O ano era 2010, a cidade? Recife. Estávamos ansiosos para iniciarmos o encontro de arquitetos que se iniciava, na agenda, inúmeros locais e eventos. No primeiro deles, uma visita ao centro histórico do Recife e o lançamento do livro “Calçadas do Brasil”.
Ao folhear aquele livro cuja expectativa seria vislumbrar as lindas e belas calçadas históricas das principais cidades brasileiras, me deparei com a primeira delas que de pronto me pareceu tão familiar. Sim, eram as ondas em preto e branco do largo São Sebastião aqui da nossa Manaus.
O livro dizia tratar-se do movimento das águas dos rios e que acabou por inspirar Burle Marx na composição dos calçadões de Copacabana no Rio de Janeiro. Fui tomada pelo orgulho em saber que possuíamos tesouros observados por estudiosos e que a então Paris dos trópicos já inspirou outras histórias, tornando-se patrimônio Cultural da nossa cidade.
As calçadas, em sua simplicidade estática, contam parte da identidade de um lugar, a beleza e a singularidade dessas calçadas encantam o olhar e, por isso fui tomada por uma sensação de admiração e respeito.
Mas por esse olhar curioso, onde a cidade torna-se objeto de pesquisa como urbanista que sou, volto a realidade, nua e crua.
Onde perdemos a noção da necessidade de manutenção de nossos passeios, nossos largos, nossas calçadas? Não seria esse o nosso maior desafio enquanto cidade? Do calor massivo que não nos permite andar sem a necessidade de sombras, a falta de continuidade destas, nossas calçadas deixam de ser atrativas ao caminhar.
O “dono” dela não se importa se irá passar ali, um vizinho de um ponto ao outro, de uma esquina a outra, o pai, a mãe com bebê no colo, no carrinho, o cadeirante que se desloca para o ponto de ônibus mais próximo, ou o idoso que irá comprar pão, ali do lado na padaria.
Pra quê importar-se com o outro, que gentileza é essa para com a cidade, a calçada é minha e farei dela o que eu bem entender. Seria esse o pensamento?
Às vezes procuro, propositalmente caminhar pelas ruas da cidade, quero sentir suas esquinas, cheiros, barulhos e percalços. Talvez um vício de ciclista… sentir a cidade de perto, é uma delícia.
Mas, na mesma hora em que me revolto pela falta de empatia, é que me transporto novamente para uma Manaus mais humana, cheia de vida, que se emolduram num convívio que de tão salutar tornam-se vizinhos-parentes, sentam a beira da ponta da calçada para ver a procissão passar, para participar da feira de rua. Daí recomeço novamente numa esperança de ver minha cidade com um outro olhar: Moderna, segura, humana, acessível… sombra, precisamos de sombra. Concessionária de energia, eu disse sombra. Não os restos mortais de um galho que fará tombar a árvore centenária em função de uma poda desastrosa que preserva os cabos de energia que não podem ter proteção para que ela possa então, ali ficar e tornar-se frondosa e suntuosa.
O que acontece então… vejo ainda uma imaturidade de nós mesmo enquanto sociedade e donos dessa terra para exigirmos nossos direitos. Nós possuímos a mais poderosa e altiva voz dessa cidade.
Acredito que uma mudança de cultura é possível e necessária. Precisamos enxergar esses espaços urbanos com outros olhos, valorizando-os e utilizando-os de forma consciente.
Além disso, é fundamental que as autoridades estejam cientes de sua importância e atuem na conservação e revitalização das calçadas, que invistam em projetos de conscientização, vamos aproveitar as disciplinas que visam difundir a educação ambiental nas escolas, para levar um pouco de educação cidadã as nossas crianças no meio ambiente construído, podemos criar um ciclo propício para que a cultura de preservação se estabeleça em nossa cidade.
Assim, espero ansiosamente por um futuro em que as calçadas de Manaus possam contar suas próprias histórias, com orgulho e respeito.
Que possamos caminhar por elas e, através de seus desenhos e pedras, reconhecer a identidade de nossa cidade.
Que sejamos capazes de enxergar nelas não apenas um caminhar diário, mas um legado cultural a ser preservado e compartilhado com as gerações futuras, afinal nossa Manaus merece esse carinho!