quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Renan cutuca Bolsonaro: 'Constituição terrivelmente democrática'

O senador não economizou ironias, gestos teatrais, mensagens cifradas e ameaças veladas em suas declarações após assumir a relatoria da CPI da Covid.
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O senador Renan Calheiros (MDB-AL) não economizou ironias, gestos teatrais, mensagens cifradas e ameaças veladas aos responsáveis pelo combate a pandemia da Covid-19 ao assumir a relatoria da Comissão Parlamentar de Inquérito instalada, nesta terça-feira (27), no Senado Federal, após indicação do presidente da CPI, o senador Omar Aziz (PSD).

Logo nos agradecimentos, Renan tratou de incluir uma saudação ao Supremo Tribunal Federal, que determinou a abertura da CPI após uma ação dos senadores Alessandro Vieira (Podemos/AL) e Jorge Kajuru (Cidadania/GO).

“Quero agradecer aos ministros do Supremo, que fizeram cumprir nossa Constituição, terrivelmente democrática”, disse Renan. O uso da expressão “terrivelmente” remete à promessa feita pelo presidente Jair Bolsonaro de indicar para a mais alta corte do país um ministro “terrivelmente” evangélico assim que o ministro Marco Aurélio Mello se aposentar, em junho.

Quando prometia realizar uma “investigação isenta, com foco determinado e despolitizada”, o senador alagoano incluiu uma fala que aterrorizou o líder do governo, senador Fernando Bezerra (MDB/PE). “Mas é impossível esquecer todos os dias fúnebres que vivemos desde o ano passado. Impossível apagar este mês abril, o mais letal desde o início da pandemia, sobretudo o dia 6 de abril, quando o país registrou uma morte a cada 20 segundos”, disse, num movimento teatral que culminou com o pedido de 20 segundos de silêncio no plenário da CPI em homenagem aos mortos e as famílias enlutadas. Em 6 de abril morreram 4.195 brasileiros de Covid.

Militares no ministério

No momento mais direto, Renan lembrou da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que enviou 25 mil soldados para combater os nazistas na Itália, entre 1944 e 1945, e cujas perdas não chegaram a 500 homens.

“O número baixo de perdas ocorreu porque no comando estava um militar. Imaginem se o comando estivesse com um infectologista?”, questionou, numa referência ao fato de um general, Eduardo Pazuello, ter passado a maior parte do tempo liderando o combate a doença. “Guerras, sejam elas militares ou sanitárias, devem ser dirigidas por especialistas. Quando se inverte essa lógica, a morte é certa”, completou, num recado claro que Pazuello já está na linha de tiro da investigação.

Lava jato

Em outro momento de ironia, o senador prometeu elaborar um relatório que terá a participação de todos da comissão. “Serei mais um sistematizador, um redator, do que relator”, anunciou, antes de dar o tiro fatal em velhos inimigos. “Não somos discípulos de Dallagnol (Deltan, ex-coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato) e nem de Moro (Sérgio, ex-juíz da Lava Jato). Agiremos com imparcialidade, sem arquitetar power points contra ninguém”, conclui, novamente referenciando a famosa apresentação na qual Dallagnol acusou o ex-presidente Lula de ser o chefe do esquema do Petrolão.

Endereço certo

Voltando o discurso para o governo, Renan Calheiros prometeu que a investigação vai parar o “cronometro da morte”, interrompendo a agenda da morte, o caos social, a fome, o descalabro institucional, a ruína econômica e o negacionismo. Prometeu ainda que a CPI será o “santuário da ciência”

Assim que teve a palavra, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra advertiu Renan sobre os adjetivos presentes no discurso do novo relator. Bezerra disse que saúda a intenção de fazer um relatório colegiado, com a participação de todos, mas os adjetivos jogaram contra essa anunciada intenção. “Espero que essa contradição não apareça no resultado final, mas fica meu alerta”, disse Bezerra.

“Aqui ninguém precisa ter medo de nada. Os inimigos dessa relatoria são a pandemia e aqueles que, por ação e omissão, por vontade ou desídia (desleixo, preguiça), se aliaram ao vírus”, completou Renan Calheiros, sendo o mais direto possível sobre o alvo que a investigação terá.,

Texto: Gerson Severo Dantas

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