Começa a campanha eleitoral, ou a pré-campanha, e iniciam as pesquisas. Chovem números, margens de erro, índices de confiabilidade e projeções de especialistas. É todo um universo que se abre ao cidadão, que passa a segui-las como a uma corrida de cavalos em um jockey club.
Porém, alguns pontos poderiam ficar mais claros. É para conversar sobre isso que estou aqui. Em primeiro lugar, os relatórios. Os que já vi sendo divulgados, com raras exceções, são primários. Apenas lançam números secos, sem qualquer tipo de explicação. Especialmente aquelas que divulgaram pesquisa recentes aqui, em Manaus, mostraram relatórios muito ingênuos. Quase que um rascunho de relatório.
Entendo que pode haver 2 relatórios: um feito para a imprensa, resumido, e outro para o cliente, mais extenso. Contudo, o resumido deve trazer alguns cruzamentos. Apresentar com nitidez os índices, mostrando sua variação na margem de erro e, acima de tudo, expor a metodologia com clareza e objetividade. Não pode ser simplista na metodologia. O leitor deve saber tudo que houve no processo de pesquisa.
Outro item a ser melhor discutido é o questionário. Vi alguns registros de questionários no site do TSE. Como disse antes, parecem rascunhos. Sem espaços para o pesquisador marcar, sem os discos para os nomes dos candidatos e sem espaço para identificação do entrevistado, a fim de que se possa checar a veracidade do resultado.
Também noto a dificuldade de se manter uma lógica nas perguntas. O prefeito não lida com segurança. Agora, que está iniciando uma guarda municipal. Não adianta, por exemplo, virem com questões sobre segurança pública, se é para avaliar o desempenho dele. Questões sobre o peso de um apoio só são válidas, caso haja cruzamentos com outras perguntas. Se não houver, ficam soltas, meramente ilustrativas e pouco operacionais.
E há perguntas que devem ter respostas múltiplas, como a de rejeição. Afinal, podemos rejeitar várias pessoas. Outras, devem ser de resposta única, como em quem você vai votar. Isso precisa ficar claro para o leitor e os relatórios devem ser o local onde tais explicações apareceriam. E nem estou falando das exigências legais, que vejo poucos cumprirem, quanto aos itens a serem apresentados no registro, especialmente na metodologia.
É necessário também discutir os resultados. Sem entrar em detalhes ou na pesquisa A ou B, creio haver pontos a serem debatidos. Quando a pesquisa A diz que o nome X possui 25% e, pouco depois, a pesquisa B fala que ele está com 33%, isso é muito sério. Antes, o X tinha ¼ das intenções de voto. Agora, possui 1/3. Ou seja, há algumas semanas, a cada 4 eleitores, 1 votava em X. Agora, a cada 3 eleitores, 1 vota em X. Por quê?
É preciso que as empresas expliquem esses fenômenos. Se não quiserem falar de pesquisas de outras empresas, que detalhem bem seus relatórios. Mostrem em qual camada econômica, etária ou de escolaridade o X se dá melhor e em qual ele vai mal. Isso ajudaria o eleitor a entender a pesquisa e confiar mais nela. O resultado é um instantâneo de uma situação que ocorre na sociedade. Tanto um crescimento, quanto uma queda, devem ter razões lógicas. Se o leitor não visualiza a coerência desses movimentos, a pesquisa acaba sendo questionada.
O mesmo com a rejeição. Por que alguém é rejeitado? Por que o X é rejeitado em uma pesquisa por 40% e na outra aparece líder e com uma rejeição de 20%? São coisas que os relatórios, se não podem explicar na integralidade, podem, pelo menos, esclarecer para o leitor que consome tais enquetes.
Enfim, são algumas reflexões sobre as pesquisas que vemos por aí. E nem entrei nos custos declarados. Como algumas pesquisas são feitas com valores irrisórios, quando se sabe do custo de contratar pessoal, treinar e colocar em campo?! E os softwares? Os mais modernos são caríssimos, quase inacessíveis. E a logística? Colocar 30 pessoas em campo, numa cidade como Manaus, é uma tarefa árdua e cara. Como poderiam ter sido feitas pelos valores declarados nos registros?
Em suma, as pesquisas ainda levantam mais dúvidas e questões do que certeza ou confiança. Creio que ainda há muito a ser melhorado e detalhado nos registros que vemos e nos relatórios que lemos. Enfim, são reflexões cujo único objetivo é melhorar esse serviço, tão sério e valoroso.
As pesquisas e seus resultados. Como melhorar?
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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
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