A Polícia Federal começou a digitalizar e cruzar as informações sobre o grupo de empresários dos setores varejista e exportador suspeitos de envolvimento na extração, comercialização e exportação de ouro ilegal extraído da Terra Indígena Yanomami, entre Roraima e Amazonas.
As informações foram coletadas após a realização de três operações simultâneas: Eldorado, Emboabas e Lupi, que cumpriram 5 mandatos de prisão e 61 de busca e apreensão em oito Estados: Amazonas, Goiás, Tocantins, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Pará, Distrito Federal.
O foco deste trabalho se deslocou pela primeira vez dos garimpeiros que atuam diretamente nas Terras Indígenas (TIs) e, são facilmente capturados nas operações de campo, para os grandes empresários que lucram com a desgraça dos indígenas e a destruição do meio ambiente.
Uma das pontas desse novo foco é o grupo de varejistas de Manaus que vendia mercadorias para o garimpo e recebia como pagamento o ouro extraído ilegalmente das terras indígenas. Ato contínuo, o grupo revendia para receptadores que “esquentavam” a documentação para dar aparência de legal ao ouro e tirá-lo do Brasil por meio de “laranjas”.
Entre os investigadores está o maior varejista de Manaus, o Mercantil Nova Era, dono das bandeiras Nova Era e Pátio Gourmet. A empresa entregava produtos alimentícios e de higiene e limpeza e trazia o pagamento em ouro escondido nos porões de caminhões, conforme a Polícia Federal.
Ao Realtime1, o Mercantil Nova Era encaminhou a seguinte nota:
“A Distribuidora Mercantil Nova Era informa que a ação realizada pela Polícia Federal, na última quarta-feira (20), na dependência administrativa da empresa, teve a finalidade de coletar informações relacionadas a exportações. A empresa garantiu todo acesso às documentações e está colaborando com a investigação.
Com 42 anos de mercado, operando dentro da legislação vigente, prezando sempre pela transparência e honestidade, o mercantil possui total interesse em esclarecer o assunto e mostrar, dessa forma, que atua dentro da legalidade”.
Multioperações em escritórios da elite
As três operações da Polícia Federal focaram nos seguintes crimes:
- Emboabas:
Crimes investigados: Usurpação de bens da União (ouro), organização criminosa, lavagem de dinheiro, extração ilegal do ouro, contrabando, falsidade ideológica, receptação qualificada e outros tipos penais. Foram bloqueados R$ 5,7 bilhões dos envolvidos.
Essa operação começou após a prisão em flagrante de dois norte-americanos – Frank Giannuzzi e Steven Bellino, e o brasileiro Brubeyk Nascimento, que tentaram embarcar para Nova York com 35 kg de ouro extraído de garimpos ilegais da região do rio Tapajós.
Os dois mandatos de prisão preventiva e 16 mandados de busca, além de outras medidas cautelares, foram cumpridos em Manaus, Anápolis (GO), Ilha Solteira (SP), Uberlândia (MG), Areia Branca (RN), Ourilândia do Norte (PA), Tucumã (PA) e Santa Maria das Barreiras (PA).
- Eldorado:
Crimes investigados: Contrabando e venda de ouro extraído de garimpos ilegais que teria movimentado quase R$6 bilhões.
Foram cumpridos dois mandados de prisão preventiva e 40 de busca e apreensão nos estados de Roraima, Amazonas, Goiás e Distrito Federal.
O esquema envolveria o contrabando de ouro venezuelano, o qual entraria clandestinamente no Brasil como pagamento pela exportação de alimentos por mercados de Roraima e do Amazonas.
- Lupi
Crimes investigados: Extração, comercialização e exportação ilegais de ouro extraído de reservas indígenas e unidades de conservação federal, bem como à lavagem do dinheiro, bens e ativos de origem ilícita.
Foram cumpridos cinco mandatos de busca e apreensão e um mandato de prisão preventiva em Anápolis (GO) e Manaus.
A Operação Lupi é decorrente das investigações realizadas na Operação Kukuanaland e na Operação Bullion, deflagradas em fevereiro e maio deste ano pela Polícia Federal.
A polícia investiga a hipótese de que o ouro extraído ilegalmente de reservas indígenas e unidades de conservação federal vinha sendo “esquentado”, mediante documentos ideologicamente falsos, nos quais o grupo declarava origem diversa da real, como se o metal tivesse sido extraído de área autorizada.