O Brasil alcançou uma interessante marca. Temos um rebanho bovino maior do que a população. Hoje, temos cerca de 235 milhões de cabeças de gado, enquanto nossa população é de 203 milhões. É uma vantagem de 15,4%. A cidade com maior concentração fica na região norte. É São Felix do Xingu (PA), com 2.522.408 cabeças. A terceira cidade é também do norte: Porto Velho (RO), com a marca de 1.685.258. A quarta e a quinta também são do Pará – Novo Repartimento e Marabá.
Esses números recordistas também ocorrem, em valores arredondados, nos suínos (45 milhões), ovinos (22 milhões), caprinos (13 milhões) e galinhas (260 milhões). Os ovinos e caprinos aparecem mais no nordeste e os suínos e galinhas no sul/sudeste e centro-oeste.
O Amazonas contribui pouco para essa conta.
Nosso rebanho bovino é de “apenas” 1.558.283 cabeças. Nossa população é, segundo o IBGE/2022, de 3.941.175 habitantes. Temos mais do que o dobro em pessoas do que em cabeças de gado bovino, diferentemente do Brasil em geral.
O vizinho Pará possui cerca de 23 milhões de cabeças (9,9% do total), sendo o terceiro estado com maior rebanho. Rondônia, outro vizinho, possui aproximadamente 18 milhões de cabeças, número muito superior a nós, no Amazonas.
Por outro lado, sua população é de 1.581.016 habitantes, menos da metade dos habitantes do Amazonas. Mesmo a distante Roraima, com todos os seus problemas de logística e estrutura, possui um rebanho de 1.133.502 cabeças, que é quase igual ao nosso, mas com uma população de apenas 636.303 habitantes, menos de ¼ da nossa.
Contudo, quero apontar um detalhe nos números amazonenses, que é o foco do debate: nosso rebanho é delimitado espacialmente. As 3 cidades que estão em contato com o Mato Grosso (Manicoré, Novo Aripuanã e Apuí) possuem, juntas, 24% do rebanho estadual.
Se alargarmos mais o leque e pegarmos cidades vizinhas, que estão em contato maior com Rondônia (Humaitá, Canutama e Lábrea), os números sobem. Essas 3 cidades totalizam 25% do nosso rebanho. Ou seja, as 6 cidades mencionadas, nas fronteiras com Mato Grosso e Rondônia, possuem a metade do rebanho amazonense.
Continuando o raciocínio, se formos para as cidades da fronteira com o Acre (Boca do Acre, Pauini, Envira, Eirunepé, Ipixuna e Guajará), a situação é a seguinte: essas 6 cidades somadas possuem 23% do rebanho do estado.
Em suma, o arco sul/sudoeste do Amazonas possui, aproximadamente, 75% ou ¾ de todo o rebanho estadual. Cidades tradicionais da pecuária local, como Autazes (59.593) e Parintins (53.200) somadas totalizam apenas 7%.
Da mesma forma, a região metropolitana de Manaus, com seus 13 municípios, possui pouco menos de 260 mil cabeças, ou seja, somente 17% do rebanho estadual, embora sua população total seja de mais de 2 milhões e 532 mil pessoas (66% dos habitantes do Amazonas ou 2/3).
Concluindo, podemos ver que a força da pecuária está na confluência territorial com Mato Grosso, Rondônia e Acre. É a força do agronegócio empurrando as fronteiras da expansão dos rebanhos. Cidades com pouca população respondem por mais de ¾ do rebanho bovino estadual. A região metropolitana, grande consumidora, produz pouco em proporção ao que consome de carne e derivados.
Em tempos de busca por alternativas econômicas é necessário reconhecer a força desse setor – a pecuária. Como intensificar mais esse ramo? Ele pode afetar o meio ambiente, caso cresça mais? É provável.
Até que ponto, então, queremos que ele se desenvolva? Quais as pressões que os negociantes de MS e RO exercem sobre esse setor da economia? A presença de mais estradas iria ajudar esse negócio? E os problemas para a floresta em pé? O que dizem os ribeirinhos e os moradores dessas cidades do sul/sudoeste do estado?
O governo deveria respeitar uma suposta “vocação” dessa região? Enfim, são dezenas de perguntas que precisamos enfrentar o quanto antes. A queda de arrecadação é real.
A pecuária e o agronegócio podem ser aliados da economia estadual, todavia, como fazer isso sem agredir o meio ambiente?
Eis o ponto decisivo.