Uma grande noite de encantamento musical marcou, no esplendoroso Teatro Amazonas, a primeira apresentação em Manaus do viajado e longevo espetáculo carioca de Tim Rescala, Pianíssimo – A História de um Piano Encantado. Que belo acerto da programação do Festival Sesi Cultura Infância, com a participação especialíssima da Orquestra Amazonas Filarmônica e quatro incríveis cantores solistas locais: a soprano Dhijana Nobre, a mezzo soprano Thalita Azevedo, o tenor Wilken Silveira e o barítono Luiz Lopes.
Primeiro musical de Tim Rescala, apresentado desde 1993, ou seja, há mais de 30 anos, Pianissímo é inspirado em um estudo para piano que ele próprio compôs em 1989. O mais bonito de tudo é constatar o quanto essa obra ainda toca as crianças da atual geração e das mais diferentes regiões do País. No Teatro Amazonas, não foram poucos os adultos que se emocionaram às lágrimas, diante de tanta delicadeza e bom gosto musical. Escrever algo que nunca fica datado – e portanto um clássico – é a glória maior de um criador. Tim Rescala pode se orgulhar disso com toda força. Pianíssimo sobreviverá a ele com toda certeza – que glória é isso para um autor contemporâneo!
Sem contar o quanto é raro no Brasil um concerto para crianças, totalmente pensado para o público mirim, com sacadas inteligentes, recursos lúdicos de participação da plateia, ritmos contagiantes, refrãos (e não refrões) marcantes nas canções. Uma maravilha rara, de fato. Toda a estrutura escolhida leva a um crescendo eficientíssimo de envolvimento com o público, graças ao recurso épico narrativo muito bem desenvolvido, palavra por palavra. Nesse aspecto, o papel de narrador do concerto infantil ganha uma importância fundamental no espetáculo. Quem está brilhantemente nesta função é a consagrada atriz de teatro e Tv Soraya Ravenle. Ela domina o palco, quase sem sair do seu lugar, com magnífica técnica de narradora, luminosa interação gestual, cativante jogo corporal, comprovado talento vocal. Uma força cênica que nos arrebata do começo ao fim, alternando firmeza e delicadeza, potência e graça.
“Foi num domingo desses, bem ensolarado, que ele chegou”, anuncia a narradora. Chega à casa da menina Clara um piano de cauda de nome Steinway. Para ela estudar música com uma professora chata e retrógrada, de palmatória a postos. Mas o Steinway resolve “conversar” com a menina e, assim, o plot está lançado e a premissa estabelecida: uma história de frutífera amizade entre a menina que não gosta de música e seu piano encantado, que ela jura ouvir falar. Eis que a simplicidade de um enredo consegue ser a chave detonadora para o desenrolar complexo de uma obra. A ilusória aparência de simples levando a momentos de sofisticadíssima criação. Foi assim que vi Pianíssimo.
Minhas preferências, a quem possa interessar: 1) A conhecida Quinta de Beethoven virando refrão de samba! 2) Soraya Ravenle se desmanchando em lirismo na canção da mãe que quer ver na filha a artista que ela não foi. 3) Os efeitos de iluminação bailante no teto do teatro nas cenas da bailarina e dos animais da floresta. 4) A voz ao mesmo tempo doce e firme do solista na primeira vez que ele canta como o piano encantado. 5) O Bolero de Ravel gravado com os instrumentos imitando sons de bichos. 6) A azeitada parceria Rescala-Ravenle na canção do teclado eletrônico. 7) A eficiência divertida da Valsinha em Lá repetida até a plateia dizer chega.
Enfim, uma frase saída da boca da mãe define, para mim, esse reconfortante e esperançoso espetáculo: “É incrível o que a música pode fazer!” Parabéns e obrigado para sempre a todos os envolvidos.