As eleições 2024 no Brasil serão usadas como um termômetro e um divisor de águas no uso de ferramentas da Inteligência Artificial (IA) nas campanhas políticas.
Esse ano, a Argentina saiu na frente, durante a campanha presidencial polarizada, com o uso de recursos da IA durante o período eleitoral.
Para a mestre em comunicação e especialista em Inteligência Artificial (IA), Laize Minelli, o país ainda está começando a compreender o verdadeiro impacto dessa tecnologia no processo eleitoral, pois o uso de IA ainda é progressivo e vai estar presente nas eleições 2024, sendo necessário assim uma equipe capacitada e uma legislação adequada para orientar sua aplicação no período eleitoral.
A especialista ressaltou, ainda, que com o crescente uso da tecnologia e visando as eleições 2024, a Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp) já informou que vai disponibilizar mecanismos para identificar quais publicações de campanha foram desenvolvidas usando IA.
“A gente espera que vários outros órgãos também façam. A IA, ela pode ser útil para resumir vários comentários de vários cidadãos e eleitores feitos durante reuniões públicas, consultas em gabinetes. O feedback pode ser classificado de acordo com vários critérios dentro de uma ferramenta de inteligência artificial e isso ajudaria os políticos a entenderem melhor as opiniões dos cidadãos e poderia ser combinado para criar novas políticas públicas, politicas de governo”, disse.
Laize Minelli defendeu também que o uso correto da Inteligência Artificial pode aproximar o eleitor do candidato e afirmou que as campanhas eleitorais vão sofrer mudanças significativas a partir disso.
“Acredito que as formas como as campanhas políticas são conduzidas vão sim sofrer bastante mudança. Vai ter muito mais análise de sentimento nas redes sociais, que vai ajudar a compreender como direcionar cada uma das mensagens para o problema. Basicamente, o que vamos melhorar é no processo de identificação, no processo de formulação dos projetos. Implementação de discursos e avaliação de dados em geral”, afirmou Minelli.
Justiça Eleitoral e Inteligência Artificial
No campo jurídico, responsável por fiscalizar e punir mal uso da IA no âmbito do direito eleitoral, a legislação brasileira atual apresenta lacunas significativas em relação à Inteligência Artificial, principalmente devido à novidade e complexidade do assunto.
Para o advogado e especialista em direito eleitoral, Sérgio Bringel, mesmo sendo novo, a IA não tem passado despercebido dos legisladores e nem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que tem se empenhado em compreender o impacto da tecnologia na sociedade.
“Penso que temos parâmetros interessantes no uso da IA sobretudo no âmbito da União Europeia, que é bastante avançada sobre o tema. O próprio Projeto de Lei 2.338/2023, do Senador Rodrigo Pacheco sobre a regulação da IA no geral é um ponto de partida interessante para iniciarmos as discussões do tema em matéria eleitoral. A questão que me parece tormentosa é o ritmo com que essas discussões avançam”, disse.
Bringel comentou que o processo legislativo não é dinâmico como a tecnologia e as eleições na Argentina, esse ano, foram um exemplo da emergência do tema.
“De fato, penso que o uso mais nocivo da IA nas campanhas eleitorais diz respeito à disseminação de informações falsas, seja pelo uso de algoritmos que personalizam conteúdos à determinados segmentos sociais, seja pelo uso dos “deep fakes”. Nesse aspecto, penso que a legislação atual seja razoavelmente suficiente no que diz respeito à punição de certas técnicas de desinformação. O que me preocupa é termos tecnologias de detecção e identificação dessas práticas. Nesse contexto é que precisamos avançar”, explicou Bringel.
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