quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Diário de uma eleição municipal

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Muitos candidatos se lançaram à prefeitura de Manaus. Desde o ano passado, mais de onze nomes orbitam em torno desse cargo. Só o PT vinha com quatro nomes em plena disputa. O PL, para não ficar atrás, também possuía, no mínimo, três postulantes. Se ampliarmos para o espectro direita x esquerda, o número de candidaturas era maior ainda, em cada bloco.
Porém, já em abril , vemos que elas estão se afunilando, muitas deixaram de existir e outras morreram em pleno nascedouro. Por que isso ocorre?
A questão é que há vários interesses em jogo numa eleição. Nem sempre aqueles que dizem querer ser prefeito realmente desejam isso. Uns querem, na verdade, ser vereadores. Outros, apenas se projetar e ganhar espaço na mídia, visando futuros pleitos, mais adiante. Para quem quer virar deputado estadual, dizer que é candidato a prefeito por meses é um bom negócio. A mídia o convida para entrevistas, abre espaços antes fechados e ele passa a ser uma semi celebridade do universo político local.
Até debate para pré-candidato já inventaram este ano. Na prática, é apenas mais um espaço para quem deseja aparecer e ser comentado e visto pelo público em geral. Outro aspecto importante é considerar os patrocinadores. Toda candidatura possui financiadores e apoiadores, ocultos ou não, que são os pilares daquela campanha. Se eles não sentem firmeza na candidatura, certamente ela naufraga antes de sair do porto.
É preciso destacar, também, o papel das pesquisas. Mesmo contestadas, elas acabam sendo, por pior que sejam, servindo como referencial. E estou falando das divulgadas, sem sequer citar as internas. Muitas vezes, vemos que uma candidatura murcha ou nem consegue adquirir musculatura, de tal forma que aquele nome vai aos poucos sumindo até desaparecer do noticiário. Provavelmente, por pesquisas divulgadas ou internas, os financiadores não sentiram que aquele nome tinha chances reais de vitória. Preferiram, então, jogar o candidato na água e partir para outra opção.
Em Manaus, estamos chegando no momento da filtragem, da depuração de nomes. Aqueles que estavam apenas buscando espaço já começaram a desaparecer no horizonte. Estão ficando os nomes que realmente planejam disputar, mesmo sabendo das reduzidas chances de vitória.
Nem todos esses remanescentes irão ter um desempenho satisfatório e eles sabem disso. Contudo, serão cerca de 180 dias de exposição na mídia e seus nomes aparecerão diariamente nas redes sociais, o que pode garantir um bom ponto de partida para futuros projetos políticos.
Talvez o mais intrigante do cenário manauara esteja na posição do PT. A investida da Executiva Nacional foi inédita, deixando os membros estaduais, que já vinham em conflito, desnorteados. A imposição de um candidato alienígena ao partido, mesmo sendo alguém já conhecido, mexeu com egos partidários e ambições que já afloravam claramente. O próprio nome que caiu no partido movimentou o cenário e, ao seu estilo falante, já provocou adversários da direita e movimentou uma eleição que ameaçava cair numa polarização muito precoce.
A partir de agora, que o PL também resolveu suas rusgas, o prefeito abriu o jogo da reeleição e os outros jogadores também assumiram suas pretensões, partimos para outro momento. Agora, é hora de pensar (e o eleitor também refletir sobre isso) no orçamento de quase 9 bilhões de reais, no desemprego, nos serviços públicos da cidade e nas opções que irão apresentar à população para resolver os dilemas municipais. É hora, passada a fase das famigeradas pré-candidaturas (que parecem já ter virado um cargo em si…), de vislumbrarmos as saídas para o impasse da mobilidade urbana, para a eterna questão dos buracos do município e começarmos a entender o que farão dentro do orçamento real existente.
Muitas promessas ainda virão, mas é hora, nessa seleção natural das candidaturas, que o eleitor fique atento e comece a ver, dentro das que restaram, quais as que realmente propõem soluções reais e quais as que apenas reclamam de tudo e prometem um paraíso em vida.
Que não vejamos, de novo, apenas frases soltas sobre filas na saúde ou queixas acerca das escolas “sucateadas”. E que o debate nacional, repetitivo e inócuo, não contamine o cenário local. os problemas nacionais possuem seu espaço. Nosso trânsito e nossos buracos não são de esquerda ou direita. Eles são nossos, frutos de nossa história e o palavreado ideológico não conseguirá resolvê-los por si mesmos.

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