Um grupo de 11 economistas proeminentes, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel, emitiu nesta segunda-feira (22/09) um alerta global sobre a urgência de se investir em jornalismo de interesse público. O principal argumento da declaração, intitulada “O Imperativo Econômico de Investir na Mídia de Interesse Público”, é que a contínua degradação da mídia de interesse público representa não apenas uma crise para o jornalismo, mas uma ameaça à economia global e às sociedades democráticas.
O documento, assinado por nomes como Joseph Stiglitz (Nobel de Economia de 2001) e Daron Acemoğlu (Nobel de Economia de 2024) enfatiza que a integridade da informação e a confiança em veículos jornalísticos são essenciais para a economia do século 21, comparando o papel da mídia de interesse público ao dos bancos centrais. Segundo os economistas, resolver a crise de financiamento do campo deve ser uma prioridade e, para isso, é fundamental promover ações políticas ousadas que garantam e reconheçam o valor da integridade da informação.
A iniciativa será debatida em um painel durante a Conferência Internacional de Alto Nível sobre Integridade da Informação, organizada pelo International Fund for Public Interest Media (IFPIM) e pelo Fórum para Informação e Democracia (FID), com apoio do governo francês e endossada por 56 países. O encontro faz parte das atividades do Fórum de Paris pela Paz, que acontece nos dias 29 e 30 de outubro.
Ameaças ao jornalismo
A declaração, organizada em um documento de mais de 20 páginas, identifica duas ameaças principais ao jornalismo ao redor do mundo. A primeira é o colapso do modelo de negócios baseado em publicidade, que sustentou a mídia por décadas, e foi dizimado pela concorrência das big techs. Essas empresas não apenas concentraram as receitas de publicidade, mas também capturaram o valor gerado pelo jornalismo para seus próprios lucros. Os especialistas argumentam que as plataformas digitais se beneficiam do trabalho de produção de conteúdo jornalístico sem a devida compensação, um fenômeno que desestimula o investimento em jornalismo de qualidade. O resultado é um ecossistema de informação onde o conteúdo lucrativo, que muitas vezes incentiva polarizações e desinformação, tem prioridade sobre o interesse público.
A segunda ameaça ao jornalismo é a crescente interferência estatal, especialmente, mas não exclusivamente, em casos de governos autoritários. Ataques legais, como intimidações judiciais por difamação ou leis de mídia restritivas, estão se tornando mais comuns, colocando jornalistas em perigo e prejudicando a transparência e a boa governança. O documento destaca um dado alarmante: a Rússia, sozinha, gasta em desinformação e propaganda três vezes mais do que as maiores democracias do mundo investem para apoiar o jornalismo independente. Assim, o vácuo deixado pelo fechamento de veículos de comunicação ao redor do mundo é preenchido com desinformação, causando caos econômico e social.
Consequências
Longe de ser um problema setorial, a crise do jornalismo tem impactos econômicos diretos e mensuráveis. A declaração aponta que a mídia livre e independente contribui para a economia por:
• Apoiar a estabilidade dos mercados financeiros e expor fraudes e corrupção. O exemplo da investigação dos “Panamá Papers” é citado como um caso de enorme retorno sobre o investimento, tendo recuperado quase 2 bilhões de dólares em impostos para governos ao redor do mundo.
• Promover a boa governança e a confiança social, condições essenciais para economias dinâmicas. Cidadãos bem-informados podem cobrar responsabilidade de seus governantes, o que leva a serviços públicos mais eficazes e a um desenvolvimento mais inclusivo.
• Mitigar os custos sociais e econômicos da desinformação. A disseminação de informações falsas distorce decisões, polariza a sociedade e pode levar a custos tangíveis, como o aumento de despesas com saúde pública devido à recusa de vacinas.
• Limitar o poder de monopólios no setor digital. Sem um jornalismo forte para fiscalizar e informar o público, os mercados digitais tendem a se tornar extrativistas e dominados por poucos atores, o que sufoca a inovação e aumenta a desigualdade.
Chamado global à ação
O documento não se limita a diagnosticar o problema e propõe um plano de ação robusto, focado em duas frentes principais: investir no jornalismo e moldar o ecossistema informacional.
Para o financiamento, os economistas defendem uma diversificação de recursos, que inclui:
1. Aumento do apoio governamental, tanto nacional quanto internacionalmente, por meio de subsídios diretos e indiretos (como isenções fiscais), fundos nacionais de jornalismo e novos modelos de licenciamento, sempre com garantias de independência editorial.
2. Modelos de compensação justos que obriguem as plataformas de tecnologia e de IA a pagar pelo conteúdo jornalístico que utilizam. Leis como as já existentes na Austrália e no Canadá são vistas como exemplos a serem aprimorados.
3. Implementação de impostos para as grandes plataformas digitais. A receita gerada serviria para financiar a mídia de interesse público, aplicando o princípio do “poluidor pagador” a empresas que lucram com um ambiente informacional muitas vezes degradado.
Para moldar o ecossistema, o documento recomenda políticas públicas que promovam um ambiente de mídia mais saudável, competitivo, plural e alinhado ao interesse público. Isso passa por uma regulação mais ousada das big techs, a atualização de leis de direitos autorais para o contexto da IA e o apoio a veículos de jornalismo locais.
A mensagem final é de urgência. “Na era da IA e dos algoritmos digitais, não agir para fomentar a mídia de interesse público não é mais uma opção”, conclui a declaração. Para os economistas, agora é necessário que haja disposição política para investir no que já se sabe que funciona, antes que seja tarde demais.
Assinam o documento:
Joseph Stiglitz – Prêmio Nobel de Economia, Columbia University
Daron Acemoglu – Prêmio Nobel de Economia, MIT
Philippe Aghion – Collège de France
Tim Besley – London School of Economics
Francesca Bria – UCL Institute for Innovation and Public Purpose
Diane Coyle – University of Cambridge
Obiageli Ezekwesili – Human Capital Africa
Mariana Mazzucato – UCL Institute for Innovation and Public Purpose
Atif Mian – Princeton University
Andrea Prat – Columbia University
Vera Songwe – Liquidity and Sustainability Facility
Fonte: Associação de Jornalismo Digital (Ajor)
* O RealTime1 é associado a Ajor