Recém-empossado como superintendente do Hospital Universitário Getúlio Vargas da Universidade Federal do Amazonas (HUGV/Ufam), o professor Plínio José Cavalcante Monteiro afirma que “o todo depende de todos: o fazer de cada um tem reflexos no conjunto de fazeres coletivos”.
Ele assumiu o cargo no início de setembro destacando o compromisso de ampliar leitos, fortalecer a integração entre assistência, ensino e pesquisa e investir em melhorias estruturais.
Plínio José Cavalcante Monteiro é médico formado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com especializações em Pediatria, Homeopatia, Administração Hospitalar e Gestão de Sistemas de Saúde.
Mestre em Ensino em Ciências da Saúde pela Unifesp e doutor em Bioética pela UnB, é professor adjunto da Faculdade de Medicina da Ufam e tem trajetória marcada na integração entre assistência, ensino e pesquisa em saúde.
Ao RealTime1, ele detalhou a proposta de dobrar o número de leitos em dois anos, investir em novos serviços de alta complexidade e ampliar o uso da telessaúde para atender comunidades indígenas e ribeirinhas em todo o Amazonas.
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ReaTime1 – O senhor assumiu o HUGV falando em uma gestão sistêmica e integrada. Na prática, como pretende transformar esse conceito em ações concretas no hospital?
Dr. Plínio Monteiro – O hospital é considerado a organização contemporânea mais complexa por gestores no mundo inteiro. No Brasil, os hospitais de ensino, públicos e federais, denominados HUFs, são as mais desafiadores instituições de saúde, exigindo de seus gestores compromissos diversos que devem ser orientados por propósitos bem estabelecidos, planejamento estratégico bem construídos e processos integrados que contribuam para a realização de suas missões institucionais. Desta forma, uma visão sistêmica importa em reconhecer essa complexidade e buscar visualizar todos esses processos como interdependentes, para que as ações dos colaboradores nos diversos níveis hierárquicos sejam executadas em harmonia e com cooperação mútuas. O todo depende de todos: o fazer de cada um tem reflexos no conjunto de fazeres coletivos.
RT1 – Um dos compromissos anunciados foi o aumento de leitos em até dois anos. Quais áreas serão priorizadas e como o hospital pretende viabilizar recursos e equipe para essa ampliação?
Dr. Plínio Monteiro – Exatamente. Recentemente elaboramos uma proposta para o Gestor do SUS estadual, representado pela SES/AM (Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas), no qual nos comprometemos com uma ampliação dos leitos no HUGV. Nossa previsão é que os atuais 110 leitos, com taxa de ocupação em torno de 65-70%, possam ser dobrados, passando para 220 leitos com uma taxa de ocupação acima de 85%, disponibilizando mais serviços de média e alta complexidades para a população amazonense, da capital e do interior.
RT1 – O HUGV é um hospital universitário, com responsabilidades de assistência, ensino e pesquisa. Quais medidas o senhor considera necessárias para fortalecer essa integração e evitar que uma área avance em detrimento da outra?
Dr. Plínio Monteiro – Esta é exatamente a razão principal de adotarmos uma visão sistêmica na nossa instituição, dadas as diversas dimensões de nossas atividades que precisam estar integradas e coordenadas. Um hospital de ensino não pode negligenciar sua função assistencial, pois faz parte da Rede de Atenção à Saúde (RAS) e deve prestar assistência de qualidade e permitir arqueado acesso da população aos seus serviços, que no caso de HUGV são de média e alta complexidade. Assistência de qualidade é uma excelente maneira de garantir ensino, pesquisa e inovação de alto nível e permitir que profissionais bem formados prestem igualmente assistência de excelência: trata-se de um ciclo virtuoso, no qual ações positivas se realimentam e criam um processo de melhoria contínua.
RT1 – O hospital acabou de receber uma reforma importante no Ambulatório Araújo Lima. Quais outras intervenções estruturais estão previstas para melhorar a infraestrutura e a experiência de pacientes e profissionais?
Dr. Plínio Monteiro – Precisamos aumentar nosso número de leitos ativos e isso deve se refletir na ampliação dos serviços existentes e na criação de novos serviços. Devemos investir em novas salas de cirurgias com aquisição de modernos equipamentos, permitindo realizarmos de forma segura mais procedimentos cirúrgicos em ortopedia, neurocirurgia, cirurgias do aparelho digestivo, cirurgias ginecológicas, entre outras. Estamos investindo na ampliação do nosso serviço de hemodiálise e na reestruturação de nosso serviço de cirurgia vascular e hemodinâmica, duas áreas de grandes demandas em nosso sistema de saúde estadual.
RT1 – A gestão de recursos humanos é um dos grandes gargalos da saúde pública. Como o senhor pretende enfrentar problemas como sobrecarga de trabalho, déficit de profissionais e valorização das equipes?
Dr. Plínio Monteiro – A otimização dos recursos humanos passa necessariamente pelo adequado dimensionamento dos funcionários em cada um dos setores do hospital, evitando subutilização ou sobrecarga. Uma elevada taxa de absenteísmo (faltas ao trabalho) pode refletir adoecimento crônico de nossas equipes e precisamos entender e enfrentar esse problema, que adquiriu escala durante e após a pandemia de Covid-19. São pessoas que cuidam de outras pessoas e nós precisamos cuidar de nossas pessoas. As necessárias contratações, sobretudo para novos serviços como a pediatria, devem ser garantidas e efetivadas durante a nossa gestão.
RT1 – O HUGV tem papel estratégico não apenas em Manaus, mas para toda a Amazônia Ocidental, atendendo inclusive populações indígenas e comunidades remotas. Como o senhor pretende adaptar a atuação do hospital às particularidades regionais?
Dr. Plínio Monteiro – O Amazonas é um estado de dimensões continentais e com perenes problemas de logística. Isso dificulta sobremaneira os acessos aos serviços de saúde ofertados pelo SUS, sobretudo para os cidadãos que moram em municípios distantes de Manaus, onde se concentra a maioria das instituições de saúde de maior complexidade e melhor resolutividade. No HUGV estamos investindo, ampliando e aprimorando nossos serviços de assistência remota, por meio da estratégia de telessaúde e telemedicina, com ênfase na assistência às populações tradicionais, ribeirinhos e indígenas, fazendo com que nossas ações cheguem a todos os municípios do Estado por meio de parceirias com as prefeituras e secretarias municipais de saúde. Recentemente realizamos uma oficina para capacitação em telessaúde com profissionais que atuam na atenção à saúde indígena de diversos municípios próximos à capital. O HUGV é um hospital estratégico e de referência para o SUS e precisa cumprir sua função social de forma exemplar e qualificada.
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