Talvez a maior lição que se pode tirar de uma eleição, em especial de um segundo turno, é que é muito complexo querer reduzir tudo a um fator.
Vejo analistas falando que a vitória de David sobre o capitão (55% x 45%) se deveu ao problema do IPTU da vice, ao número de abstenções pelo feriadão, ao radicalismo bolsonarista do capitão, à máquina pública usada pelo prefeito ou até mesmo pelos votos do deputado federal na reforma tributária, sem falar nas emendas que não enviou para cá.
Estamos acostumados, principalmente a mídia, a querer criar manchetes, lançar teses que causem “lacração’, como se diz. Por isso, essas descobertas de supostos “segredos” da eleição, os tais bastidores que fizeram A ou B vencer.
Contudo, em uma análise mais ponderada, sem lacração, podemos ser mais modestos. Em primeiro lugar, não creio haver uma causa da vitória, mas causas. Não se pode reduzir uma vitória eleitoral a um fator único. Há uma multicausalidade que faz diversos fatores interagirem e levarem determinado nome a vencer.
Em segundo lugar, não há um “eleitorado”. Há eleitorados. São diversas classes sociais, categorias profissionais, segmentos religiosos e etários, entre outros critérios, que é impossível falar de “sociedade” ou “eleitorado”. Me incomoda, quando os “analistas’ querem identificar o “desejo do eleitorado”, reduzindo-o a um vetor único.
Nessa linha, penso que podemos creditar parte da vitória ao próprio estilo de David atuar. Ele sempre foi, tanto nas mídias sociais, como nas apresentações, discursos e debates, o prefeito das obras, da reforma das UBSs e da revitalização das escolas. Nesses quatro anos, sempre fugiu de grandes debates teórico, ideológicos, econômicos ou ambientais. Preferiu, seguidamente, enfatizar que trabalhava, corria e orava. Focou sua atuação como prefeito nesses três temas e ficou assim até o final.
Essas obras miúdas, na periferia, aliadas a outras, de maior alcance, como um Prato do Povo, tiveram visibilidade e capilaridade. As pessoas da periferia viam seu trabalho, enxergavam o que ele estava fazendo. Pragmaticamente, deixaram o discurso sobre finanças, corrupção e futuro de lado e votaram em quem fez algo ali, no terreno ao lado.
Outro ponto que o prefeito soube levar foi desideologizar sua campanha. Falava sempre que era do “partido de Manaus”. Evitou entrar na briga Bolsonaro x Lula. Mostrou uma face pragmática, priorizando as obras. Escondeu os senadores Omar e Eduardo, evitando ser associado publicamente a Lula ou á esquerda.
Aproveitou uma gama de eleitores que desejava fugir dessa polarização e não enxergava ser a hora de antecipar o duelo presidencial. Ressaltou muito que não queria entrar nessa disputa, o que acabou atrair indecisos e insatisfeitos com os ataques ideológicos. Isso, sem falar no apoio dos evangélicos, que mostraram, outra vez, sua força eleitoral.
Outro ponto a destacar é que o segundo turno é, tradicionalmente, o momento de se votar no “mal menor’ ou no “menos pior”. Radicais, geralmente, perdem no segundo turno. E isso se mostrou real. O prefeito passou a imagem de que seria o “menos pior’ para grande parte do eleitorado. Sua figura de tocador de obras acabou sendo a mais aceitável.
Também não podemos esquecer o peso da máquina pública. Os comissionados, servidores e terceirizados entraram em campo com a força toda. Havia muitos militantes pagos, mas também houve uma presença avassaladora de profissionais da prefeitura nos bandeiraços, adesivaços e caminhadas. Além disso, os pedidos de votos dentro dos órgãos correram soltos, mostrando que esse é um fator nada desprezível nas eleições locais.
E o capitão? Foi um perdedor? Foi, caso pensemos na disputa simples. Contudo, teve mais votos do que quando concorreu a deputado federal. Mostrou, também, que o bolsonarismo radical, de cunho ideológico, tem, no mínimo, uns 45% dos votos da capital. É um segmento que não pode ser desprezado em futuras campanhas. Seja ele, o capitão, ou outro há um depósito de eleitores que votam nesse setor, o bolsonarismo, basicamente por uma identificação ideológica. Pode ser uma base para as próximas campanhas que não se deve deixar passar.
E os apoios? Cidade sumiu, não apontando um indicado. Marcelo também, embora emitisse sinais pró-prefeito. Amom, por outro lado, não conseguiu transferir significativamente seus votos. Para equilibrar a disputa teria de ter transferido cerca de 70% deles, mas não foi o que vimos. Isso mostra que o eleitor não segue tão fielmente seus favoritos. É preciso mais do que uma indicação.
Enfim, agora é hora de lamber as feridas e começar a administração. E não esquecer que 2026 está pertinho…