domingo, 25 de outubro de 2026

Chega de medo de falar de medo no teatro infantil

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Dib Carneiro é jornalista, dramaturgo e crítico teatral

O medo sempre será um tema muito bom de ser explorado no teatro para crianças. A opereta infantil Cabelos Arrepiados, de Karen Acioly, encenada pela companhia Buia Teatro, de Manaus, tem viajado muito pelos festivais, inclusive fora do Brasil, levando esse assunto à cena com bastante criatividade e coragem, surpreendendo as plateias por onde passa. 

Não é comum uma opereta para crianças em nosso País. Muito menos assim tão bem feita. Se você não presta atenção nas letras das canções, não entende muita coisa. O enredo está contido na música – pelo fato de ser uma opereta. Isso já causa uma estranheza inicial num tipo de público desacostumado a montagens dessa natureza. E isso é a glória: teatro existe também para ser estranho, para ser ousado e sair do usual. A BuiaTeatro Company merece todo o nosso respeito por ter bancado essa coragem, que é tanto uma coragem temática quanto de gênero teatral, ou seja, de linguagem. 

A direção é de Tércio Silva (bem como iluminação e cenário) e a direção musical é de Jefferson Mariano. Ambos brilham, fazendo o espetáculo subir em patamares acima do que se está acostumado a ver pelo Brasil afora, nas peças de censura livre. Uma peça de teatro vai ser melhor, mais bem feita, bem escrita e dirigida se simplesmente conseguir causar algum tipo de reação livre na plateia mirim, seja de medo, de estranheza, de encantamento, de frustração, de desconfiança e até de repúdio. Se a arte for capaz disso, estará contribuindo para construir uma pessoa mais liberta. Sem ter de se submeter aos chavões e às receitas prontas, a criança se torna mais fantasiosa, portanto, mais inquieta e, ao mesmo tempo, mas lúcida para enfrentar toda a vida que terá pela frente. 

Cabelos Arrepiados fala de um tema palpável, concreto: crianças que não conseguem dormir, porque o medo lhes rouba o sono. Mas explora essa realidade tão comum na vida das crianças usando linguagem, estética, ritmo, andamento, música, visagismo, figurino – tudo isso – de forma impactante, sombria, onírica, catártica. Nãotem “musiquinhas” alegres e profusão de coresvivas. Ao contrário. São canções densas e figurinos em preto e branco (Maria Hagge). Destaque também para as formas animadas e bonecos quase assombrados, por Cleyton Dirr e Dante. Por que não? Por que o teatro dito infantil ainda evita mergulhar nessa fatia do mundo interior das crianças que é tão sinistra, tão incerta e indefinida?  

Cabelos Arrepiados põe a insônia em cena, os maus pensamentos, as armadilhas do inconsciente, o embaralhamento dos sonhos. Mas também menciona fortemente o assédio infantil, por exemplo. Temas árduos tratados com cuidado e delicadeza, mas sem a menor condescendência à onda do “politicamente correto”. Chega de medo de falar de medo e outros tabus. O Brasil precisa de mais companhias como a Buia, de Manaus, que une talento, sofisticação, rigor estético, ousadia e criatividade – tudo, afinal, de que uma criança mais precisa (e merece ter) ao ser levada pelos adultos a uma sala de teatro. 

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