sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Muito além da fantasia: a história de quem dá movimento ao símbolo do Carnaval de Manaus

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Arivaldo Canizo, há 17 anos como tripa da Kamélia, mantém viva a tradição que abre oficialmente o Carnaval de Manaus. (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)

Quem participa do Carnaval de Manaus certamente já ouviu falar da boneca Kamélia. Figura tradicional das festividades, sua história remonta a 1938, quando um dirigente do Olímpico Clube trouxe uma boneca comprada na Bahia para o desfile carnavalesco da capital amazonense.

Com o tempo, Kamélia se tornou parte essencial da celebração, abrindo oficialmente as folias da cidade.

A tradição de iniciar o Carnaval com a chegada da boneca foi consolidada em 1955, por iniciativa do então prefeito Walter Rayol.

Três anos depois, em 1958, ela recebeu, pela primeira vez, a chave da cidade das mãos do ex-prefeito Gilberto Mestrinho, instituindo uma cerimônia que se perpetua há mais de oito décadas.

Em reconhecimento à sua importância, a chegada de Kamélia é considerada patrimônio cultural imaterial do Estado do Amazonas.

A primeira Kamélia media apenas 75 centímetros de altura e foi adquirida na loja ‘4 e 400’, na Bahia, por quatro mil réis.

Sua estreia aconteceu no tradicional Bar Avenida, então localizado na esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua Saldanha Marinho, no Centro de Manaus. Com o passar dos anos, a boneca cresceu em dimensões e hoje atinge quase três metros de altura.

A boneca foi inspirada na famosa marchinha ‘Jardineira’, de Benedito Lacerda, e sua chegada é celebrada com um grande baile, relembrando os antigos carnavais de salão, com marchinhas, frevos e samba. Receber a chave da cidade simboliza a abertura oficial das festividades carnavalescas na capital.

Tradicionalmente, a Kamélia desembarca em Manaus no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, dando início ao período momesco.

Seu impacto na cultura local é tão significativo que a Escola de Samba Império da Kamélia foi batizada em sua homenagem, reafirmando sua presença marcante no imaginário popular e na história do Carnaval manauara.

Mas quem dá vida à Kamélia?

Por trás da Kamélia está Arivaldo Canizo, o “tripa” que conduz a boneca há 17 anos. Sua relação com a Kamélia começou cedo, pois seu pai também assumiu esse papel por uma década, entre 1998 e 2008.

A tradição, passada de pai para filho, consolidou Arivaldo como o rosto invisível dessa icônica personagem do carnaval manauara.

“Eu cresci dentro do Olímpico Clube e sempre tive curiosidade de dançar debaixo da Kamélia. Em 2007, finalmente realizei esse desejo e acabei adorando. Insisti muito com meu pai para que me deixasse assumir o papel e, em 2009, ele me passou a Kamélia quando eu tinha entre 11 e 12 anos”, conta Arivaldo.

Arivaldo Canizo dá vida à Kamélia no Carnaval de Manaus. (Foto: Arquivo pessoal)

Com o passar dos anos, a tradição foi se adaptando.

“Antes, a Kamélia chegava de barco pelo Porto de Manaus. Hoje, ela desembarca de avião e a recepção acontece à noite, facilitando a participação dos foliões”, explica.

Para Arivaldo, a boneca tem ganhado mais reconhecimento com o tempo, sendo cada vez mais valorizada pela mídia e pelos amantes do carnaval.

A experiência de estar dentro da boneca ainda causa frio na barriga, mesmo após tantos anos.

“Cada ano é uma emoção diferente. Em 2023, por exemplo, estivemos no Rio de Janeiro com a Kamélia, onde fomos muito bem recebidos. Saber que a boneca abre oficialmente o Carnaval de Manaus e que isso é lei me dá ainda mais orgulho de carregar essa tradição”, diz.

Entre os momentos mais marcantes, ele destaca seu primeiro desfile no Sambódromo, em 2009.

“Eu tinha 12 anos e desfilei com a Kamélia em cima de um carro alegórico. Foi uma responsabilidade enorme para mim, uma criança na época, mas tudo correu bem. Foi ali que a diretoria do Olímpico viu que eu deveria ser o tripa oficial”, relembra.

Quanto ao futuro, Arivaldo não pretende deixar o posto tão cedo.

“Meu pai dançou até os 41 anos e eu ainda tenho muito tempo para continuar. Vejo a Kamélia crescendo cada vez mais, sendo reconhecida não só no Amazonas, mas em todo o Brasil. Enquanto eu puder, estarei ali, mantendo essa tradição viva”, conclui.

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