Ao mesmo tempo em cobra ajuda financeira internacional para auxiliar o Brasil a “enfrentar o desafio de melhorar a vida dos mais de 23 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia“, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) esquece que, desde 2019 o governo federal despreza as verbas do Fundo Amazônia, mecanismo bancado pelos governos da Noruega e da Alemanha para o financiamento de projetos de proteção da região.
Durante seu discurso na Cúpula de Líderes sobre a Questão Climática, na manhã desta quinta-feira (22), o chefe do governo brasileiro defendeu a solução do “paradoxo amazônico”, ou seja, o gigantesco abismo entre a grande riqueza natural da região e os baixíssimos Índices de Desenvolvimento de seus habitantes, como “condição essencial para o desenvolvimento sustentável da região”.
Para isso, Bolsonaro pediu ajuda de países, empresas, entidades e pessoas, como forma de aprimorar a governança da terra e tornar realidade a bioeconomia, “valorizando efetivamente a floresta e a biodiversidade”.
“Diante da magnitude dos obstáculos, inclusive financeiros, é fundamental poder contar com a contribuição de países, empresas, entidades e pessoas dispostas a atuar de maneira imediata, real e construtiva na solução desses problemas. Neste ano, a comunidade internacional terá oportunidade singular de cooperar com a construção de nosso futuro comum”, disse o presidente brasileiro.
Fundo Amazônia: R$ 3,1 bilhões em 10 anos
O que Bolsonaro se esquece, no entanto, é que esta ajuda não só já existia como foi desprezada pela sua gestão.
Após contribuir com quase R$ 3,1 bilhões entre 2008 e 2018, a Noruega, maior financiadora do Fundo Amazônia, suspendeu em 2019 os repasses de verbas, após uma série de mudanças unilaterais promovidas na gestão do Ministério do Meio Ambiente, como a extinção de comitês.
Em seguida, a Alemanha, que no mesmo período contribuiu com R$ 200 milhões, também anunciou a suspensão dos recursos destinados a programas de financiamento paralelos, por causa do aumento do desmatamento e das queimadas no Brasil.
Na época, os valores suspensos pelos dois países somaram o montante de € 35 milhões (cerca de R$ 227 milhões).
“O Brasil não precisa”
A condição dada, tanto pela Noruega como pela Alemanha, para a retomada dos repasses era a redução dos desmatamentos ilegais e queimadas na Amazônia. Mas, ao invés de promover esforços nesse sentido, Bolsonaro preferiu debochar dos antigos parceiros.
“A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha”, disse Bolsonaro em 2019, após o anúncio da suspensão dos repasses feitos pelo governo norueguês.
O mesmo tom foi adotado após a Alemanha também cancelar o envio do dinheiro. “Ela [Alemanha] não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar a prestações a Amazônia. Pode fazer bom uso dessa grana. O Brasil não precisa disso”, debochou o presidente brasileiro.
Noruega não descarta retomada, mas cobra ações
Em entrevista à agência de notícias Reuters no último dia 14 de abril, o ministro do Meio Ambiente da Noruega, Sveinung Rotevatn, afirmou que o país só ira retomar os repasses caso o governo brasileiro implementar, de fato esforços reais no sentido de reduzir o desmatamento da Floresta Amazônica.
“As condições para a reabertura e a disponibilização destes fundos é a diminuição substancial do desmatamento e um acordo sobre a estrutura de governança do Fundo Amazônia”, afirmou Rotevatn.
Reportagem: Lucas Raposo
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