quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Qual o sentido dos debates, hoje em dia?

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Embalados pela anistia “lenta e gradual’, do general Geisel, nos anos setenta, víamos com cobiça os debates políticos entre candidatos estrangeiros, especialmente americanos e franceses.

Em 1982, com o retorno das eleições para governador, tivemos os nossos debates. Praticamente sem regras, pois não tínhamos experiência alguma nesse tipo de programa, eles foram decisivos em vários locais. Talvez o exemplo mais famoso tenha sido o do Rio de Janeiro, onde Brizola atacava Sandra Cavalcanti e Miro Teixeira, balançando fotos e jornais, ultrapassando-os nas pesquisas e terminando por se eleger.

Posteriormente, em 1989, na primeira eleição para presidente, desde Jânio Quadros, em 1960, tivemos uma experiência bem rica. Ataques, críticas, lágrimas, valia de tudo para emocionar o eleitor e convencê-lo a votar. Porém, é interessante lembrar que o primeiro nas pesquisas, Fernando Collor, não foi aos debates do primeiro turno, o que, desde então, virou um dogma do marketing político.

Esta introdução é para situar o debate para a prefeitura de Manaus ocorrido no último dia oito de agosto. Creio que não dá para pensá-lo fora desse contexto histórico mais geral. Minha questão, inclusive, não passa por achar vencedores ou vencidos, mas em tentar entender qual o sentido de ainda haver tal tipo de evento.

Em primeiro lugar, muito se falou, na internet, que o atual prefeito, líder nas pesquisas, teria “perdido pontos” por faltar ao debate. Como falei antes, desde Collor, em 1989, em qualquer debate eleitoral, o primeiro colocado não vai aos encontros de primeiro turno.

Relembrando os debates de 1982, que acabei de citar, Sandra e Miro, no Rio de Janeiro, eram os líderes, quando sofreram os ataques duros de Brizola. Se firmou, então, uma jurisprudência no marketing político de que o líder será atacado por todos, friamente, e que é melhor não ir do que sofrer com disparos por todos os lados.

No cálculo frio dos pesquisadores e marqueteiros, faltar é a melhor opção. A ausência do atual prefeito, assim, não pode ser considerada inusitada ou grave, pois é algo que há cerca de 35 anos todos os líderes fazem pelo Brasil.

Outro ponto a ser debatido é a tal “falta de projetos” que foi tão notada. Creio ser necessário pensarmos que as regras acabaram, pouco a pouco, ficando mais complexas. Pergunta, resposta, réplica e tréplica é um sistema confuso, no qual o próprio apresentador (teoricamente experiente) comeu “mosca” e deixou passar um tempo. Além disso, respostas em cerca de 1 minuto acabam sendo genéricas e redundantes, inevitavelmente. O formato não favorece, temos de admitir, explanações elaboradas.

Talvez uma solução para isso fosse o candidato remeter, ao final de sua fala, para suas redes sociais, onde os dados mais detalhados de cada ideia estariam expostos e apresentados didaticamente. Ele falaria seu site ou instagram, dizendo que o resto de seus projetos estaria lá, de forma que o eleitor interessado pudesse pesquisar por conta própria.

Por último, ouvi falarem que os candidatos “dizem o que querem”, sem responder objetivamente. Enfim, eles sabem que só possuem cerca de 1 minuto. O adversário faz perguntas maliciosas e longas. Contudo, durante seu treinamento, o candidato aprende que é preciso falar o que ele deseja, expor suas ideias e não ligar para o que os outros falam.

Não adianta ficar respondendo diretamente ao outro. Lembrar que debate político não é sabatina de colégio. É, acima de tudo, uma apresentação midiática, um ritual (nos termos antropológicos) e um evento teatralizado. O importante é deixar uma boa imagem, ter cenas marcantes para as redes sociais e impactar o eleitor com posicionamentos empáticos e simbólicos. Quem tem de responder ao professor é aluno. Candidato fala o que quer.

Enfim, qual o sentido, então, dos debates atuais? Alguns não vão e acabam vencendo. Outros, falam o que querem, sem nem ouvir ao que foi indagado. E os projetos mal são mencionados, seja por falta de tempo ou pelas regras complicadas.

Penso que, apesar de tais limitações, ainda há espaço para esse tipo de ritual midiático e político. É um momento no qual o eleitor pode ver e ouvir o seu preferido, ou o seu rejeitado, ao vivo, sem edições ou cortes. O candidato está ali interagindo com outros, tendo de mostrar raciocínio rápido e conhecimento de gestão, economia e urbanismo, entre outros saberes necessários.

Entretanto, ficar apenas no esquema pergunta x resposta está cada vez mais limitado. Como falei, é preciso que eles remetam às redes sociais, explorem mais seus programas, falem mais da realidade da cidade, tenham mais tempo e demonstrem mais conhecimento da linguagem da comunicação.

Reformulado, revitalizado e redesignado, o “velho” debate ainda pode “dar um caldo”. Do jeito que está, as críticas serão sempre maiores do que os elogios e o que os candidatos poderão tirar deles será pouco mais do que imagens para o instagram ou o Facebook.

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