O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, Renan Calheiros (MDB-AL), considerou que ficou evidente que houve aconselhamentos paralelos ao presidente Jair Bolsonaro na pandemia, especialmente em relação da adoção de cloroquina, remédio que é cientificamente ineficaz contra a doença.
Em maio de 2020, uma nota do ministério informava que os medicamentos orientados pelo órgão para o tratamento precoce de pacientes com a doença eram a cloroquina e a hidroxicloroquina, além do antibiótico azitromicina. As drogas, no entanto, não têm eficácia comprovada contra a doença.
Essas orientações chegaram, inclusive, a Manaus. Um ofício assinado no dia 7 de janeiro deste ano foi enviado a Secretaria Municipal de Saúde “para que possa realizar no dia 11 de janeiro de 2021 — segunda-feira, a partir das 14h às 22h — visita às Unidades Básicas de Saúde destinadas ao atendimento preventivo à Covid-19, para que seja difundido e adotado o tratamento precoce como forma de diminuir o número de internamentos e óbitos decorrentes da doença”, diz o documento.
No mesmo documento, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, afirma que é “inadmissível” a não adoção da orientação da pasta.
Aconselhamentos paralelos
“Bolsonaro divergiu das orientações científicas, no isolamento e na cloroquina. Foi um depoimento importante na minha opinião para clarear exatamente o que ocorreu naquele momento inicial da pandemia”, disse Renan, a Folha de S. Paulo, nesta terça-feira (4).
O ex-ministro disse, em depoimento, que os aconselhamentos de grupos paralelos eram constantes na gestão de Bolsonaro. Entre outros fatos, relembrou que foi informado, em uma reunião, que “era para subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião de vários ministros e médicos. Vinha propor esse negócio de cloroquina que eu nunca havia conhecido, porque ele [Bolsonaro] tinha um assessoramento paralelo nesse dia”.
Foi nessa ocasião que chegaram a sugerir que a bula da cloroquina fosse modificada por decreto para poder ser receitada no tratamento da Covid-19.
Agora, apoiadores ao governo federal tem adotado discursos favoráveis ao distanciamento social. No primeiro dia de trabalho da CPI, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) chegou a sugerir que a CPI da Covid não poderia ser realizada, pois causariam aglomeração. Ele que esteve, ao longo da pandemia aglomerando ao lado do pai, o presidente Bolsonaro.
Além disso, o ex-ministro Eduardo Pazuello, que estava a frente do ministério quando houve recomendação do uso de cloroquina em Manaus, enviou comunicado a CPI da Covid informando que esteve em contato com pessoas que testaram positivo para a doença e, por isso, não poderia comparecer nesta quarta-feira (5), para depor na comissão.
Texto: Milena Soares, com informações da Folha de S. Paulo e O Globo
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