quarta-feira, 23 de setembro de 2026
FIM DA DESIGUALDADE

Especialistas apontam saídas para problema da insegurança alimentar

Situação de insegurança alimentar no Estado tem diminuído, mas números ainda preocupam.
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A insegurança alimentar que atinge 42% dos domicílios amazonenses, afetando em graus variados uma população de 2,2 milhões de habitantes do Estado, tem razões estruturais do País e só vai ser superada quando houver melhor distribuição de renda e acesso dessa população a políticas públicas consistentes.

A avaliação foi feita por especialistas ouvidos pelo RealTime1, após a divulgação da pesquisa de Segurança Alimentar realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrando que a situação de insegurança alimentar no Estado tem diminuído, mas ainda o coloca entre os piores do ranking do País.

O chefe do setor de Disseminação da Informação do IBGE, Luan da Silva Rezende, explica que com os 42% dos domicílios com algum grau de insegurança alimentar, o Amazonas é o estado da região norte com a segunda maior prevalência desta condição. Mas quando o critérios é de insegurança moderada ou grave, o estado possui 17% dos domicílios nesta condição, número muito alto na avaliação dele.

“Embora os números tenham melhorado em relação à outras pesquisas realizadas anteriormente, o Amazonas não evoluiu a ponto de sair das posições mais incomodas quanto à insegurança alimentar de sua população. Com isso, o Estado encontra-se inferiorizado quando comparamos os indicadores com outras unidades da federação”, diz Rezende.

O cientista político Helso do Carmo Ribeiro lembra que o problema da fome – o grau máximo da insegurança alimentar – é uma mazela antiga do País e está bem documentada por pesquisadores como o médico Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome”, publicado há mais de 60 anos.

“Por conta desse livro, ele foi perseguido pela ditadura, exilado, mas hoje é uma referência mundial. A origem [da fome] está na grande desigualdade nacional. Se você for em qualquer estado, os supermercados estão cheios. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimento, mas o que é cruel é a desigualdade que leva muitas pessoas a fique relegadas a serem cidadãos de quinta cateogira“, disse

Para Helso, a solução passa pela adoção de uma política de valorização do trabalho que eleve o nível da renda e tire essas pessoas do subemprego e as livre da subalimentação.

A grande desigualdade gera essa insegurança alimentar. No entanto, há ainda uma parcela da cultura envolvida nessa insegurança, pois há pessoas com condições de ter uma alimentação mais saudável, mas culturalmente estão acostumados a comer um “feijão com arroz”, pois não inserem frutas, legumes e variações de alimentos. Mas a parte significativa não tem mesmo condições de comer três vezes ao dia“, analisou.

Insegurança maior na zona rural

O professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas, Luiz Antônio Souza, destaca que tem acompanhado os dados divulgados pelo IBGE e outras órgãos de pesquisa sobre insegurança alimentar e rendimentos e lhe chamou atenção o fato da “fome” predominar no meio rural.

Se a gente der uma volta no cinturão verde de Manaus, por exemplo, vamos descobrir que a fome tem cor e gênero. Quem passa fome são as mulheres e os negros. Isso está bem claro nos números e essas pessoas, no popular, precisam vender o almoço para comer a janta“, comparou o professor.

Para ele a origem do problema está no baixo investimento público em projetos e ações geradoras de emprego, trabalho e renda, e no caso dessa população que vive na zona rural o que pega é a falta de documentos de posse do terreno e acesso ao crédito rural.

Luiz Antônio cita como exemplo de solução um projeto desenvolvido na Ufam por ele e o professor Clóvis Pereira que promoverá assistência técnica e extensão rural para 300 mulheres da zona rural de Maués, Barreirinha, Boa Vista do Ramos e Nhamundá.

Primeiro nós ouvimos essas mulheres, não chegamos com um programa pronto. A partir da resposta estamos dando assistência a partir de um financiamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). A medida que se desenvolverem, elas vão ter acesso aos programas de fomento, que dão R$ 4,5 mil, para produzir o próprio alimento e eventualmente comercializar o excedente comercializar“, contou.

Para o professor, experiência como essas com mulheres trabalhadoras rurais precisa ser disseminada pelo Amazonas, onde na zona rural há uma espantosa baixa condição alimentar em função de documentos.

No cinturão verde de Manaus, aqui pertinho, os proprietários não têm documentos. Quando tem algum tipo de documento passa a ter condições de acessar o Pronaf Agrário, que dá R$ 25 mil, mas ai é preciso assistência e extensão rural, mas ai o órgão de extensão do Estado, o Idam, não têm condições de fazer este serviço por conta de questões orçamentárais. É difícil“, analisa Luiz Antônio

Riquezas do Estado a serviço da população mais vulnerável

Para o cientista político Carlos Santiago, a saída para esse quadro envolve os governos Estadual e Federal, que precisam adotar políticas públicas que transformem os tributos arrecadados com extração de gás natural, petróleo, a bioindústria e agora o potássio de Autazes em desenvolvimento econômico capaz de combater a pobreza, a miséria e a fome

“Com os recursos dos tributos é possível a criação de políticas públicas estratégicas para combater esse problema gravíssimo, mas envolve planejamento de longo prazo, estabelecimento de metas. As nossas riquezas naturais precisam contribuir para o crescimento econômico do Estado levando em consideração as pessoas mais vulneráveis”, defende Santiago.

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