quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Na política existem "programas" e "pessoas"

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

 A política se faz de uma curiosa mistura entre pessoas e ideias ou programas. O eleitor visualiza muito o candidato, o ser humano, quando faz suas escolhas. Não adianta ser socialista, capitalista ou anarquista, se a pessoa não inspira confiança ou seu passado é questionável. É inquestionável que a figura humana é um elemento central da vida política. E não adianta falar que isso “é só no Brasil”. Figuras como Peron, De Gaulle, Miterrand, Reagan, Fidel, Thatcher ou Walesa possuíam seguidores fiéis e inspiravam confiança e admiração, mesmo que suas ideias não fossem totalmente coerentes ou geniais.

 Isso se vê, em “nosso jardim”, diria Voltaire, em seu fecho de “Cândido ou o otimismo”, quando os pré-candidatos começam a contratar marqueteiros, a falar grosso em entrevistas ou abraçar as criancinhas em inaugurações. Começam, assim, a pensar em suas imagens. Querem passar o conceito de que são honestos, sinceros, firmes, trabalhadores e idealistas, entre outros valores possíveis. Uns buscando enfatizar um desses temas. Outros, acentuando pontos distintos.

 É a hora em que as pesquisas começam a fervilhar. Os pretensos candidatos querem saber qual o mais conhecido, o mais amado e o mais rejeitado.  E isso é muito justo, pois são dados que servem de base para se montar uma campanha realmente vencedora e competitiva. De que adianta ser popular apenas dentro de casa ou na sua empresa, se mais de 90% da população não o reconhece?! Como ser competitivo, se quase ¾ dos eleitores o rejeitam e o acham um incompetente ou um “ladrão”?!

 Daqui até junho, época das convenções, veremos muitos desses nomes que pululam na mídia buscando se posicionar, mostrar honestidade, criatividade e proximidade do povo. Vão inundar as redes sociais de fotos com familiares, em reuniões nas Igrejas e em caminhadas pelos bairros mais pobres da cidade. É uma tentativa, repito, justa, de construir uma imagem pessoal positiva junto ao eleitorado, elemento essencial para uma possível vitória.

Todavia, há outro ponto que, às vezes, é diminuído e, intencionalmente, esquecido: os planos de governo. Ser uma boa pessoa é uma garantia de que irá para o céu. Porém, apenas boas intenções não gerenciam um município.

É preciso que o candidato, com toda sua honestidade e generosidade, também possua ideias. Os planos de governo servem para mostrar ao eleitor e à própria máquina pública que há direcionamentos, estudos e projeções para o dia seguinte, após a eleição.

 Não podemos esquecer que Manaus, pensando em “nosso jardim” (Voltaire, novamente), está com problemas de arrecadação, assim como o estado. O prefeito atual depende, segundo ele próprio, de um empréstimo para financiar a merenda escolar e as obras de estrutura, daí, ele querer que a população cobre dos vereadores, “caso falte merenda nas escolas ou remédios nas UBS”.

 Em tais momentos, como foi em 2015, é preciso prudência e sabedoria do eleitor, para destilar o que é uma simples invenção eleitoreira, do tempo da política – promessas assistenciais ou bravatas intempestivas – daquilo que realmente faça sentido. Os planos precisam estar ajustados à realidade orçamentária. É preciso ver o quanto cada projeto novo irá custar e de onde virá o recurso.

Esse ajuste entre a pessoa e as ideias é necessário. Os programas de governo de outras eleições estão disponíveis na internet. É só procurar. Por força da profissão (eu gosto também…) li todos os disponíveis para o governo do estado nas últimas três eleições. Inclusive, já escrevi artigos para a mídia, comparando-os. Uma coisa que posso afirmar é que são genéricos e, na maior parte das vezes, sem sentido. Repetem afirmações, como “vamos diminuir a fila de exames” ou “vamos valorizar o servidor público”, sem explicar o que é isso. Falam em construir maternidades, escolas ou batalhões policiais sem um valor, sem uma projeção de custos. Nenhum deles citava o orçamento do ano da eleição ou mencionava as projeções da economia.

Em 2024, cuja eleição é municipal, já estou me preparando para ler os planos para Manaus. Tanto os atuais, como alguns anteriores. Já estou me preparando para propostas assistencialistas exageradas, sem recursos estimados, ou soluções de mobilidade pública inspiradas no desenho dos Jetsons, da Hanna-Barbera.

Tudo isso para falar que espero (do fundo do coração) que os planos de governo, nesse ano vindouro, tenham alguma dose de realidade e possam, de fato, espelhar o orçamento e a verdade financeira do município. Os projetos assistenciais podem existir, contanto que se mostre de onde virão os recursos e quanto será gasto. Os programas de mobilidade (e temos exemplos, como o Expresso, o Nova Veneza, o BRT e o Monotrilho) devem ser realistas e exequíveis, sem pirotecnias digitais.

Unir a pessoa, com toda carga de empatia e sensibilidade que a figura de um governante exige, com o realismo e a profundidade que um projeto deve ter é algo complexo. Contudo, nessa junção, talvez, resida o segredo da eleição, ou, pelo menos, de uma boa candidatura. Aquela que, depois, o eleitor não lamente nem se arrependa. Pelo contrário, se orgulhe e saiba o que vai cobrar, coisa difícil, com ideias genéricas e repetitivas, o famoso control c e control v de programas de governo….

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