Belém e Manaus, as duas maiores capitais da Região Amazônica, são as cidades com o menor percentual de arborização urbana entre 15 cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes, segundo estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo foi realizado em 96,9% dos domicílios urbanos durante a pré-coleta do Censo 2010, com o objetivo de conhecer a infraestrutura urbana brasileira. Manaus aparece em segundo.
Segundo o IBGE, Belém registrou o menor percentual entre os 15 municípios citados, com 22,4% do entorno dos domicílios com alguma árvore ao redor, em área pública. Em segundo, aparece a capital amazonense, com 25,1%. O estudo não contou as árvores dentro das residências ou áreas particulares.
Esses resultados não deveriam causar estranheza. Não terminara fevereiro deste ano e o desmatamento na Amazônia Legal já batera o recorde de alertas, segundo o levantamento da plataforma Terra Brasilis, que usa ferramenta de medição desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpe).
O desmatamento se dá em duas frentes: a da expansão do agronegócio e das atividades ilegais de madeireiras, mineradoras e garimpos, por exemplo. A segunda ocorre pela atração imediata que as cidades dessas regiões exercem com o aceno nem sempre verdadeiro de “oportunidades de bem viver” – esta é a oportunidade para os negócios legais da expansão imobiliária e da proliferação de favelas e assentamentos.
Essa duas frentes “quentes”, que não têm nada a ver com La Niña e El Niño, alteram sensivelmente a temperatura das cidades da região e impactam a cidade de Manaus, capital do Amazonas, fundada há mais de 300 anos, no centro da Amazônia Legal, na confluência dos rios Negro e Solimões. O setor imobiliário é um dos pontos da riqueza da capital amazonense.
Mercado imobiliário também precisa estar comprometido
No ano passado, em entrevista a Caio Fonseca do RealTime1, o diretor da Comissão da Indústria da Construção da (Ademi-AM), Henrique Medina, confirmou que a pesquisa “Indicadores Imobiliários do Amazonas” do 3º trimestre de 2022 apontara um montante de R$ 422 milhões em vendas, “até o momento, o melhor trimestre do ano e o maior da série histórica, desde 2017”. Em comparação com o mesmo período do ano de 2021, quando o mercado vendeu R$274 milhões, houve um crescimento de 54%.
Diante desses números, e não tirando de vista a situação dramática do processo de ocupação da Amazônia, tem-se a pressa de comprometer a indústria imobiliária com o desmatamento e o consequente aumento dos termômetros a índices insuportáveis, principalmente para os nativos.
Não é bem assim. A causa dos desastres ecológicos e ambientais está no modus operandi desse crescimento e na inobservância dos procedimentos legais, que as governanças, entusiasmadas com a fartura de “emprego e renda” momentânea praticam, despreocupadas com as consequências futuras, a cada momento mais repetitivas e desastrosas.
Tamanhos perdidos que impressionam
Levantamento feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) diz que, com a expansão populacional e urbana, Manaus perdeu 29 km² de floresta nativa em 10 anos. “É como se a capital do Amazonas tivesse perdido 347 Arenas da Amazônia, o maior estádio do Estado”.
De janeiro de 2013 a setembro de 2023, áreas de mata de Manaus foram dando lugar ao desmatamento. O professor de Matemática Daniel Sombra, citado pelo Imazon, comparou os 29 km² perdidos com o tamanho do bairro Cidade Nova, um dos maiores da cidade.
Os dados indicam que Manaus perdeu o equivalente a dois bairros do tamanho da Cidade Nova. O bairro tem 1.419,38 hectares de área total. Quando esse número é transformado para km², o tamanho da região é 14,1938 km², metade do quanto a capital amazonense perdeu de floresta em uma década. Segundo Daniel Sombra, a área desmatada também corresponde a 347 Arenas da Amazônia, estádio que recebe jogos de futebol e outros grandes eventos.
No estudo “A expansão urbana e demográfica da cidade de Manaus e seus impactos ambientais” realizado por Ana Cláudia Fernandes Nogueira, Fábio Sanson e Karen Pessoa, do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas – Ufam (2021), resgatam uma observação crítica de Ermínia Maricato (professora de Arquitetura e Urbanismo da USP), no livro “A cidade do pensamento único”: “Não é por falta de Planos Urbanísticos que as cidades brasileiras apresentam problemas graves.
Não é também, necessariamente, devido à má qualidade desses planos, mas porque seu crescimento se faz ao largo dos planos aprovados nas Câmaras Municipais, que seguem interesses tradicionais da política local e grupos específicos”. Sem árvores, sem a abundância de igarapés e uma cobertura generosa de asfalto e de desgovernança.
Com esse desempenho, Manaus logo superará seus próprios recordes, mas não poderá orgulhar-se disso. Mais do que um convite aos gritos de “vote em mim”, um ano eleitoral, como este, deveria aproveitar o mormaço e pensar melhor a cidade.
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