A pesquisa AtlasIntel para prefeito de Manaus, divulgada na última sexta-feira (26/4), repercutiu negativamente ao longo de todo o final de semana no meio político manauara. Estatísticos e analistas levantaram suspeitas sobre a coleta dos dados, o critério de exclusão das entrevistas realizadas no período de 18 a 23 de abril e, consequentemente, sobre o resultado final da pesquisa.
Após ter recebido a informação de que cabos eleitorais estariam “votando” em massa, aproveitando o questionário disponibilizado em link aberto na internet, o RealTime1 confirmou a possibilidade com jornalistas da própria redação, que conseguiram votar duas vezes com o mesmo IP e em equipamentos diferentes.
Grupos políticos teriam arregimentando mais de cinco mil respondentes reutilizando o mesmo link do questionário, colocando em suspeição a aleatoriedade do levantamento.
Apesar do índice de acertos nas eleições presidenciais na Argentina, onde a AtlasIntel antecipou com precisão os resultados do 1⁰ e 2⁰ turnos, em Manaus a pesquisa vem recebendo diversas críticas. Há quem diga que até mesmo Amom Mandel, David Almeida e Capitão Alberto Neto, os três primeiros colocados, foram surpreendidos com os números divulgados.
A suspeita “reside” não só na coleta de dados, cujo questionário também foi disponibilizado em busca permitindo a “participação ativa” de qualquer pessoa ou de grupos de pessoas e sobre qual o critério de exclusão das entrevistas, mas sobre o processo de “eliminação” de milhares de questionários excedentes para somente 800, total de entrevistas informado no registro da pesquisa.
Metodologia questionada: pesquisa ou enquete?
Segundo um especialista em segurança da informação consultado pelo RealTime1, apesar de a AtlasIntel afirmar que a “metodologia da coleta aleatória faz com que o processo seja bem-sucedido, já que faz um processo de ajuste amostral para garantir que a metodologia se torne semelhante à distribuição da população brasileira”, se o questionário pode ser respondido por iniciativa do usuário, no caso de reutilização do link de votação, então um grupo organizado pode gerar viés ao responder, por sua iniciativa, massivamente o questionário.
“Penso que a tecnologia pode de deve ser usada para esse fim, mas temos que separar uma pesquisa estatística de uma votação/enquete. Para isso é fundamental que a entrevista não possa acontecer por iniciativa do entrevistado”, reforça.
A afirmação é confirmada por um cientista político consultado pelo RealTime1, ao abrir a pesquisa para que qualquer um possa responder, a pesquisa fugiu do aleatório e candidatos podem ter direcionado cabos eleitorais para responder o questionário, o que pode ter “bagunçado” todo o plano amostral da pesquisa.
Violação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais?
Sobre a utilização da verificação da pesquisa por “token”, o especialista em segurança da informação também faz críticas.
“O token é um número que estatisticamente não repete, portanto é único, e pode ser armazenado no equipamento do usuário o que permite que ele vote em outro equipamento, ou pode ser associado a dados pessoais o que levanta a suspeita de que eles têm dados pessoais. No primeiro caso não há garantia de que uma pessoa não votará duas vezes, na segunda se o usuário não autorizar o uso de seus dados pessoais pode estar violando a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)”.
Mais simples do que o token, segundo ele, seria exigir o CPF ou Título de Eleitor, e marcar ele como “já votou”, mas não pode estar vinculado a um questionário respondido senão poderíamos saber quais as respostas de cada entrevistado.
Divergência de números entre a pesquisa e o registro
Além do número de entrevistados, que no registro da pesquisa AtlasIntel seria de 800 eleitores e não de 825 respondentes, os números consolidados de todas as variáveis indicadas pela empresa no documento anexado após realizada a pesquisa no sistema PesqEle, da Justiça Eleitoral, são divergentes. A empresa não fez Nota Técnica explicando o motivo.
Na variável gênero, por exemplo, a AtlaIntel entrevistou 50,8% de mulheres e 49,2% homens, diferente do percentual de eleitores de Manaus, que é de 53% de mulheres e 47% de homens.
A variável “Renda Familiar” mensal também foi a que mais apresentou distorção entre o registrado e o pesquisado. No registro, a empresa afirmou entrevistar 16% de eleitores com renda familiar mensal de “Mais de R$ 5 mil a R$ 10 mil”, mas entrevistou apenas 11,2% .
Os percentuais das variáveis “Escolaridade” e “Faixa Etária” também apresentam divergências.
Confira as divergências entre o registro e a pesquisa:
No quadro abaixo, é possível observar as diferenças entre o registrado e o que foi feito, apresentando uma miscelânea de contradições.

Pesquisa também apresenta distorções com relação aos bairros
A pesquisa também apresenta distorções absurdas com relação a quantidade de entrevistas por bairros/zona administrativa da cidade.
Na Zona Leste, por exemplo, deixaram de ser feitas 121 entrevistas. Já na zona Centro Sul, foram feitas 119 entrevistas a mais.
Confira a diferença entre os dados censitários mais atualizados divulgados pelo IBGE – que deveriam ter sido utilizados pela empresa – e o número de entrevistas realizadas pela AtlasIntel por bairro/zona.
Confira a diferença no quadro abaixo: