O estudo da Universidade de São Paulo (USP) quantificou impactos do desmatamento e das mudanças climáticas globais sobre o clima da Amazônia brasileira pela primeira vez.
Os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e uma elevação maior da temperatura e indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana.
Este é um fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão. Isso resulta em condições mais secas. Estas condições podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, agravam a situação.
Como o desmatamento está elevando o calor e reduzindo as chuvas na Amazônia
O período de análise, publicado na revista Nature Communications, foi de 35 anos, entre 1985 e 2020 e revelou que o desmatamento é responsável por cerca de 74,5% da redução das chuvas.
O desmatamento é responsável por 16,5% do aumento da temperatura do bioma. Isso acontece nos meses de seca. As chuvas na estação seca apresentaram uma diminuição de cerca de 21 milímetros por ano. O desmatamento contribuiu para uma diminuição de 15,8 mm.
A temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C. A perda florestal atribui 16,5% desse incremento. As mudanças climáticas globais atribuem o restante do aumento da temperatura.
De acordo com Luiz Augusto Toledo Machado, professor e pesquisador do Instituto de Física da USP e também é colaborador do Instituto Max Planck na Alemanha, o estudo conseguiu separar os efeitos das mudanças climáticas.
Estas mudanças são causadas principalmente pela poluição de países do Hemisfério Norte. Ele também separou os efeitos do desmatamento provocado no Brasil. Machado resumiu: “Praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”.
A importância da floresta em pé
A pesquisa mostrou que a conservação da floresta em pé mantém a resiliência climática. Isso é importante. Os resultados indicam que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.
A Amazônia tem um papel importante na regulação do clima global. Ela é a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo. A Amazônia é responsável pelos “rios voadores”, cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera. Eles abastecem outros biomas, como o Cerrado.
No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas. Isso provoca a intensificação da estação seca em escala local. Também aumenta os períodos de incêndios florestais. Dados do MapBiomas indicam que a Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023. Essa área corresponde a 553 mil km². A pastagem foi a causa principal no período.
A estação seca ocorre entre junho e novembro. Neste período, os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.
Os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície. Eles consideraram as variações anuais e do desmatamento. Isso permitiu separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Eles também usaram conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo. As classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas foram incluídas.
O grupo analisou dados de gases de efeito estufa. O estudo concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO₂) e de metano (CH₄) foi impulsionado pelas emissões globais. Isso representa mais de 99%. Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO₂. Para CH₄, houve uma alta de aproximadamente 167 partes por bilhão (ppb).
Machado explica que a concentração de CO₂ é algo em grande escala. O aumento é predominantemente devido às emissões globais. Ele menciona que outros artigos mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade da floresta de retirar CO₂ da atmosfera. Mas estes eram medições locais de fluxo de CO₂.
A pesquisa apresenta resultados para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30) que acontecerá em novembro em Belém e analisou dados ambientais de aproximadamente 2,6 milhões de km² na Amazônia Legal brasileira.