quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Floresta rica e amazonenses pobres?

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

No Amazonas, segundo o governo federal, cerca de 650 mil pessoas recebem o bolsa-família. Em média, recebem R$ 760. Em junho, a União repassou R$ 480 milhões para o Amazonas, apenas para pagamento desse auxílio.

Somente em Manaus, aproximadamente, 260 mil pessoas recebem essa bolsa.

Além disso, entre outros benefícios, o governo federal gasta cerca de R$ 15 milhões com o auxílio gás no estado, pois são 132 milhões famílias que recebem tal auxílio.

Vamos a outros números: o estoque de empregos formais no Amazonas, em junho de 2023, ficou em 484 mil vagas. De maio para junho, no entanto, o salário médio caiu de R$ 1.760,89 para R$ 1.720,24.

Em relação ao desemprego, no primeiro trimestre de 2023, ele aumentou no Amazonas, passando de 10% para 10,5%. É uma taxa maior do que a média nacional que ficou em 8,8%.

Segundo o IBGE, cerca de 58% da força de trabalho do estado, nesse período, está na informalidade, ou seja, mais de 974 mil pessoas, todas atuando sem direitos trabalhistas ou sociais.

É alarmante, pois a média nacional, nos mesmos meses, ficou em 39%.

A situação é pior em Manaus, onde a taxa de desemprego chegou a 12,8% no primeiro trimestre de 2023, botando a capital amazonense no ranking de terceira cidade com mais desempregados do país.

Em termos mais simples, para ilustrar bem a situação, podemos separar a força de trabalho amazonense em 3 fatias de pizza: em um universo de cerca de 1.5 milhão de pessoas, temos 500 mil ocupadas em empregos formais (1/3 ou uma fatia) e 1 milhão na informalidade (2/3 ou 2 fatias).

Além disso, e isso é preocupante, há quase 700 mil pessoas recebendo benefícios, ficando praticamente de fora desses cálculos. É um problema esse desequilíbrio, pois cada vez menos pessoas pagam impostos e mais pessoas dependem do resultado dessa arrecadação, a qual já diminuiu, e ano que vem sofrerá mais problemas com a reforma tributária prometida.

Porém, há elementos a serem relativizados.

Por exemplo, temos os editais da Lei Paulo Gustavo, que estão para ser publicados em setembro, somando mais de R$ 80 milhões.

O acordo da Zona Fronteiriça Brasil-Peru poderá melhorar a vida em várias cidades brasileiras da fronteira.

O programa Amazonas Meu Lar irá injetar mais de R$ 4.7 bilhões na economia regional nos próximos três anos.

A última reunião do Conselho da Suframa aprovou projetos de mais de R$ 740 milhões, que poderão gerar mais de mil empregos.

Além disso, temos, por exemplo, promessas de EUA, Alemanha e Noruega de que injetarão mais de R$ 3 bilhões no Fundo Amazônia, incrementando projetos por todo o interior.

Contudo, há gargalos sensíveis em nossa economia. Talvez o mais relevante seja o da BR-319. Há mais de 20 anos a novela sobre sua liberação se arrasta.

O medo dos ambientalistas de que problemas como aqueles vividos por Matupi e por todo o sul do Amazonas ocorram ao longo dessa estrada dificultam e muito a realização do asfaltamento.

Enquanto isso, Manaus e o Polo Industrial ficam isolados dentro do próprio Brasil, sem saídas terrestres e sem um escoamento mais ágil e barato para os produtos da Zona Franca.

Recentemente, outro problema começou a surgir. A implantação do projeto de exploração do potássio em Autazes foi suspensa pela Justiça Federal, a pedido do MPF. Haveria um estudo sobre a sobreposição do projeto com terras indígenas, o que travaria o processo de licenciamento.

Não se pode esquecer que o projeto prevê abastecer o mercado de fertilizantes do agronegócio em 25% de suas demandas, sendo que o Brasil importa 95% desse mineral de países como Rússia (em guerra), Canadá e Bielorrússia.

Atropelar as leis ambientais é errado, contudo, rejeitar tal chance de arrecadar dinheiro e melhorar a vida das comunidades tradicionais do interior é um tiro no pé da economia local. Isso sem falar no CBA e a expectativa de duas décadas de que ele realmente produza Bionegócios e altere nossa matriz econômica…

Enfim, os dados apontam para um cenário tenso de nossa economia.

Temos mais dependentes de bolsas e auxílios e trabalhadores informais do que empregados com carteira assinada. É uma situação propícia para um colapso.

Todavia, há alternativas. Há dinheiro a ser injetado na economia local, seja pela floresta e sua manutenção, seja para as indústrias ou para a economia criativa.

Porém, é preciso destravar os gargalos e aproveitar as oportunidades. Se não, de que adianta uma floresta rica, com amazonenses pobres?!

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