quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Quem tem medo do mundo novo?

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Pesquisa feita em dezembro, por uma empresa especializada em RH, em sete países da América Latina, sobre a Inteligência Artificial detectou alguns sentimentos, no mínimo, curiosos.

No Brasil, 76,6% disseram que temem perder seus empregos em curto prazo para uma IA. Foi o país com o maior índice de temerosos. Os outros países ficaram na média de 60% nessa questão.

Por outro lado, na média, apenas 3% disseram que nada mudará na vida com a IA. E somente 3,4% disseram não saber o que irá acontecer.

Ao ler isso, fiz a relação com um programa de viagens que vi no final de semana. Era um programa, em um streaming, que falava de turismo no Japão. O repórter vai em uma feira de tecnologia. Nela, ele avista uma mulher vestida com roupas típicas, cercada por crianças e respondendo a elas.

O guia local do repórter, que era brasileiro, explica que é uma androide e que as crianças sabem disso, mas a estariam testando para ver aonde ela iria nas respostas.

Após ver a androide por um tempo, nota-se nitidamente não ser uma humana (pelo menos, como até hoje a entendemos). Porém, já não era um robô simples, daqueles de brinquedo dos anos 70. Já havia uma semelhança inegável com os humanos tradicionais, inclusive no jeito de falar.

Minha dúvida, depois de ver tal programa, não é se seremos capazes de criar modelos iguais aos humanos, mas quando. Eu estava vendo uma carroça, um veículo similar àqueles que na antiguidade a humanidade usava para transportar alimentos ou pessoas. Hoje, pensamos em Ferraris ou Porshces, quando imaginamos um veículo avançado. Se não houver mudanças no rumo que a humanidade vem adotando na sua relação com a tecnologia, certamente que esses robôs/carroças acabarão virando Ferraris.

O problema é quando. Em dez anos? Vinte? Ou duzentos? Da antiguidade aos dias de hoje, foram mais de 2 mil anos para que uma simples carroça virasse uma Lotus ou um Lamborghini. Será que iremos levar mais 2 milênios para criarmos androides semelhantes aos humanos atuais (ou aos humanos daqui a 2 mil anos)?! Ou em uns 20 anos já cruzaremos com androides no shopping ou na academia? Daremos bom dia e comentaremos sobre o tempo e o futebol com eles, tranquilamente? Sabendo, ou não, se tratarem de androides, diga-se de passagem.

Isso tudo, para relacionarmos esse fato com a pesquisa mencionada antes. Esse medo parece real. Essas pessoas não estão em dúvida, se perderão o emprego. Elas só querem saber quando isso ocorrerá.

O Polo Industrial é um bom exemplo. Apesar de todo o incremento do faturamento e a produtividade crescente, o nível de empregos diretos permanece na faixa dos 100 mil. Obviamente, o estado e a cidade ganham muito com esse crescimento da renda gerada no PIM, contudo, o sonho tradicional do “emprego de carteira assinada no distrito” está cada vez mais distante e por razões bem concretas e inevitáveis.

Como conciliar empregabilidade e ocupação com desenvolvimento científico elevado? Eis a questão do presente, não mais do futuro. Inúmeras publicações analisam quais seriam as profissões do futuro (cuidador de idoso, passeador de cães, antropólogos etc). Todavia, o problema não é esse. O ponto é vermos quem vai pagar impostos, quem vai gerar renda, quem irá consumir os produtos feitos por essa indústria 5.0, 6. 0….Ou os androides pagarão impostos também?!

Para fechar, destaco que só quis “levantar uma bola”: como conciliar progresso na ciência e harmonia na sociedade? Como manter as pessoas ocupadas, pagando impostos e consumindo mercadorias, se não houver mais empregos? Qual a mágica que os gestores do futuro (Musk, Gates etc) farão para agregar isso? É algo para se pensar… como viveremos sem empregos, nesse universo da IA e dos androides? Ou seremos dispensáveis, como no futuro da Skynet?!

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