Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), referentes ao Censo 2010, mostram que apenas 26.3% dos domicílios urbanos em vias públicas de Manaus contam com urbanização adequada.
O IBGE considera urbanização adequada a presença de bueiros, calçadas, pavimentação e meio-fio.
Quando comparado com os outros municípios brasileiros, Manaus fica na posição 1441 entre as 5570 cidades do país.
Entre os municípios do Amazonas, a capital ocupa a sexta colocação no quesito urbanização de vias. Já na comparação entre as capitais da região norte, Manaus fica atrás de Palmas e de Belém.
Com relação ao esgotamento sanitário o número é um pouco melhor, porém a cobertura ainda está longe do ideal. Pelos números do IBGE, Manaus apresenta 62.4% de domicílios com esgotamento sanitário adequado.
Crescimento desordenado
O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU/AM), Jean Faria, explica que a raiz deste problema está na forma como a cidade cresceu, principalmente após a implantação da Zona Franca de Manaus, em 1967.
Ele lembra que, com o advento da ZFM, o número de habitações em Manaus triplicou nas décadas seguintes e a cidade passou a crescer de forma totalmente desordenada.
“Na época da implantação da Zona Franca de Manaus, saímos de uma população com pouco mais de 100 mil habitantes para uma população de 300 mil habitantes. E isso se reflete até hoje”, ressalta.
Segundo ele, “os bairros não são planejados, eles acontecem. Quando os bairros acontecem não se tem a implantação de saneamento. Primeiro eles acontecem, e depois o poder público precisa fornecer água, energia, esgoto”.
No entanto, historicamente, os governos não investem nesse tipo de infraestrutura, explica, lembrando que “se formos buscar, pouquíssimos prefeitos fizeram alguma intervenção em termos de esgotos. Por isso temos esse número tão ruim”.
Iniciativa privada também é responsável
Por outro lado, o presidente do CAU lembra que a iniciativa privada também teria que ter um papel importante neste processo.
A empresa concessionária de água teria, por força do contrato assinado com o governo do estado, a obigação de implantar anualmente um percentual de esgotamento sanitário, o que não foi feito.
Outro exemplo são os grandes empreendimentos que, segundo Jean Faria, são obrigados pela prefeitura implantar estações de tramento de esgotos (ETEs) em seus prédios, mas essa obrigação também não é devidamente fiscalizada pelo poder público.
“Devido todos esses motivos temos esse caos que é o nosso sistema de esgotamento sanitário, com praticamente todos os dejetos sendo jogados nos igarapés. Vejo o crescimento da cidade de forma totalmente irregular, sem fiscalização de órgãos públicos, seja ele prefeitura, seja ele estado. Quanto mais espalhada é a cidade, como no nosso caso, mais difícil se torna a urbanização e o reflexo acaba sendo esses números tão ruins”, lamentou.
É possível reverter o quadro?
Mas apesar dos números lamentáveis, Jean Faria acredita que é possível reverter com um planejamento sério e e trabalho contínuo.
“Não estou me referindo à prefeitura A ou prefeitura B. São obras trabalhosas, caras e, além disso, existe a percepção de que obra enterrada não dá voto. Mas se isso não for feito, em breve teremos problemas ainda maiores”, alerta o presidente do CAU/AM.
Reportagem: Lucas Raposo