quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Atenção: E foi dada a largada

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Começou a época da política em Manaus. As pré-candidaturas invadiram a mídia e já agitam o noticiário. Até debate de pré-candidatos já está sendo anunciado. Os pretendentes saíram das tocas e dão entrevistas, falam mal uns dos outros e buscam apoios onde podem.

É a hora na qual as pesquisas pululam. Os números parecem indicar os rumos das candidaturas, das filiações na oportuna “janela partidária” e das possíveis alianças.

Contudo, e este é meu ponto, ainda sinto um vazio, uma ausência, em tais entrevistas e pronunciamentos. Só olho os “pré” buscando se marcar como candidatos da esquerda, da direita, do Lula, do Bolsonaro ou do governador. Buscam criar uma imagem genérica e sobre ela armar uma candidatura. Tentam se posicionar, explorando a polarização radical que o país atravessa, nesses conflitos supostamente ideológicos.

Entendo que esta fase, do lançamento de possíveis candidaturas, é um momento no qual os pretendentes querem se inserir no debate maior, no cenário nacional. A polarização Lula x Bolsonaro é o que domina grande parte do horizonte político atual e seria inevitável que nossos “pré” buscassem se localizar dentro dela.

Todavia, o vazio permanece. Mas e qual vazio, podem me perguntar? Manaus. Assim como em 2020, ninguém fala de Manaus. Não vejo ideias sobre a cidade. Enxergo e ouço somente discursos repetitivos e enfadonhos sobre apoios, partidos e padrinhos. Não há uma palavra sobre a cidade, seus dilemas e possibilidades. No máximo, algumas críticas ao atual prefeito, geralmente vindas de pessoas que ficaram quase 4 anos sem falar sobre o cotidiano da capital, mas agora surgem disparando ataques.

Mesmo que o momento seja de um posicionamento mais geral, como defenderiam os marqueteiros de plantão, a ausência, o não-dito permanece. Ser de direita ou de esquerda não é algo que exista no abstrato. Ele só faz sentido, quando inserido em um contexto social e econômico. Se dizer de esquerda e que “está com Lula” ou que é de direita e “é o nome do Bolsonaro”, pouco importa para quem vive Manaus, pega ônibus diariamente ou possui um pequeno comércio em um bairro e é frequentemente assaltado.

Ou seja, primeiramente, precisamos saber o que significa ser “esquerda ou direita” para Manaus. Ser de direita quer dizer que irá reduzir impostos? Vai baixar o IPTU? O ISS municipal vai ser reduzido? As multas municipais serão diminuídas? O governo vai ser enxugado? Quantos serão exonerados? Qual a receita que virá de tais demissões? O que quer dizer governo de Deus, pátria e família? Só quem tem família terá direito a bolsas e auxílios?

E ser de esquerda? Quais novas bolsas e auxílios virão? O comunismo será uma meta? De que forma chegaremos nele, em Manaus? Como será reduzida a desigualdade? Como a renda dos trabalhadores será elevada e colocada em patamares mais igualitários aos dos patrões? Impostos serão aumentados? Só para os ricos? O que é ser rico em Manaus, hoje?

Vivemos em uma cidade com elevadas taxas de habitações subnormais (palafitas e favelas), alto déficit habitacional, sem falar dos números absurdos de pessoas em situação de pobreza e com insegurança alimentar grave. O desemprego é maior do que a média nacional. E o que direita e esquerda falam sobre isso? A culpa é do comunismo, do capitalismo ou do assistencialismo? Enfim, quem é o culpado? E qual é a solução?

Sem enfrentarmos de forma realista, com números e orçamento, impasses como o da mobilidade urbana ou da geração de empregos, teremos, apenas, os mesmos discursos de sempre: “faço parte de uma aliança”, “não sou candidato de mim mesmo, mas de um grupo”, “serei a voz do presidente” ou “eu sou o candidato que vai unir a direita”.

Em suma, ser o nome do presidente, do ex-presidente ou do governador pouco fala ao povo trabalhador. As pessoas querem soluções para os problemas urbanos. E que os candidatos não venham com monotrilhos, expressos, VLTs, BRTs ou metrôs, como em toda eleição. São apenas invenções que os marqueteiros criam para serem repetidas por seus contratantes. É hora de debater Manaus e propor saídas reais para seus impasses ou teremos mais 4 anos do mesmo (nas suas mais variadas faces).

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