quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Política, meio ambiente e pernadas eleitorais

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Os últimos dias foram quase apocalípticos para o Amazonas. A estiagem secou rios e lagos, isolando cidades e deixando várias comunidades sem abastecimento, incluindo a capital. Na segunda, dia 16, o nível do rio Negro chegou a 13,59 m, superando a seca de 2010, quando o nível foi 13,63 m.

Para piorar, diversas queimadas espalhadas pelo estado incineraram a floresta e deixaram o ar de Manaus um dos piores do mundo. Na quarta-feira, dia 11, Manaus registrava 387 microgramas de poluentes por metro cúbico, sendo que a zona sul da capital chegou a marcar 499. Só para termos uma ideia, no mesmo dia, São Paulo registrou 122 microgramas. Apenas em setembro, foram registradas mais de 7 mil queimadas. Em outubro, na primeira semana, foram quase 3 mil. Desde janeiro, foram cerca de 17 mil focos de calor detectados, sendo que 55% no sul do estado e 12% na região metropolitana.

A junção das queimadas com a estiagem foi mortal para dezenas de municípios. São 59 cidades em estado de alerta e de emergência. Mais de 550 mil habitantes no interior estão diretamente sendo afetados pela estiagem e/ou fumaça.

Para amenizar essa calamidade, que ameaça o estado de desabastecimento e de aumento nos produtos que conseguirem chegar, o governo federal já destinou cerca de R$ 600 milhões de reais, fora antecipar benefícios, financiar dragagem de rios e destinar brigadistas para atuar aqui. Foram, por alto, mais de 40 da Força Nacional e 94 de órgãos ambientais.

Por seu lado, o governo estadual já aplicou mais de R$ 17 milhões em multas. Em termos de recursos, criou a Operação Estiagem, com orçamento de, aproximadamente, R$ 100 milhões de reais, sem falar nas ações localizadas.

Tudo isso já seria terrível por si só. Contudo, o tempero que não poderia faltar é justamente aquele dado pelos políticos. Numa antecipação das eleições de 2024, vimos grande parte da elite política local retomar o tema da BR-319 e culpar o governo federal, em especial a ministra Marina Silva e o IBAMA, por não deixarem a estrada ser asfaltada. Senadores, deputados federais e estaduais e até vereadores começaram abertamente a criticá-la, culpando-a claramente pelo desabastecimento no interior e pelo nosso isolamento.

O ápice desse processo foi quando o senador Omar Aziz, defensor do governo Lula, a chamou frontalmente de “retrógrada”, sendo seguido pelo governador, em reunião conjunta para debater a estiagem e as queimadas, em Manaus. Ele acusou diretamente Marina e o IBAMA por dificultarem o asfaltamento da BR e pensarem como há 20 anos, sem ter empatia com os amazonenses que “morrem de fome” (palavras do governador).

Será que o presidente sabia previamente de tais ataques? Dificilmente, os senadores situacionistas (Eduardo Braga e Omar Aziz) estariam criticando Marina tão abertamente, desde setembro, sem algum tipo de aviso ou anuência do Planalto. Será que fazem isso por causa de pesquisas? Esta é uma boa hipótese. As eleições municipais foram adiantadas e o tema da BR-319 é muito sensível. Ficar contra a ministra e o IBAMA pode render votos, tal é a rejeição deles no Amazonas.

Pré-candidatos à prefeitura, como o capitão Alberto, entraram de sola na ministra, culpando-a por mortes e fome. O prefeito não escapou, pois, em plena crise, anunciou o noivado, sendo alvo das redes sociais, que o acusaram de não estar trabalhando contra a crise, mas somente namorar.

Porém, a “pernada” política maior se deu quando o ex-vice-governador Carlos Almeida entrou com pedido de intervenção federal na Procuradoria Geral da República, na condição de Defensor Público. Justificou tal ato dizendo que as queimadas estão pondo em risco os habitantes e seria necessária a intervenção. Cabe lembrar que ele se filiou ao PT. Contudo, houve questionamentos e o diretório regional irá julgar essa filiação inusitada.

Enfim, no meio de tantas catástrofes é interessante vermos como os políticos se comportam e reagem diante dos infortúnios. As pesquisas continuam ditando o ritmos das reações deles e podemos esperar de tudo, especialmente se o desabastecimento acontecer e os preços subirem como se imagina, até o final do ano…assim, que Natal poderemos esperar?

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