quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Sou Manaus Passo a Paço: o fantástico show de Manaus

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Promover a economia criativa, gerar empregos e fazer a renda circular, especialmente na área de entretenimento e cultura é válido. Certamente é uma tarefa do governo estimular atividades nesse setor, especialmente prestigiando artistas locais. Por isso, é bem interessante que a prefeitura apoie o evento Sou Manaus Passo a Paço 2023.

Ele terá, segundo o prefeito, mais de cem horas de programação em treze áreas de ocupação. Por noite, são esperadas mais de 200 mil pessoas. Estima-se que aproximadamente 600 pessoas irão trabalhar no evento, nas mais diferentes atividades.

O ápice será o show de um dos maiores DJs da atualidade, o francês David Guetta. Porém, outros cantores nacionais, como Lobão, Humberto Gessinger e Zeca Pagodinho também foram anunciados, fora os artistas locais.

Por ora, vamos a alguns números, pois isto é essencial na gestão pública. A prefeitura planeja gastar R$ 15 milhões. Ano passado, ela usou, segundo o prefeito, 600 agentes de segurança. Este ano, pretende usar mais pessoas. Porém, há outros custos, como transporte, organização do trânsito, diárias de pessoal, entre outros, que também precisam ser adicionados, além da construção e manutenção dos palcos.

Todavia, creio que seria interessante vermos outro elemento: o cachê dos artistas. Guetta, artista consagrado mundialmente, segundo sites internacionais, não se apresenta por menos de $ 250 mil (em reais, algo em torno de R$ 1.250.000,00).

Zeca Pagodinho não sai de Xerém por menos de R$ 200 mil. Gessinger, ex – Engenheiros do Havai, cobra, em média, 150 mil. Em 2022, em show no interior da Bahia, o Biquini Cavadão cobrou R$ 170 mil da prefeitura local (Caetité). Kevin o Cris é mais modesto, pois cobra “apenas” R$ 50 mil por show.

Só nesses artistas, já podemos estimar um custo de R$ 2 mi. Isso, se pensarmos em valores de “Brasil”. Não podemos esquecer que estamos no Amazonas, esse outro Brasil, que nem estrada pode ter. Aqui, os custos de logística são muito maiores. Podemos estar certos de que os custos desses artistas serão entre 30 e 40% maiores, sem dúvida.

O prefeito afirma que já reuniu empresários e patrocinadores que irão custear tais shows. A prefeitura, segundo ele, não arcará com custo algum nesse setor. Cerca de 97% dos shows serão gratuitos. Apenas 3% terão ingressos vendidos para uma área VIP, onde haverá algum tipo de acomodação especial para os pagantes.

 De novo, ressalto que iniciativas que promovam a economia criativa são importantes. Contudo, meu ponto é que o prefeito disse que só após o evento falará os patrocinadores e exporá detalhes desses patrocínios. Perguntado sobre pormenores financeiros do evento, fugiu das questões e falou que só posteriormente apresentará os dados.

Penso que R$ 15 milhões (orçamento inicial da prefeitura) não são um valor pequeno. Seria interessante para todos, especialmente para a gestão municipal, que esse detalhamentos de custos fosse logo apresentado.

Lembro que shows, proporcionalmente similares, em Borba, Novo Airão e Eirunepé, por exemplo, foram cancelados pelo TCE. Inclusive, o TCE emitiu um alerta em 2022 sobre a realização de tais festividades com a contratação de atrações nacionais, lembrando das leis 8.666/1993 e 14.133/2021.

Para finalizar, fica minha torcida de que tudo ocorra normalmente e que nenhum problema com essas atrações aconteça. É salutar ver que muitos artistas locais foram contemplados no evento e que a prefeitura promete reforçar a segurança. Entretanto, seria bom que os custos e projeções ficassem mais claros.

Outro ponto que seria interessante é ver qual o lucro que esse evento proporciona. Ou ele é apenas um custo/investimento “a fundo perdido”? Quanto cada patrocinador gastará? Quanto os empresários envolvidos no setor VIP esperam ganhar? Quanto pagaram por isso? Houve licitação? O TCE se pronunciou sobre esse evento? Não houve observações? Quais os patrocínios e de que forma a prefeitura os captou?

Enfim, são questões válidas e que só servem para elevar o debate sobre o papel dos governantes na geração de emprego, ressaltando a transparência de tais atividades e de que forma a população pode se beneficiar delas, para que não sejam apenas mais ações de “pão e circo”, como várias outras que já vimos em nossa região.

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