Alguns dados sobre a relação religião (especialmente a evangélica), sociedade e política no brasil são curiosos. Vamos lá.
Segundo levantamento da imprensa e pesquisas financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, no ano de 2022, 21 novas igrejas evangélicas foram abertas por dia no Brasil.
Em 1990, o país possuía, aproximadamente,30 mil templos dessa religião (considerando todos seus segmentos) e 9% dos brasileiros declaravam seguir esse credo religioso.
Atualmente, são quase 179 mil igrejas evangélicas, segundo o registro de CNPJ (obrigação legal para sua abertura). Este número é relevante, pois, para efeito de comparação, temos “apenas” 138 mil escolas públicas no país, segundo o MEC.
Um terço dessas igrejas foi inaugurado nos últimos dez anos. Em estados como RJ e ES, onde há a maior concentração evangélica do Brasil, já existe uma igreja para cada 1.250 habitantes.
Além disso, nos anos 60, o IBGE registrava 90% de católicos no país. Atualmente, os católicos caíram para cerca de 51%. Estudos demográficos apontam que, até 2040, o Brasil será um país predominantemente evangélico.
Os estudiosos apontam que isso ocorreu na Europa, nos séculos XVI e XVII, quando a população protestante se igualou à católica. É o que denominam de “transição religiosa”, que só se estabilizou no século XVIII. Porém, aqui, ela está sendo feita em trinta anos, superando qualquer tipo de experiência histórica anterior global.
Outro ponto que mobilizou a opinião pública sobre essa relação religião x Estado foi o final de uma suposta “isenção” tributária na remuneração e pastores evangélicos. A Receita Federal detectou que haveria uma perda de mais de 230 milhões de reais com essa “isenção” e a anulou, jogando a responsabilidade no Ministério Público do Tribunal de Contas da União (MPTCU). Diga-se de passagem que a questão é tão polêmica que o TCU, o MPTCU e o Congresso não se entendem desde então, um jogando a batata quente no colo do outro.
Essa “isenção” teria iniciado em 2022, quando a Receita Federal teria liberado as Igrejas de recolher contribuições previdenciárias sobre as “prebendas”. Além disso, as Igrejas aproveitaram e questionaram o fato de serem cobradas pela Receita por dívidas previdenciárias anteriores. O atual comando da Receita, nomeado pelo PT (Haddad/Lula), questiona que foi irregular tal isenção, ocorrida no governo Bolsonaro, o que gerou protestos da bancada “evangélica”, pois, segundo ela, ainda haveria um processo no TCU e não poderia haver tal ato unilateral de retirada de tal benefício.
Por falar nela (a bancada), vamos refletir sobre seu tamanho. São 202 deputados e 26 senadores, segundo o site da Câmara dos Deputados. Como são 513 deputados federais, pode-se dizer que 40% dos parlamentares são dessa bancada. No Senado, como são 81 senadores, podemos afirmar que 32% deles fazem parte desse grupo. No Congresso, junção de senadores e deputados, eles totalizam 38% de nossos parlamentares. Ou seja, os projetos oficiais só andam, se eles quiserem, caso permaneçam unidos.
Este é, de fato, um impasse da política brasileira atual, sem dúvida. O catolicismo, nos seus tempos de predominância, tinha um caráter mais plástico e afastado de disputas diretas no parlamento. Influenciava, logicamente, nas decisões, como quando o jogo foi proibido no Brasil em 1946, mas sempre a distância, episódica, sem usar de ações ordenadas.
A própria teologia da Libertação, influente nos anos 80, foi mais uma formadora de opinião do que um movimento político eleitoral, com votos ou bancadas organizadas. Isso também pode se falar dos Carismáticos e sua relativa falta de atuação unificada sistemática. A própria plasticidade de nosso catolicismo, afeito ao sincretismo, especialmente com as religiões de matriz africana, o levava a manter esse caráter mais distante da arena política decisória.
Enfim, esta é um tentativa, na semana da luta contra a intolerância religiosa, de se refletir sobre os rumos religiosos e políticos do país. O que significa virarmos uma nação “evangélica”? Aonde isso nos levará? De que forma o Estado laico sobreviverá diante dessas novas bancadas religiosas? O que significará ser um “país cristão” nos próximos vinte anos? São temas que precisamos continuar investigando.