Manaus pôde ver em seu “Festival SESI Cultura Infância – Uma Visão de Futuro” um espetáculo decisivo na história longeva do consagrado grupo mineiro Giramundo, O Baú de Fundo Fundo, de 1975, responsável pela consolidação dessa importante trupe de bonequeiros na arte de animação no século passado. Naquele início de trajetória, o saudoso Álvaro Apocalypse e sua turma ainda estavam sediados em Lagoa Santa, e não em Belo Horizonte. Era uma fase formativa e o espetáculo serviu para lhes dar segurança de que seguiam pelo caminho certo.
Foi, portanto, uma noite revisionista e muito emocionante. Tanto tempo depois o Giramundo segue fazendo espetáculos que não envelhecem, nem na temática nem na técnica. Seguem encantando as novas gerações. Seguem emocionando e arrebanhando novos fãs por onde passam. A emoção aumenta ainda mais quando sabemos que o mesmo boneco protagonista, o palhaço Libório, segue em cena, exatamente como foi confeccionando/construído pelo mestre Apocalypse. Não houve troca do boneco nessas décadas todas.
O Baú de Fundo Fundo nada mais é do que um tributo a diversas manifestações culturas populares de Minas Gerais – uma coleção de ‘causos’, lendas, brincadeiras, cantigas de roda e adivinhações. Se naquela época o Giramundo já sentia necessidade de contribuir para a preservação dessa memória popular ligada às infâncias, imagine hoje, na metade do século 21, como isso continua relevante e necessário. Não deixar morrer tanta ludicidade que marcou gerações. Preservar a cultura espontânea de um País. Retirar tudo de dentro de um baú que não tem fundo, que não tem fim. É magnífico.
Extremamente questionável é essa opção de boa parte dos grupos de teatro de animação em gravar previamente todos os diálogos, com a melhor qualidade possível de dublagem, e na hora do espetáculo ao vivo apenas apertar a tecla play. Os manipuladores têm, portanto, de sincronizar o movimento dos bonecos com os diálogos pré-gravados. Isso garante a qualidade do som, mas tira o brilho e o viço do teatro feito ao vivo, do teatro sendo teatro. Mas é uma decisão a ser respeitada e compreendida.
Impactante é a perfeição do Giramundo nas técnicas de manipulação dos bonecos. Aqui, em O Baú de Fundo Fundo, predominam os bonecos de fios. É incrível o que Bia Apocalypse (diretora da remontagem, ao lado de Ulisses Tavares), Rai Bento, Enzo Giaquinto e Ana Fagundes conseguem fazer em termos de apuro de movimentos, qualidade nos detalhes, expertise de manipulação. Uma vovó fazendo crochê, um peixe se debatendo antes de morrer, um casal dançando samba, um cortejo de reisado, um caipira tocando sanfona, um fantasma em crise de identidade, dois sapinhos caindo na dança. Quanta precisão de movimentos. Que qualidade de animação. Impossível não se derramar por tamanha competência.
Por ser uma colagem de cenas, uma após a outra, o espetáculo precisa de muita agilidade. A gente pensa que acabou e vem mais uma cena, e depois outra, e mais outra, e outra e outra. É uma estrutura perigosa para o andamento da narrativa, para o fluxo da dramaturgia. Uma armadilha para o grupo. Quando o empedernido prefeito-delegado se rende finalmente à poesia do palhaço e resolve encher a cidade de flores e pássaros, o recado já está dado. A cidade vai se transformar, a arte vai prevalecer. O que vem a seguir – e não é pouco – apenas repete a ideia de que o baú de manifestações é infinito.
Mas o fato é que poucas vezes eu vi em cena um palhaço tão poético, cativantemente poético. E ele é danado, esse personagem, porque quebra o tempo todo a quarta parede e se assume para a plateia como boneco. Há, inclusive, a cena em que a luz da plateia se acende e os dois bonecos – palhaço e prefeito – constatam que há pessoas de carne e osso no mundo, não só bonecos de madeira como eles. Uma cena que é pura inversão, um grande achado, muito bem pensada e realizada. É de um lirismo extremo ver o boneco dizendo que ele até pode ser de madeira, mas seu coração não tem cola, nem prego nem parafusos. E mostrar literalmente que um passarinho mora dentro de sua cabeça. Ah, que sublime. Encantadoramente sublime.
Vai, Giramundo, segue seu giro apaixonante e apaixonado, sem fim e sem medida. Exatamente como um baú de fundo bem fundo. E que os acompanhe pelos palcos da vida todos aqueles que também têm pássaros na cabeça e ainda nenhuma cola ou prego no coração.