quarta-feira, 23 de setembro de 2026

IBGE revela desigualdade de gênero no Brasil: enquanto mulheres cuidam, homens descansam

COMPARTILHE
Desigualdade nas atividades domésticas entre homens e mulheres.

Dados do IBGE mostram que as mulheres brasileiras dedicam duas vezes mais tempo que os homens às tarefas domésticas e de cuidado.

Enquanto elas chegam a gastar 13,6% do tempo diário nessas atividades, os homens não ultrapassam 6,3%. A diferença, presente em todos os estados, revela uma desigualdade silenciosa, ainda naturalizada na estrutura social e econômica brasileira.

No Amazonas, as mulheres dedicam entre 9% e 11% de seu tempo diário às atividades domésticas e de cuidado, o que coloca o estado dentro da média observada na Região Norte.

Embora esse percentual seja inferior ao de estados como Alagoas, onde as mulheres chegam a 13,6%, a realidade amazonense ainda reflete a carga desigual de trabalho não remunerado, especialmente quando comparado ao tempo dedicado pelos homens, que é significativamente menor.

O levantamento, com base na PNAD Contínua 2022 e ajustado às recomendações da ICATUS e da 19ª Conferência Internacional de Estatísticos do Trabalho, mensura o tempo diário dedicado ao trabalho doméstico e de cuidado a partir da jornada semanal.

A metodologia divide essa carga por sete dias e, depois, por 24 horas, chegando à proporção do dia ocupado por trabalho não remunerado.

Embora o Brasil não tenha uma pesquisa oficial regular sobre o uso do tempo, o dado do IBGE já é suficiente para revelar o desequilíbrio na divisão das responsabilidades privadas.

Cozinhar, limpar, lavar roupa, cuidar de filhos, idosos e pessoas com deficiência são tarefas essenciais que estruturam a vida cotidiana, mas seguem invisíveis nas contas públicas e negligenciadas pelas políticas de proteção social.

A desigualdade é diária e nacional

Em todos os estados brasileiros, o percentual de tempo diário dedicado por mulheres a essas tarefas é mais que o dobro do registrado entre os homens.

No Rio de Janeiro, onde os homens apresentam o maior índice (6,3%), as mulheres ainda dedicam mais de 12% do tempo às mesmas funções.

Em Alagoas, as mulheres ocupam a maior porcentagem do país: 13,6% do dia com afazeres não remunerados, o equivalente a mais de 3h15min por dia. Enquanto isso, homens de vários estados não ultrapassam os 5% de tempo diário, com médias inferiores a 1h30min por dia.

Mesmo nos estados com melhores indicadores relativos, como Santa Catarina e São Paulo, o descompasso permanece evidente.

A geografia do cuidado no Brasil revela que, além da renda, da cor e da escolaridade, o tempo também se configura como um marcador de desigualdade.

Quando o tempo é tomado, a igualdade é adiada

A sobrecarga feminina compromete diretamente o acesso à educação, à qualificação profissional e à permanência no mercado de trabalho.

Estudos apontam que mulheres que acumulam trabalho remunerado e não remunerado enfrentam jornadas duplas ou triplas, muitas vezes sem qualquer apoio institucional, o que impacta negativamente suas oportunidades de avanço profissional e seu bem-estar.

Além disso, a falta de tempo para descanso e lazer também limita a participação política, criando um ciclo de desvantagens em diversas esferas da vida social.

A divisão sexual do trabalho, que considera o cuidado como responsabilidade exclusiva das mulheres, se mantém como base estrutural de desigualdades sociais, econômicas e raciais no Brasil.

O tempo gasto com essas tarefas, embora indispensável, não é contabilizado nas estatísticas econômicas formais, o que reforça sua invisibilidade.

Leia mais:

COMPARTILHE