Uma “produtora de energia” que abastece e dá segurança energética para todo o país, a Amazônia ainda sofre com problemas de energia elétrica para a sua população. É o que apontam dois estudos recentes do CPI (Climate Policy Initiative), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Coordenadora de avaliação de política pública com foco em energia no CPI/PUC-Rio, Amanda Schutze afirma que esse problema leva milhões de moradores dessas regiões a não terem acesso a serviços básicos, além de criar um desincentivo à proteção da floresta.
Para a pesquisadora, sem energia de qualidade, a implantação de uma bioeconomia que favoreça a manutenção da floresta em pé fica comprometida.
“Se você não tem energia, não tem as atividades básicas que vão permitir que todas essas soluções sejam implementadas”, disse Amanda.
Doutora em economia pela PUC-Rio e mestre pela EPGE/FGV-RJ (Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas), a coordenadora do programa aponta ainda para o risco de acidentes com o transporte e os custos bilionários para todo o Brasil da política de fornecimento de energia por meio de termelétricas a diesel nos sistemas isolados.
Amanda defende que a transição energética nessa região – para que os sistemas isolados possam se utilizar de energias renováveis – deve ter um tratamento adequado por parte da regulação e também um modelo de financiamento apropriado.
“A gente tem que estar preparado em termos regulatórios e políticos para avançar”, disse a pesquisadora.
Confira a entrevista de Schutze a agência Infra:
A região amazônica recebe muita atenção em relação a desmatamento e queimadas. Há outras ações que precisam de atenção nessa região, relacionadas às mudanças climáticas e à transição energética?
Amanda Schutze, coordenadora do CPI – Com certeza. Tem um outro ponto muito importante na Amazônia, que é a questão energética. Quando olhamos para energia elétrica, o que a gente descobre é que a Amazônia é um grande exportador de energia para o resto do país, mas, enquanto isso, tem parte de sua população desconectada do Sistema Interligado Nacional [SIN]. Esse é um sistema que liga os geradores aos consumidores, fazendo com que a gente consiga explorar essa grande abundância de recursos que o Brasil tem. No momento em que você tem parte da população da Amazônia não atendida por esse sistema, eles não têm acesso à energia de qualidade que o resto do país tem.
Como isso ocorre na prática?
A gente pode dividir a população da Amazônia Legal, em relação à energia, em três categorias: a primeira é a população que está conectada, que está dentro desse sistema interligado; a segunda são os habitantes que são atendidos por sistemas isolados; e a terceira são pessoas que não têm acesso a eletricidade. O que são sistemas isolados? É uma única geradora ligada a um sistema de distribuição. Isso não traz qualidade como o sistema interligado. A gente pode ver que tem o risco maior, se acontece qualquer coisa com esse gerador.
Como isso afeta a vida das pessoas nessa região?
O primeiro ponto que afeta diretamente é em relação à qualidade do fornecimento, pelo maior número de interrupções, a dificuldade de se estabelecer uma indústria, uma pequena indústria, um comércio, e dificulta o desenvolvimento da região. E quando a gente pensa que essas térmicas utilizam o diesel, aí a situação fica ainda mais dramática. Porque ao pensar que quase a totalidade da geração em sistema isolado na Amazônia vem de térmica a diesel, a gente entende a gravidade dessa situação. Não é só o diesel que é usado na térmica, tem também o transporte até chegar nessa térmica, que a gente sabe que não é fácil. Mesmo que seja, como é em alguns sistemas isolados, que têm que usar tanto o transporte por rodovia como também fluvial, e em outros só rodovia, existe uma dificuldade de o diesel chegar até a térmica. E fora isso a gente sabe os malefícios ao meio ambiente do uso do combustível para gerar energia. Quando a gente olha para as pessoas sem acesso, imaginamos que não tenham acesso a eletricidade em hora nenhuma, mas não é isso. Elas não estão com acesso a esse serviço público que o Estado tem obrigação de dar. Elas têm um gerador, ou a comunidade tem um gerador, e eles colocam diesel ali por duas ou três horas por dia, geralmente no fim da tarde.
Quais os prejuízos para elas?
Isso impossibilita também que essas pessoas tenham várias atividades básicas como, por exemplo, quando a gente pensa em saúde, elas não têm como armazenar vacinas, medicamentos, alimentos; elas não têm como pescar, porque existe uma dependência pelo comprador que vai passar, se não elas perdem aquele pescado, não têm como congelar. Existe uma dificuldade no desenvolvimento até mesmo da bioeconomia, de se utilizar uma produção sustentável com pequenos produtores, porque no momento que não se tem energia, não se pode produzir. Há uma dificuldade na proteção territorial, também, porque você não tem internet, não tem educação…
Como isso afeta também essas outras áreas que hoje têm mais dificuldade, que estão mais latentes com o problema amazônico. O desmatamento e as queimadas acabam acontecendo, em alguns casos, pela falta de opção de renda em outras áreas. A falta de um sistema elétrico mais garantido e seguro de alguma maneira impacta em outros processos de destruição da região?
Todas as soluções para a Amazônia, quando a gente pensa de forma geral, na redução do desmatamento, na questão do desenvolvimento da bioeconomia e da produção sustentável mantendo a floresta em pé, é claro que tudo isso vai acabar passando de forma transversal pela questão energética, porque se você não tem energia, não tem as atividades básicas que vão permitir que todas essas soluções sejam implementadas. Então acho que a gente não deve esquecer nunca desse fator da energia na região, porque a gente precisa dele para implementar todas as soluções para todos os problemas. É claro que se a gente tiver um sistema de energia robusto, isso não significa uma solução para todos os problemas, mas uma ferramenta para implementar as soluções.