Pesquisa eleitoral registrada pelo Instituto de Pesquisa do Norte Ltda (Ipen), no dia 24 de março sob o número AM-01476/2024 para prefeito de Manaus, não foi divulgada até o o início da tarde desta terça-feira (2).
A previsão era que a pesquisa tivesse seus números divulgados no último sábado (30/03), conforme registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No entanto, especula-se que os resultados não sejam divulgados, o que não configura ilícito eleitoral. O proibido é o inverso: divulgar pesquisa sem o devido registro.
Como tem feito com todas as pesquisas registradas em 2024 para captar a intenção de votos para prefeito de Manaus – já foram realizadas análises das pesquisas InnQuesti, Listenning e Pontual -, o RealTime1 fez uma análise inicial da pesquisa Ipen a partir das informações registradas. Caso a pesquisa seja divulgada, será feita uma análise mais detalhada, considerando também o relatório final.
Sobre o financiamento da pesquisa Ipen
A pesquisa Ipen previu entrevistar 1.000 eleitores da cidade de Manaus no período de 25 de março a 03 de abril a um custo de R$ 18.800,00 e foi financiada com recursos próprios da empresa.
A nova resolução da Justiça Eleitoral determina que a empresa precisará apresentar ao TSE, ao final do pleito, a Demonstração de Resultado do Exercício (DRE) do ano anterior, para comprovar que tinha recurso em caixa para arcar com o custo da pesquisa.
Com a inclusão dessa obrigatoriedade, sugerida pela Associação das Empresas de Pesquisa (Abep), empresas tem evitado autofinanciar pesquisas eleitorais, sendo mais recomendado buscar financiadores para que não sejam questionadas mais adiante pela Justiça Eleitoral.
Sobre o questionário da pesquisa Ipen
O questionário elaborado pelo Ipen apresenta ao entrevistado cenários inexistentes e improváveis e comete pelo menos quatro equívocos:
Equívoco 1: Inclui o nome do ex-prefeito Arthur Virgílio como pré-candidato à prefeito;
Equívoco 2: Inclui o nome de Carol Braz que, assim como Arthur, em nenhum momento colocou seu nome à disposição da disputa;
Equívoco 3: Inclui o nome do Coronel Menezes, que não será candidato à prefeito;
Equívoco 4: Inclui nomes de dois candidatos de um mesmo partido: Anne Moura e Zé Ricardo, ambos do PT. Além de irreal, o resultado da pesquisa pode alterar, de maneira equivocada, a força de um partido, pois dividirá os votos da legenda.
Segundo especialistas, “pesquisa é uma radiografia do momento, e a boa fotografia no caso de uma pesquisa eleitoral nesse período, deve captar os sinais públicos dos partidos políticos”. Incluir nomes que não espelham a conjuntura política atual, não faz sentido e não contribui para o objetivo da pesquisa: captar a intenção de votos dos eleitores.
Confira o questionário do Ipen:
A eleição para prefeito de Manaus provavelmente terá 9 pré-candidatos. Sete deles já anunciados: Amom Mandel, David Almeida, Capitão Alberto Neto, Maria do Carmo Seffair, Roberto Cidade, Israel Tutuka e Wilker Barreto.
As Federações PT/PV/PCdoB e Psol/Rede, que também concorrerão às eleições, ainda não tiveram seus candidatos definidos.
Base de dados desatualizada
Para a amostra por zonas e bairros da cidade, a empresa utilizou o Censo de 2010, desconsiderando os dados divulgados pelo IBGE no dia 21 de março referente à população residente e aos domicílios por setores censitários.
Para evitar deformidades, empresas especializadas em pesquisas eleitorais utilizam sempre os dados mais atualizados nas cinco variáveis exigidas pela Justiça Eleitoral para seus levantamentos: Sexo, Idade, Grau de Instrução, Nível Econômico e Bairro.
Censo 2010 x Censo 2022
No quadro abaixo é possível observar a diferença no número de eleitores por zona da cidade definido pela pesquisa Ipen utilizando os dados do Censo de 2010 e, o número de eleitores se fossem utilizados os dados divulgados em março pelo IBGE (Censo de 2022).

Na Zona Norte e Leste, as duas maiores zonas de Manaus, 103 eleitores deixaram se ser entrevistados: 60 na Zona Norte e outros 43, na zona Leste.
Na Zona Sul, observa-se o inverso: foram selecionados 71 entrevistados a mais.
Distorção de 25,2% na amostra de bairros
Ao fazer o comparativo por bairros é possível observar que em 20 bairros selecionados para a pesquisa foram entrevistados 126 eleitores a mais e em outros 17 bairros, 126 eleitores a menos.
Uma distorção em quase metade do número de entrevistados dos 41 da amostra selecionada.
Ao realizar 126 entrevistas a mais em alguns bairros e outras 126 entrevistas a menos em outros, o resultado são 252 entrevistas “enviesadas” no universo de 1.000 entrevistas propostas, o que representa uma deformidade de 25,2% de sua totalidade.
Confira no quadro abaixo:

Para a produção desse quadro, que utilizou os dados Censitários divulgados pelo IBGE no último dia 21 de março, o RealTime1 contou com a colaboração de um profissional de geoprocessamento e de um matemático.
Foram consideradas a divisão de bairros de acordo com as zonas administrativas definidas no Plano Diretor da Manaus, cuja última atualização é de 2021.
Margem de Erro x Variáveis de Controle
Utilizar fontes desatualizadas para as variáveis de controle pode apresentar algumas diferenças bem acima da margem de erro prevista, que no caso da Pesquisa Ipen, é de 3,1%.
Como contribuição, o RealTime1 fez uma análise comparativa com números das variáveis de controle utilizando as bases de dados mais atualizadas disponíveis e a utilizada pelo Ipen onde fica claro que o uso de dados desatualizados, alguns com quase 12 anos de defasagem, tende a extrapolar de forma significativa a margem de erro da pesquisa.

A maior diferença verificada é na variável escolaridade: de -10,43% entre os eleitores Analfabeto/lê escreve/Ensino Fundamental Incompleto e de + 6,32% entre os eleitores com Ensino Superior Incompleto/Completo.
Ao associar um questionário mal estruturado, com cenários irreais; uma distribuição mal feita de bairros e zonas; e também uma distorção nas variáveis de controle, independente da metodologia a ser utilizada por uma pesquisa, o estudo já vem comprometido em seu início.