Aqui procuramos falar de urbanismo, meio ambiente urbano, urbanidade… e hoje? Tal como muitos amazonenses, aproveito a oportunidade de explorar o nosso Portal para desabafar, porque no fundo, vem-me a enorme preocupação do futuro da minha cidade e do nosso povo.
Sou amazonense e por muitas vezes sinto o peso da invisibilidade que paira sobre nós. Vivendo nesta vasta região amazônica, somos negligenciados pelo resto do país. Para o Brasil, a Amazônia é uma grife, um símbolo a ser utilizado para angariar recursos internacionais, sem considerar verdadeiramente as necessidades e os anseios daqueles que habitam essa terra.
Manaus, a capital do Amazonas, tornou-se palco de um triste espetáculo de omissão e descaso das autoridades, da mídia nacional e de todos aqueles que estão mais preocupados com interesses políticos do que com a sobrevivência de nossa floresta.
A seca recorde que assola os rios da região, associada ao aumento da temperatura das águas, tem deixado um rastro de destruição. Na cidade de Tefé, centenas de botos, animais símbolos do Rio Amazonas, foram encontrados mortos, vítimas diretas da vazante extraordinária.
Falando em logística, estamos ilhados. Uma rodovia nunca poderá chegar até aqui para nos conectar ao resto do Brasil, porque, em terras indígenas, pode haver todo tipo de exploração, inclusive mineral, mas a construção de uma via é um arroubo de loucura. Nossos caudalosos rios, nossas hidrovias, sumiram… Os navios não chegam mais na região. A paisagem transformada do Rio Negro em suas margens, impressiona. O igarapé do Tarumã, se foi.
E não fica por aí. Para espanto de todos, temos a nova paisagem fosca da cidade, impregnada de fumaça proveniente das queimadas nos arredores de Manaus. O “pulmão do mundo” se tornou o ar mais tóxico para se respirar no nosso planeta – e não é exagero. O céu, impedido de ser observado, e a atmosfera, carregada de partículas nocivas, trazem consigo um alerta para as consequências irreversíveis dessa destruição.
Apesar desses fatos escandalosos, o que mais choca é a falta de atenção e o descaso das autoridades eleitas como nossos representantes no interesse de cuidar e preservar a região. Enquanto Manaus sufoca em meio à fumaça tóxica, todos se perguntam, onde estão os nossos políticos? Quem pode falar por nós?
E não é só isso, a mídia nacional também falha em seu papel de informar e conscientizar a população sobre o que está ocorrendo em nossa região. Poucas notícias são veiculadas sobre a situação alarmante que Manaus e sua região metropolitana estão enfrentando. É triste perceber que a tragédia ambiental que vivemos hoje não é suficientemente importante para ganhar destaque na programação das emissoras de televisão.
Já não bastou a crise de oxigênio durante a pandemia que demonstrou o que a falta de conexão por terra acarreta para a nossa região? Agora pela seca, chega a vez da falta de insumos, todos os insumos, e com isso vemos nosso custo de vida tornar-se sempre um dos mais altos do país, temos a gasolina mais cara, a energia mais cara, a cesta básica mais cara e um IDH baixíssimo.
E vamos nos preparando pois a previsão é que a seca pode se estender até o mês de janeiro, segundo previsão do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao governo federal.
Isso só prova a resiliência desse povo, os mais jovens falam tanto em resistência, nós os amazonenses somos a resistência! Amamos nossa cultura, nossos costumes, e temos a plena responsabilidade pela preservação da Amazônia. Mas não é demais sonhar que a mídia pode cumprir o seu papel de informar e educar a população sobre a importância da conservação ambiental aliado ao respeito pelos que aqui habitam.
De forma local, é fundamental que os cidadãos, tenham a consciência sobre o impacto de suas ações para o meio ambiente natural e essa maturidade é apenas um dos fatores para resgatarmos a expectativa em continuar por aqui, ambicionando que este, é um dos melhores para se viver, e que o futuro não é assim tão incerto.
Diante de tudo o que estamos passando, tudo se torna menor, as brigas políticas, as discussões homéricas sobre terras indígenas, a briga cansativa e sempre constante sobre licenciamento ambiental, e sabe porque? Porque talvez não haja povo para aqui viver, é apenas isso…
Que o Brasil acorde e perceba o que está acontecendo aqui pelo norte, a Amazônia é um lugar tão rico, e por isso somos fonte de sabedoria, de culturas ancestrais, de conhecimentos que podem contribuir para um futuro sustentável.
Que tudo se volte contra a invisibilidade que nos foi imposta e que o grito brado e retumbante que vem do Norte, ecoe!