quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Declaração de Belém não cita petróleo e é tímida em medidas para desmatamento zero

Na Declaração de Belém pontos importantes não foram abordados e entidades sentiram falta de medidas.
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O documento tem 113 objetivos e princípios transversais, nenhuma menção à exploração de petróleo e duas citações tímidas sobre desmatamento zero. (Foto: InfoAmazônia)

Os chefes de Estado dos oito países amazônicos da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) adotaram, nesta terça-feira (8), primeiro dia da Cúpula da Amazônia, a Declaração de Belém. O documento tem 113 objetivos e princípios transversais, nenhuma menção à exploração de petróleo e duas citações tímidas sobre desmatamento zero. 

Não foi por falta de lembrança por parte da sociedade civil e até de líderes presentes no evento. Na Marcha dos Povos da Terra Pela Amazônia, que ocupou as ruas de Belém durante a manhã desta terça, uma das reivindicações era pela Amazônia livre de petróleo.

Além disso, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em discurso na reunião dos chefes de Estado, criticou o que chamou de “outro tipo de negacionismo” dos progressistas por não haver acordo sobre o bloqueio a petróleo, carbono e gás.

O Brasil foi o principal país contrário à inclusão de uma meta sobre combustíveis fósseis no acordo. Luiz Inácio Lula da Silva tem dito que a decisão do Ibama.

Autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente responsável por fiscalização, licenciamento e outras funções na área ambiental, contrária à perfuração da foz do rio Amazonas pela Petrobras não é definitiva.

A respeito do debate sobre energia, o presidente disse que “o Brasil desempenhará papel central na transição energética, liderando a produção de fontes limpas como a energia solar, a biomassa, o etanol e o hidrogênio verde”.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião dos Chefes de Estado e de Governo dos países signatários do Tratado de Cooperação Amazônica. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Já Petro, da Colômbia, começou seu discurso dizendo que tocaria nos dissensos, já que os consenso estavam na Declaração. O líder colombiano afirmou que a crise climática é produzida pelo consumo de petróleo, carbono e gás, a “energia do capitalismo desde a Revolução Industrial”. 

“Acredito que não é mais suficiente chegar ao desmatamento zero. E mais: a ciência diz que, se arborizarmos todo o mundo, não seríamos capazes de absorver o que se emite em cada ano de CO2. A solução está em desistir do carbono, do petróleo e do gás”, disse o presidente. Petro propôs que se adote na Amazônia o que chamou de “prosperidade descarbonizada”.

O trecho do texto final mais próximo ao debate sobre petróleo é o objetivo de iniciar um diálogo sobre “a sustentabilidade de setores tais como mineração e hidrocarbonetos na Região Amazônica, no marco da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”.

Desmatamento Zero

A Declaração de Belém faz duas menções ao desmatamento zero. Na primeira, traz que seria “ideal alcançar” o objetivo comum para os países da Pan-Amazônia em 2030. Na segunda, o texto cita que os Estados devem cumprir suas metas nacionais, incluindo a de desmatamento zero.

O acordo entre os países amazônicos apresenta uma nova agenda comum de cooperação na Amazônia considerando a ação urgente para evitar o ponto de não retorno.

Um dos pontos importantes é a meta de mobilizar 100 bilhões de dólares por ano em financiamento climático e promover a troca de dívidas dos países amazônicos por ações climáticas dos países desenvolvidos. A Declaração cita ainda a demarcação de terras indígenas e a cooperação policial contra atividades ilícitas.

“É positivo que os chefes de Estado tenham reconhecido o ponto de não retorno da Amazônia e a urgência de evitá-lo. Porém é necessário que se adotem medidas concretas e robustas que sejam capazes de eliminar o desmatamento o mais rápido possível.”

“Combater e eliminar o ouro ilegal e a contaminação por mercúrio, que se tornou um problema ambiental e de saúde pública na região, exige igual atenção e urgência. Também é imprescindível aumentar as áreas protegidas e os territórios indígenas”, diz Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil.

O Observatório do Clima, coalizão que reúne mais de 90 representantes da sociedade civil, também se posicionou sobre a Declaração da Cúpula.

Em nota, afirma que “os 113 parágrafos operativos da declaração são uma bonita carta de intenções, que tem o mérito de reavivar a esquecida OTCA e reconhecer que o bioma está sob ameaça de atingir um ponto de não-retorno, mas que não oferece soluções práticas e um calendário de ações para evitá-lo”. Além disso, Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, diz que esse é um “esforço bem inicial”.

“Um primeiro passo, mas que ainda não oferece nenhuma resposta concreta ao mundo em que estamos vivendo. O planeta está derretendo, estamos batendo recordes de temperatura todos os dias.”

“Não é possível que, num cenário como esse, oito países amazônicos não consigam colocar numa declaração, em letras garrafais, que o desmatamento precisa ser zero e que explorar petróleo no meio da floresta não é uma boa ideia.  Em resumo, o documento pecou pela falta de contundência. Ele é uma lista de desejos, e os desejos são insuficientes”, afirma.

Guilherme Guerreiro Neto, da InfoAmazônia

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