quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Sobre os assédios eleitorais em geral

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

O início de setembro ficou marcado pelas denúncias de assédio sexual de uma ministra contra outro ministro, no governo federal.

O ministro caiu, os grupos identitários se dividiram, novas queixas contra ele surgiram e o governo ficou encabulado, afinal, eram expoentes locais da política woke que estavam se batendo.

Porém, o assédio não é apenas marcado pela sexualidade. Ele é, acima de tudo, o ato de importunar, de maneira abusiva a alguém, especialmente no caso de um superior para um inferior hierarquicamente.

Inclusive, há dúvidas, se, legalmente, o ministro teria cometido assédio ou importunação, pois ministros são iguais na hierarquia, sem superioridades. Enfim, mais uma querela jurídica. Aguardemos o resultado.

Há os tipos clássicos de assédio: sexual, moral, stalking, bullying, discriminação e preconceito. Há várias cartilhas na internet, ensinando a identificar cada um deles. Até existem teóricos que falam de assédio inferior (quando o subordinado importuna o superior) e hexagonal (quando os dois são iguais), mas são controvérsias legais, que deixamos para depois.

O que desejo lembrar aqui é outra forma de assédio, o eleitoral.

Inúmeros bandeiraços e adesivaços se espalham pela cidade. São milhares de pessoas com bandeiras na mão, gritando nomes de candidatos. São vários postos de adesivagem funcionando o dia todo, colocando adesivos nos vidros traseiros, “gratuitamente”.

Quem vai fazer tais bandeiraços? Há algumas décadas, havia o militante. Era um sujeito que acreditava em determinada ideologia e/ou partido e fazia, de graça, isso, bandeirar, adesivar e acompanhar o candidato em caminhadas.

Hoje em dia, salvo honrosas exceções, essa figura derreteu. O que temos, de fato, é o militante de aluguel. São pessoas contratadas, por diárias ou contratos, que recebem para agitar bandeiras, adesivar carros e acompanhar políticos. São torcedores pagos (geralmente, pelo Fundo Eleitoral).

Será que todos os agitadores de bandeiras são contratados? Nem todos aparentam ser pessoas humildes, que aceitam uma diária nesse sol do verão amazônico, para ficar horas balançando bandeiras. Além disso, são milhares de pessoas, fazendo isso. Seria muito dinheiro, mesmo para os candidatos mais ricos.

Levanto uma hipótese: será que não há servidores públicos no meio? Será que não há pessoas com cargos de confiança, que topam isso para não perder seus postos? Será que não há funcionários de terceirizados, que aceitam para os patrões não perderem os contratos?

O servidor com cargo comissionado, geralmente, teme perder sua FG (função gratificada). Ele teme ser transferido para algum local longe de seu bairro. Tem receio de ser deslocado para algum posto distante de sua residência.

É nessa hora que alguns chefes insinuam que, para manterem seus cargos e ficarem perto de suas casas, eles poderiam balançar umas bandeiras e adesivar os carros.

Depois de algumas denúncias, atualmente, a coisa é mais complexa. Não se faz mais isso no horário de expediente nem se fazem ameaças abertas. É tudo deixado para depois do horário e sem ameaças escancaradas.

Isso também se aplica às famigeradas reuniões e caminhadas. Funcionários com cargos de confiança são os mais convocados para tais eventos, pois temem perder regalias.

E isso não se aplica apenas ao serviço público. Nas empresas privadas, as ameaças são similares. Muitas vezes, e isso já foi exposto em inúmeras eleições, o patrão diz que a “empresa vai falir e todos vão ficar sem emprego, caso fulano não vença”. Insinuam, suavemente, que é bom votar em A ou B, pois todos ficariam desempregados, caso ele perdesse.

São formas sutis de assédio, mas que são reais e cotidianas. Até que ponto esses servidores e funcionários querem colar adesivos nos seus carros ou ficar no sol, balançando bandeiras? Isso é a tal máquina eleitoral, que tanto se preza?

É difícil, mas não impossível a Justiça Eleitoral apurar até aonde houve assédio ou apenas convencimento racional argumentativo em prol de determinado nome.

Seria interessante que tal assunto viesse à tona. Muito se debate sobre os recursos financeiros, mas ninguém menciona as pessoas. É um exército invisível, mas que precisa ser notado e protegido.

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