quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Saúde mental: AM perdeu dois mil policiais em quatro anos

Dados exclusivos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram cenário preocupante.
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Nos últimos quatro anos, mais de dois mil policiais civis e militares do Amazonas foram afastados da instituição por problemas relacionados à saúde mental.

Transtornos depressivos, crises de pânico, reações de stress grave, transtornos mistos foram alguns dos motivos que afastaram os servidores de segurança pública das suas atividades.

Os dados foram obtidos pelo RealTime1 por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Tanto na Polícia Civil quanto na Polícia Militar, os dados são alarmantes.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a atividade policial é a segunda mais perigosa no mundo. No Brasil, é a primeira da lista.

Policiais militares afastados

Na Polícia Militar, atualmente existem cerca de 5,7 mil policiais na ativa. Desse número, em 2019, foram afastados 309 por problemas psicológicos/psiquiátricos.

No primeiro ano da pandemia, em 2020, apenas 44 saíram de licença pelo mesmo motivo. Em 2021, 775 foram afastados e, em 2022, 757 deixaram o serviço, mesmo que de forma temporária.

Sendo assim, na Polícia Militar o número de servidores afastados por problemas relacionados à saúde mental de 2020 para 2021 teve um aumento de 1.661%. Já de 2021 para 2022, esses dados apresentaram uma redução de 2%.

Nos dados disponibilizados, a PM não informa qual tipo de problemas relacionados à saúde mental fizeram os policiais deixarem o serviço.

Policiais Civis afastados

Na Polícia Civil, atualmente existem cerca de 1.919 mil agentes na ativa, de acordo com o relatório de Governança e Capacidade, do Fórum de Segurança Pública.

Em dados enviados pela instituição que informa cada tipo de doença mental, a reportagem compilou os dados relacionados à saúde mental.

Em 2019, 124 policiais civis foram afastados por episódios depressivos, transtorno depressivo recorrente, transtornos fóbicos ansiosos, outros transtornos ansiosos, reações de stress grave, transtornos mistos de conduta e das emoções.

Em 2020, ano pandêmico, 158 foram afastados. Em 2021, apenas 87 e, em 2022, apenas 20 policiais.

A Polícia Civil informou que os dados relacionados ao ano de 2022 estão prejudicados, ou seja, não correspondem à realidade dos afastamentos do ano passado.

Profissionais que convivem com a morte

De acordo a pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e doutora em sociologia, Fernanda Novaes Cruz, uma das questões que mais impressiona no estudo do suicídio e adoecimento mental dos policiais é o quanto eles convivem com a morte, sejam em ações policiais ou a de seus próprios companheiros, fato que para outras pessoas de diferentes atuações profissionais não é comum.

“Acho que tem algumas questões que me impressionam muito lidando com a polícia. Uma é o quanto esses profissionais convivem com a morte. A gente não está acostumado com a perda com essa intensidade que esses profissionais estão, isso pra mim já é um indicativo muito grande de que profissão é essa que estamos falando”, disse.

Para a pesquisadora, com a ausência de dados confiáveis para realizar um corte histórico em âmbito nacional do adoecimento policial, ainda não se pode confirmar que temos uma polícia adoecida mentalmente, mas o que impressiona é a quantidade de agentes de segurança saindo do serviço com pouco tempo de atuação.

“Sim, a gente encontra muito adoecimento, policiais adoecidos muito jovens com pouco tempo de trabalho, com dois, três anos e a gente começa a se questionar que tipo de trabalho é esse. Essas situações de risco todas que esses profissionais vivenciam no dia a dia vão colocando eles em uma posição de desconfiança muito grande, de receio com essa sociedade.”

“Acho importante pensar que quando a gente está defendendo qualidade de vida, saúde mental para os policiais, a gente está defendendo a população também, porque são esses policiais que estão nas ruas, que estão portando armas, que a gente não sabe como isso pode extrapolar no dia a dia”, afirmou a doutora Fernanda Novaes.

CPA Leste oferece acolhimento psicológico aos policiais militares

Em parceria com a Faculdade Fametro, o Comando de Policiamento da Zona Leste (CPA Leste) oferece acolhimento psicológico aos policiais militares que atuam na área.

Conforme o coordenador do programa, professor e psicólogo Diego Cavalcante, mesmo oferecendo atendimento de forma voluntária e de graça, a procura pela escuta especializada é muito baixa, por parte dos policiais militares da área.

“O programa começou no SPA Leste, mas foi percebido que os policiais tinham receio por ser lá, então foi transferido para a Fametro. Mesmo na unidade da zona leste, a procura era muito baixa. Isso acontece por receio, medo de transparecer como fraco para corporação, de ser motivo de chacota, de piada para outros colegas de farda.”

“Chegamos a receber verbalizações de alguns policiais perguntando se o que eles falassem ia ser levado ao alto comando da PM. Há um tabu no meio militar por essa questão do atendimento psicológico e isso dificulta muita, ele acaba muitas vezes não indo ou não procurando atendimento especializado”, explicou.

PM e PC possuem departamento voltado à saúde mental

Tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar do Amazonas possuem um departamento de saúde que oferece atendimentos aos agentes de segurança com problemas relacionados à saúde mental.

Na delegacia geral da PC funciona o Departamento de Controle e Avaliação (DCA). O servidor que necessitar de atendimento deverá realizar o agendamento da consulta com antecedência pelos números (92) 3214-2245 e 3214-2243.

A PM possui o Centro de Psicologia (CPSI) que dispõe de oito Oficiais de Saúde Psicólogos, os quais estão empregados diretamente na prevenção, manutenção e promoção do bem-estar psicológico dos policiais militares dos quadros da ativa, da inativa, bem como de seus dependentes.

 O agendamento para os serviços está disponível todas às sextas-feiras, a partir das 08h, basta que o interessado mande mensagem no WhatsApp institucional, cujo número é o (92)98842-1975

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