sebastião trouxe à tona o mesmo sentido poético dos “novos românticos” ao entoar Everything Taboo na abertura do segundo ato do musical londrino.
Homenagens à parte, vimos uma peça amazonense galgando sucesso, de público e crítica, coisa que há uns vinte anos seria quase que uma ofensa pessoal proferida por alguns asseclas do provincianismo e do beletrismo. Em Sebastião, vimos os biodramas de gays de muitos gêneros e orientações, binários/as/es e não-binários/as/es, cor e classes. Lampejos poéticos que expunham as contradições sociais e violências cotidianas, mas que também abrem espaço para a festa, a dança, o humor e a alegria, afinal, o riso – digo e repito a frase do poeta Aldísio Filgueiras – é o nosso álibi político.
A superfície da cena é pop e o pano de fundo contempla estes minidramas. Em meio a estas, uma me acendeu um alerta: já sabemos que a camisinha é a principal arma em defesa contra o HIV e outras IST`s, porém, o tom crítico, e porque não condenatório adotado em uma das cenas recriminando quem não a usa, vai de encontro a campanha brasileira pelo uso da PrEP, um dos muitos dispositivos preventivos ao HIV, e de grande sucesso no Brasil. Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que o país dobrou o uso da Profilaxia Pré Exposição – PrEP com mais de 104 mil usuários, assim como o número de pessoas vivendo com HIV em tratamento alcançaram as metas estabelecidas.
Produções audiovisuais, como a série Angels in America, potente obra dirigida por Mike Nichols em 2003, já traziam à luz o contexto social e o preconceito contra quem vive com o HIV e a AIDS e, de qualquer modo, Sebastião chama a atenção para este “estigma” que se prolonga, mesmo sabendo que a doença, do ponto de vista científico, não carrega mais o peso da incerteza, mas a certeza do preconceito que ainda resiste aos avisos e avanços.
As composições são forjadas em partituras contemporâneas e influenciadas pelo jazz, soul, R&B e dance. O canto, quase todo, acompanha essa tradição jazzística, com fortes vibratos e improvisos, e as letras, ora confessionais, ora bradantes, conduzem a musicalidade nos últimos trinta minutos da peça, ao ritmo lento e sincopado, melodramático, sensível, buscando tocar mentes e corações.
Sebastião, já disse, com casa cheia e público pagante, representa a nova fase do teatro brasileiro feito no Amazonas, para o Amazonas, com o Amazonas e de expressão universal. Um teatro que chama o público e o convida a partilhar de uma arte de mais de cinco mil anos e que continua a interessar mesmo diante do reconhecimento social buscado pelas redes sociais, afinal, o teatro fala a linguagem humana de forma direta, cara a cara, olho no olho, deixando claro que enquanto houver opressão haverá luta e havendo luta haverá revolução.
- Direção: Eric Lima | Taciano Soares
- Dramaturgia: Daphne Pompeu, Eric Lima, Taciano Soares
- Elenco: Andiy, Elias Difreitas, Eric Lima, Francis Madson, Jorge Sabóia, José Holanda, Taciano Soares
- Assistência de direção: Andira Angeli | Emily Danali
- Direção musical / Composição: Eric Lima, Guilherme Bonates e Taciano Soares
- Assistência e Produção musical: Guilherme Bonates
- Banda: Bruno Rodriguez, Guilherme Bonates, Luana Aranha, Mady
- Figurino: Andiy, Eric Lima e Francis Madson
- Iluminação: Lore Cavalcanti | Paulo Martins
- Produção Executiva: Vívian Oliveira
- Assessoria de comunicação: Manuella Barros