quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Vamos falar de Manaus?

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Os editores de política da mídia amazonense vibraram semana passada. O prefeito David Almeida e o deputado estadual Roberto Cidade protagonizaram um duelo verbal não muito elevado, acirrando especulações eleitorais.

Por seu lado, o deputado federal Amon Mandel continuou suas ações ‘descoladas’, retirando lixo de igarapés e atraindo atenções da imprensa.

Nas redes sociais, já vi um portal dizer que houve um almoço de vereadores e deputados, em chique restaurante da Ponta Negra, para celebrar apoio ao deputado Cidade. No fim, o portal ainda completava, com sarcasmo, “será que o prefeito Davi perdeu sua base?”.

Tais especulações são interessantes, pois mostram como os partidos vão se articulando para o ano eleitoral. Contudo, há algo que me incomoda.

Talvez a notícia recente mais impactante sobre o prefeito atual foi sobre seu relacionamento íntimo com uma nova namorada, agora, noiva. Outros, falam da idade de um e dos contratos que outro possuiria com o governo…enfim, me incomoda é justamente o que não é dito.

Não se fala sobre Manaus. Não se fala sobre o que esses, e nenhum outro também, pensam sobre a cidade e seus problemas e desafios. O interesse da mídia é muito voltado para questões pessoais (namoros, idade e contratos). Contudo, o que tais pessoas pensam, já fizeram ou dizem que farão pelo município é algo que não se comenta.

Há um fascínio pelo termo “bastidores”, quando se fala de política, tanto na mídia nacional, quanto na local. O problema é que, aqui, em especial, a busca pelos bastidores é tão forte, que acaba deixando de lado o central: os planos de quem é candidato.

Para não parecer leviano, remeto às eleições de 2020.

Eu acompanhei atentamente os debates e a propaganda gratuita. Nunca vi ou ouvi alguma referência à gestão de então. Nunca percebi uma análise sobre a cidade real, ou seja, aquela que possui serviços públicos em andamento, que tem demandas e problemas diários. Houve um silêncio total e respeitoso sobre a gestão que se encerrava, como se a cidade estivesse sendo inaugurada do zero.

As propostas, em 2020, eram genéricas e abstratas. Ninguém debatia os programas em curso, falando de uma Manaus generalista, sem citar custos ou previsões orçamentárias.

Ora, se já há um orçamento e projetos em andamento, o próximo gestor não pode fazer disso tábula rasa e começar a educação ou a saúde do zero. Suas ações terão de partir dos recursos previstos e da estrutura já existente. Não dá para se fazer projetos no abstrato.

Isso se refletia nos debates, quando o tema central era a idade de Amazonino ou o temperamento “esquentado” de Davi. O que era feito em termos de transporte público, as obras da tal “Cidade Inteligente” ou os orçamentos para saúde e educação eram solenemente esquecidos.

Penso que é hora da opinião pública, incluindo a mídia e os analistas, deixarem de lado tal ânsia por escândalos de bastidores (a não ser que sejam denúncias fundamentadas de ilícitos), como namoros ou doenças, passando a focar nos problemas reais.

É o momento de se analisar o que realmente vem sendo feito na cidade. Quais os projetos em andamento, quanto custam e quanto custarão para os próximos gestores. Que obras foram prometidas e não foram feitas.

É bom saber qual a razão dessa desistência. Quais os projetos executivos que foram deixados e quais os que foram pensados e nem foram realizados? Quais as previsões orçamentárias? Há uma tendência de queda ou de aumento na arrecadação?

Monitorar alinhamentos partidários é interessante, contanto que não resvalem na fofoca sobre a vida íntima. A eleição de 2020 foi um exemplo de tempo perdido (diria Renato Russo), pois só se debatia idade e temperamento.

Temos de falar sobre projetos e custos. Previsões de recursos e como os serviços atuais irão se manter ou mudar, após a reeleição do atual gestor ou a entrada de um novo. Caso haja mudanças, quais serão? Quais projetos perderiam espaço? Quais secretarias ganhariam recursos e quais perderiam?

Precisamos parar de generalidades e temos de enfrentar a realidade de que há programas em curso e que eles podem ser bons ou maus, depende da avaliação do futuro gestor. O que não podemos é evitar esse debate mais centrado e concreto, priorizando fofocas ou fuxicos sobre os tais “bastidores”, que quase nunca acertam nas profecias….

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