quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crônica de uma cidade anunciada. Parte II

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Há algumas semanas, escrevi aqui, neste portal, sobre o Tribunal de Contas do Estado, a passarela e o policiamento que para o trânsito para as autoridades saírem, sem serem incomodadas. Tentei comentar como todas as sociedades possuem relações de poder ocultas que superam a funcionalidade e a objetividade das obras e do concreto dos viadutos e passarelas.

Nessa mesma linha, quero comentar um segundo episódio. Assim como a série Rambo ou Alien, sugiro uma parte II sobre nossa cidade, seus dramas, impasses e hierarquias, mas que, tranquilamente, pode se espalhar para várias outras dos mais diferentes países e continentes.

Semana passada, fui passear em um badalado shopping de Manaus. Flanando despretensiosamente por seus corredores, deparei com uma homenagem ao dia da mulher. Uma série de fotos homenageando “personalidades” femininas da cidade. Além das fotos, o shopping também arrecadou produtos de higiene e roupas para mulheres vítimas de violência, atendidas pelo instituto As Manas.

O lado da arrecadação de produtos a serem distribuídos posteriormente é válido, pois há muitas mulheres necessitadas que possuem poucos recursos e são vítimas de violência. É uma promoção comum nessas datas, quando grandes empresas “arrecadam” donativos para pessoas carentes. Tudo bem.

Minha reflexão veio sobre as fotos. Algo me incomodou ao vê-las. Percorri os diferentes stands, buscando ver a fonte de minha perturbação. E era claro meu incômodo: só mulheres “deslumbrantes”, com joias, ricas e poderosas. Todas das melhores famílias da cidade. O sucesso delas e de suas famílias exalava de cada foto. Tenho de reconhecer que o fotógrafo conseguiu capturar toda a riqueza e poderio dessas pessoas por suas lentes.

Alguém poderia me contestar, dizendo que as fotos fazem parte da exposição particular de um determinado fotógrafo. O shopping apenas estaria expondo o produto desse trabalho “artístico”. Contudo, no momento em que uma empresa publiciza e institucionaliza esse trabalho, que seria privado, ela usa seus produtos como uma imagem do que quer passar dela para sua clientela.

E o que eu senti, enquanto cliente? Senti falta. O que as fotos me passaram foi uma sensação de ausência. Elas valiam mais pelo que não diziam do que pelo que mostravam. Elas não mostravam mulheres pobres, batalhadoras e assalariadas. Não mostravam mulheres que pegam 2 ou 3 ônibus diariamente, que possuem dupla ou tripla jornada e que ainda correm o risco de serem assaltadas ou estupradas nas paradas ou nos terminais.

Não vi, com todo o respeito às mulheres ali retratadas e que merecem todos nossos elogios, professoras de escolas públicas, enfermeiras, auxiliares de serviços gerais, merendeiras, policiais militares, enfim, não vi mulheres do povo. Sim, algumas das retratadas são lutadoras, vieram de baixo e lutaram, mas as fotos, com todos os anéis, colares e pulseiras de ouro, não passavam isso. Eram simplesmente o retrato da riqueza, como gostam de falar os jovens nas redes sociais.

Homenagear a mulher é celebrar as ricas e poderosas da cidade, sim. Porém, é, também, creio, falar das mulheres invisíveis, daquelas que ninguém, nas suas exposições artísticas acha adequado mencionar. É falar das mulheres que possuem lanches nos bairros, correndo o risco de serem assaltadas e violentadas diariamente, que têm vários filhos e moram em casas cedidas por parentes e buscam, por seu sofrido trabalho, uma melhor condição para sua família.

Num estado em que mais de 80% das famílias que recebem o bolsa família são chefiadas por mulheres, para dar o exemplo mais simples, é preciso ir além de tais homenagens. É necessário tirar da invisibilidade tais mulheres trabalhadoras, mostrar seu cotidiano e seus esforços para superar todas as barreiras que enfrentam. Por que não lhes dar exposições de fotos e imagens em espaços públicos ditos elegantes?!

Sem romantizar a pobreza ou rejeitar a riqueza, simplismos que busco afastar de mim, penso ser válido que ultrapassemos essa época dos heróis e heroínas. Que tal resgatar as mulheres, e homens, ocultos por essa história dos vencedores? Seria original e, talvez, mais representativo da cidade e de seus habitantes, cuja maioria, que é composta de mulheres, vive em moradias subnormais e está abaixo da linha internacional da pobreza, falar desses batalhadores ocultos e de suas façanhas cotidianas.

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