Cynthia Rocha Mendonça, assessora jurídica do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), ativista de direitos humanos e especialista no enfrentamento à violência de gênero, participou da Sessão Temática de Debates promovida pelo Senado Federal, nesta terça-feira (26/08), sobre feminicídio e violência contra a mulher.
Autora do livro “Feminicídio: uma Análise a partir das Ações da Rede Rosa no Combate à Violência contra a Mulher na Cidade de Manaus” e idealizadora e colaboradora na criação do aplicativo Ronda Maria da Penha, Cynthia levou ao plenário um retrato da realidade amazônica — marcada pelo isolamento geográfico, e pela urgência de respostas estruturadas. Ela foi convidada pela senadora Leila Barros (PDT-DF) e indicada pelo senador Omar Aziz (PSD-AM).
Segundo ela, o estado do Amazonas registrou, em 2024, 29 feminicídios consumados e 98 tentativas. Também mencionou o aumento dos casos de estupro de vulnerável contra meninas.
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“Casos de estupro de vulnerável contra meninas vêm crescendo de forma alarmante. Em boa parte dos municípios, só é possível chegar de barco. Nessas áreas, o medo não é simbólico: é arma carregada. Denunciar vira uma sentença de morte”, destacou.

Brasil registra 4 feminicídios por dia; mulheres negras são as maiores vítimas
Com base no Mapa Nacional da Violência de Gênero, atualizado em agosto de 2025, Cynthia informou que 718 mulheres foram assassinadas no país até junho – uma média de quatro mortes por dia motivadas unicamente pelo fato de serem mulheres.
Em 64% dos casos, os crimes ocorreram na residência da vítima, e em quase 80%, os autores foram companheiros ou ex-companheiros. A maior parte das vítimas é composta por mulheres negras entre 18 e 44 anos.
Casa Flutuante da Mulher Brasileira: uma proposta pensada para os rios da Amazônia
Inspirada na estrutura da Casa da Mulher Brasileira, Cynthia apresentou no Senado a proposta da Casa Flutuante da Mulher Brasileira — um centro móvel de atendimento que deverá levar acolhimento jurídico, psicológico, médico e social às mulheres que vivem em comunidades ribeirinhas e de difícil acesso.
A embarcação, segundo ela, teria delegacia, Defensoria Pública, Ministério Público, IML, espaço de abrigamento temporário e áreas para geração de renda, funcionando como uma estrutura de acolhimento completo para mulheres em situação de risco.
“Nossas estradas são os rios. Existem mulheres que levam dias para chegar ao município mais próximo e, quando chegam, não encontram atendimento. A Casa Flutuante é uma resposta concreta, pensada a partir das escutas reais de quem está na linha de frente”, explicou.
Aplicativo Ronda Maria da Penha: tecnologia para proteger e prevenir
Mendonça também relatou a criação do Aplicativo Ronda Maria da Penha, desenvolvido a partir de seu projeto de mestrado e lançado em 2023 pelo Tribunal de Justiça do Amazonas, em cooperação com a Polícia Militar.
A ferramenta tem como finalidade monitorar o cumprimento de medidas protetivas e informatizar a coleta de dados, que antes era realizada de forma manual.
O aplicativo é voltado para uso policial e permite o envio de informações para o banco de dados do TJAM, contribuindo para a análise de lacunas na implementação da Lei Maria da Penha. Os dados também são utilizados pelo Conselho Nacional de Justiça e outros órgãos responsáveis por políticas públicas.
Encerramento com apelo por ações coordenadas
Encerrando sua fala, Cynthia foi enfática: “Não é possível enfrentar o feminicídio com respostas genéricas”, destacou.
Segundo ela, é necessária uma articulação nacional, federativa, transversal, que ouça as mulheres e transforme suas demandas em ações concretas.
“Que nenhuma mulher seja silenciada pelo descaso. Que nenhuma menina seja deixada à própria sorte pela omissão do Estado. Por todas que partiram. Por todas que vivem com medo. Por todas que precisam de nós. Nenhuma mulher a menos.”, finalizou.
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